Artigo publicado na Nature em 05/08/2026, onde os pesquisadores americanos afirmam que os tratamentos atualmente existentes para alergia alimentar são limitados.
Seis pessoas com alergia grave a amendoim, passaram a tolerar o alimento, após receberem um transplante de microbiota fecal, segundo um estudo publicado em 5 de agosto na revista Science Translational Medicine.
Esse pequeno estudo, envolvendo 15 pessoas, fornece a primeira evidência, de que transplantes de microbiota fecal, a transferência de bactérias intestinais obtidas a partir de amostras de fezes de doadores saudáveis, podem tratar alergias alimentares. “Até agora, isso havia sido observado apenas em modelos com camundongos. Agora temos resultados em humanos. E isso é empolgante”, afirma a Dra. Cathryn Nagler, pesquisadora de imunologia da Universidade de Chicago, em Illinois.
Antes de participarem do estudo, os voluntários não conseguiam ingerir mais de 100 miligramas de proteína de amendoim, quantidade encontrada em menos de meio amendoim, sem apresentar uma reação imunológica. Quatro meses após o transplante, uma pessoa conseguiu consumir 300 miligramas de proteína de amendoim, e cinco pessoas conseguiram ingerir 600 miligramas ou mais, o equivalente a cerca de dois amendoins e meio. “Ver qualquer tipo de eficácia em humanos” é algo notável, acrescenta a Dra. Nagler.
As opções de tratamento para alergias alimentares são limitadas; a recomendação padrão é que as pessoas evitem o alérgeno, e carreguem uma injeção de adrenalina para uso caso sejam expostas a ele, e apresentem uma reação imunológica.
Médicos afirmam, que o efeito duradouro observado em alguns participantes do estudo, é importante. “O potencial de essa terapia proporcionar um benefício duradouro é realmente muito empolgante”, diz o Dr. Edwin Kim, alergista da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. “Esse tem sido um desafio com as outras terapias atuais: o benefício diminui com o tempo, exigindo tratamento e exposição contínuos para ser mantido.”

Primeiros indícios
Algumas pesquisas associaram alergias alimentares a níveis baixos de certas bactérias intestinais. Estudos com camundongos também demonstraram que, o tratamento dos animais com grupos de várias espécies de bactérias intestinais, ajudava a controlar as alergias alimentares. Isso levou pesquisadores a sugerir que transplantes de microbiota fecal, provenientes de pessoas sem alergias alimentares, contendo uma ampla variedade de bactérias intestinais, poderiam atenuar a resposta do sistema imunológico em pessoas alérgicas.
Nesse novo estudo, os pesquisadores administraram aos participantes, uma pílula inodora e insípida, contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis, que não tinham alergia a amendoim. A maioria dos participantes recebeu 36 pílulas em um único dia, sem apresentar efeitos colaterais graves. Cinco dos participantes também receberam antibióticos durante quatro dias antes do transplante.
Os autores sugerem, que as bactérias podem não ter se estabelecido nas nove pessoas que não responderam ao tratamento, possivelmente devido a diferenças relacionadas ao sexo (cinco das seis pessoas que responderam eram homens), ao fato de as bactérias terem sido administradas em um único dia, ou porque a maioria das pessoas que não responderam, também não recebeu antibióticos antes do tratamento.
Os pesquisadores também transplantaram bactérias intestinais de amostras de fezes dos participantes para camundongos, e descobriram que as bactérias de pessoas que responderam ao tratamento, também protegeram os animais do desenvolvimento de alergia a uma proteína do ovo. Em contrapartida, os camundongos que receberam bactérias de pessoas que permaneceram altamente sensíveis, desenvolveram alergia à proteína do ovo.
Como os estudos com camundongos testaram um alérgeno diferente, é provável que o tratamento com transplante fecal funcione para mais do que apenas alergias a amendoim, diz o coautor do estudo o Dr. Talal Chatila, imunologista da Harvard Medical School em Boston, Massachusetts.
A equipe identificou uma espécie de bactéria, Bacteroides ovatus, que ofereceu proteção aos camundongos, contra o desenvolvimento de alergia. Identificar uma bactéria específica, capaz de tornar o sistema imunológico menos reativo, “é o ‘Santo Graal’ da alergia alimentar”, diz o Dr. Chatila.
No entanto, os pesquisadores ressaltam, que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergias alimentares, ainda está longe de ser utilizado na prática clínica. Com financiamento suficiente, envolvimento de capital de risco e entusiasmo, “levaria cerca de dez anos” para que as bactérias fossem aprovadas pelos órgãos reguladores, diz o Dr. Alexander Khoruts, gastroenterologista da Universidade de Minnesota em Minneapolis.
Os autores estão prestes a concluir o recrutamento para um segundo estudo, de maior porte, que esperam que forneça mais pistas sobre quais outras bactérias têm efeito positivo, e a quem esse coquetel de bactérias provavelmente beneficiará. Nesse estudo, os participantes receberão uma dose maior das bactérias intestinais, cerca de 12 vezes superior, distribuída ao longo de um mês.
“O que esperamos é que a modulação do microbioma possa levar a um ponto, em que não seja mais necessário usar a injeção de adrenalina, e seja possível consumir certa quantidade de amendoim”, diz a coautora do estudo Dra. Rima Rachid, imunologista da Harvard Medical School.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02440-5

Imagem: Magnific (Freepik)







