Coçar os olhos e histórico familiar estão entre as principais dúvidas da população. Entenda os riscos e formas de tratamento.
Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE |
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No mês de conscientização sobre o ceratocone, a campanha Junho Violeta acende o alerta para uma condição que afeta a estrutura da córnea, gerando dúvidas frequentes sobre suas causas, formas de transmissão e tratamentos. Para esclarecer o que é mito e o que é verdade sobre a doença, o Jornal do Médico® conversou com a médica oftalmologista Dra. Andressa Guimarães. A especialista, que atua no Rio de Janeiro, desmistificou desde hábitos corriqueiros até o impacto da gestação e o real risco de cegueira, destacando que os avanços da medicina têm transformado o prognóstico dos pacientes.
Jornal do Médico®: Dra. Andressa, o hábito de coçar os olhos é frequentemente associado ao ceratocone. Isso é fato ou fake?
Dra. Andressa: É verdade. Sim, coçar os olhos causará um atrito diário, proporcionando com que o paciente tenha um afinamento e uma protrusão da córnea — ou seja, a córnea vai ficando bicuda, como um cone mesmo. Ela vai ficando fina, flácida e curva. A tríade é essa: ela vai ficando mais fina, mais flácida e mais curva, assim causando o ceratocone.”
Jornal do Médico®: Jornal do Médico®: O uso intensivo de telas, como computadores e smartphones, pode causar a doença?
Dra. Andressa: Não, isso aí já é fake. Porque, na realidade, isso proporciona com que o paciente tenha o olho seco. O uso do celular e das telas faz com que se tenha o olho seco e, a partir daí, a pessoa pode começar a coçar mais. Mas, obviamente, não há uma relação direta; é uma relação indireta.
Jornal do Médico®: Muitos pacientes recebem o diagnóstico com medo do centro cirúrgico. Descobrir o ceratocone significa que a pessoa obrigatoriamente precisará de um transplante de córnea?
Dra. Andressa: Não, isso é um mito. Graças a Deus, a fila para transplantes de córnea vem reduzindo significativamente ao longo dos anos. Isso se deve ao surgimento de alternativas cirúrgicas e terapêuticas muito eficazes, como o implante do anel intracorneano (Anel de Ferrara) e o procedimento de Crosslinking. O transplante fica reservado apenas para os casos mais extremos e tardios.
Jornal do Médico®: Se os pais têm ceratocone, os filhos vão nascer com a doença obrigatoriamente?
Dra. Andressa: Certamente não, isso também é fake. Existe, sim, uma herança genética e um histórico familiar que favorecem e aumentam a predisposição para que a pessoa desenvolva o ceratocone. No entanto, ele não se comporta como uma condition genética dominante, portanto não há essa obrigatoriedade de transmissão de pais para filhos.
Jornal do Médico®: O ceratocone pode evoluir para a cegueira total?
Dra. Andressa: É bem raro, bem difícil. Só se tiver condições associadas. Por exemplo, se o ceratocone tiver uma entrada de água na córnea, que se chama hidropisia — e mesmo assim a pessoa ainda vê nas laterais. Ou se a pessoa tiver glaucoma associado; aí ela pode perder o nervo óptico devido ao glaucoma, na verdade. O ceratocone favorece a pessoa com a córnea fina a ter cegueira pelo glaucoma caso ela tenha essa associação, ou por situações da retina, mas não pelo ceratocone primariamente.
Jornal do Médico®: E em relação à vaidade e ao dia a dia: quem tem a condição está proibido de usar maquiagem nos olhos?
Dra. Andressa: Pode usar sim, especialmente as maquiagens hipoalergênicas. É preciso apenas ter cuidado com os colírios e ter cuidado para não coçar os olhos. Não é proibido. No pós-operatório imediato é que a gente pede para não usar por um mês.
Jornal do Médico®: Para fechar, uma dúvida comum entre as mulheres: a gestação pode acelerar a progressão do ceratocone?
Dra. Andressa: Sim, isso é fato. Há uma relação dessa variação hormonal feminina fazendo com que, no período gestacional, ocorra uma evolução do ceratocone. A explicação fisiopatológica exata ainda não é totalmente existente, mas acredita-se que é devido ao colágeno da córnea, que fica mais frágil e mais flácido, podendo favorecer ao aumento do ceratocone, sim.
Sobre a entrevistada:
Andressa Guimarães, CRM/RJ 5268094-0 RQE Nº: 17344 é médica oftalmologista formada pela Faculdade de Medicina de Campos em 1999, fez Residência no Hospital da Polícia Militar do Rio de Janeiro e, em seguida, fellowship no Hospital do Olho de Botafogo (2003-2010), é Diretora da Clínica de Olhos da Cidade situada em Botafogo, Rio de Janeiro.