Do Futebol Feminino à Reabilitação Cardíaca: A Força da Medicina do Esporte na Saúde e na Alta Performance

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico


Atualmente à frente da saúde do futebol feminino profissional do Vasco da Gama, o Dr. Guilherme Tavares transita diariamente entre a alta performance dos gramados e o cuidado minucioso das clínicas de reabilitação cardíaca. Nesta entrevista exclusiva, o médico, pós graduado em Medicina Esportiva, Cardiologia Esportiva e Nutrologia Esportiva, compartilha sua bagagem e visão sobre o futuro da área. Confira:

Jornal do Médico® Rio: Dr. Guilherme, como a Medicina do Esporte consegue atuar com segurança na recuperação da capacidade funcional, na remodelação miocárdica e na proteção do coração de pacientes que enfrentam condições cardíacas graves?

Dr. Guilherme Tavares: A Medicina do Exercício e do Esporte atua com segurança quando transforma o exercício físico em uma intervenção terapêutica individualizada, e não em uma recomendação genérica. Em pacientes cardiológicos, isso começa com uma estratificação de risco detalhada, para entendermos quem é o nosso paciente, suas condições, limitações e fatores de risco. A partir daí, definimos intensidade, volume, tipo de exercício e critérios de progressão. O paciente deve sempre ser acompanhado de perto, com todos os equipamentos necessários e uma equipe multidisciplinar capacitada.

“A Medicina do Exercício e do Esporte atua com segurança quando transforma o exercício físico em uma intervenção terapêutica individualizada, e não em uma recomendação genérica.”

Jornal do Médico® Rio: E como essa prescrição rigorosa se reflete na prática clínica e na qualidade de vida desse paciente?

Dr. Guilherme Tavares: Na prática, o treinamento bem prescrito melhora a capacidade funcional, aumenta a tolerância ao esforço, favorece o controle autonômico, melhora a função muscular periférica e reduz fatores de risco como hipertensão, resistência insulínica, obesidade e sedentarismo. Esse conjunto de adaptações contribui para uma remodelação cardiovascular mais favorável e para maior proteção do coração contra novos episódios.

O ponto central é entender que segurança não significa restringir demais. Significa encontrar a dose correta: estímulo suficiente para gerar adaptação, mas com todos os cuidados necessários. Quando bem conduzida, a reabilitação cardíaca deixa de ser apenas uma etapa após o evento cardiovascular e passa a ser uma estratégia ativa de reconstrução da saúde e da autonomia do paciente. Ela atua não apenas na forma física, mas também na melhora da saúde mental e social.

“Segurança não significa restringir demais. Significa encontrar a dose correta: estímulo suficiente para gerar adaptação, mas com todos os cuidados necessários.”

Jornal do Médico® Rio: Com a sua experiência passando por diferentes clubes e, atualmente, no futebol feminino profissional do Vasco da Gama, qual evolução você tem observado nos bastidores do esporte de elite em relação ao rastreio preventivo e à blindagem da saúde cardiovascular dos atletas?

Dr. Guilherme Tavares: A principal evolução que tenho observado é a saída de uma medicina apenas reativa para uma medicina cada vez mais preventiva, protocolar e integrada. No esporte de elite, especialmente no futebol profissional, não basta avaliar o atleta apenas quando ele apresenta algum sintoma. Hoje, o cuidado cardiovascular precisa começar antes mesmo de a temporada iniciar, continuar ao longo do calendário e envolver não só exames, mas também vigilância clínica, controle de carga, educação da comissão técnica e um plano de emergência bem treinado.
Atendimento médico no futebol feminino do Vasco da Gama

Dr. Guilherme Tavares durante avaliação médica no Futebol Feminino do Vasco da Gama | Foto: João Gabriel Alves

Jornal do Médico® Rio: Como funciona esse protocolo de rastreio moderno e qual o desafio de diferenciar o “coração de atleta” de uma patologia real?

Dr. Guilherme Tavares: Do ponto de vista prático, o rastreio cardiovascular moderno passa por uma anamnese completa, com história clínica pessoal e familiar bem feita, exame físico detalhado, eletrocardiograma de 12 derivações e, quando indicado, exames complementares como laboratoriais, ecocardiograma, teste ergométrico ou cardiopulmonar e demais avaliações que o médico julgar necessárias em cada caso. O objetivo é diferenciar adaptações fisiológicas do “coração de atleta” de sinais de doença cardiovascular potencialmente associada a arritmias graves ou morte súbita. Esse cuidado é ainda mais importante porque o futebol combina alta intensidade, esforços intermitentes e grande demanda emocional e competitiva.
Rastreio médico preventivo e cardiologia do esporte

Foto Divulgação

Jornal do Médico® Rio: E no futebol feminino, como essas avaliações têm se adaptado?

Dr. Guilherme Tavares: No futebol feminino, vejo também uma mudança muito positiva: as atletas estão sendo cada vez mais olhadas dentro das suas particularidades, e não simplesmente comparadas ao modelo masculino. Existem diferenças fisiológicas, hormonais, antropométricas e de adaptação cardiovascular que precisam ser consideradas na avaliação, na interpretação dos exames, na prescrição de treino e no acompanhamento diário. É como sempre dizemos: “Não basta adaptar o masculino. É necessário entender o feminino”.

Mas talvez a maior evolução seja entender que rastrear não elimina totalmente o risco. Por isso, a blindagem cardiovascular real combina prevenção primária e resposta rápida: equipe médica capacitada, desfibrilador acessível, reconhecimento imediato de parada cardíaca, RCP precoce e plano de ação emergencial treinado. Com o crescimento exponencial do futebol feminino, hoje temos mais estrutura, equipamentos e visibilidade, o que também se reflete em mais ciência e entendimento das necessidades das atletas. Ainda estamos longe de onde queremos chegar, mas certamente estamos muito mais perto do que há alguns poucos anos.

“Não basta adaptar o masculino. É necessário entender o feminino.”

Jornal do Médico® Rio: Diante do calendário intenso do futebol, o desgaste físico e o overtraining são desafios constantes. Como a equipe médica trabalha no controle de carga diária para evitar lesões?

Dr. Guilherme Tavares: O calendário do futebol exige que o departamento de saúde trabalhe de forma integrada, com participação ativa da medicina, preparação física, fisiologia, fisioterapia, nutrição, psicologia e comissão técnica. Hoje, não se controla apenas o treino; controla-se a resposta individual da atleta ao treino e como isso deve ser pensado em sua recuperação. Duas jogadoras podem receber a mesma carga externa, mas responder de maneiras completamente diferentes em termos de fadiga, dor, sono, desempenho e risco de lesão.
Acompanhamento de recuperação física e controle de carga no Vasco

Dr. Guilherme Tavares, médico Futebol Feminino do Vasco da Gama | Foto: João Gabriel Alves

Jornal do Médico® Rio: Quais dados e métricas vocês utilizam no dia a dia para fazer essa monitorização individualizada?

Dr. Guilherme Tavares: Na rotina, usamos uma combinação de dados objetivos e subjetivos: volume de treino, distância percorrida, acelerações, desacelerações, sprints, minutos jogados, percepção subjetiva de esforço, dor muscular, qualidade do sono e estado de humor, dentre outros fatores. A ideia é identificar sinais precoces de fadiga acumulada antes que ela se transforme em queda de performance ou lesão.

O recovery também precisa ser individualizado. Envolve sono adequado, nutrição, hidratação, reposição energética, estratégias regenerativas, controle de viagens, ajuste de carga e, principalmente, tomada de decisão diária. Em semanas com muitos jogos, às vezes o melhor treino é recuperar bem; em outros momentos, é preciso manter estímulos de força e velocidade para que a atleta não perca capacidade competitiva. Uma das principais mudanças dos últimos anos foi a discussão e o estudo cada vez maior com relação ao recovery: descanso bem feito também faz parte do jogo.

No futebol feminino, esse olhar é ainda mais importante porque estamos lidando com atletas de alto rendimento em um cenário de crescimento acelerado da modalidade, com calendários cada vez mais exigentes. Monitorar carga não é reduzir intensidade; é escolher melhor quando intensificar, quando proteger e quando recuperar. O objetivo final é simples: manter a atleta disponível, saudável e performando no mais alto nível pela maior parte do tempo. Quanto mais atletas disponíveis e saudáveis, mais opções a comissão técnica tem no elenco para performar. Essa é a “dor de cabeça” mais prazerosa que podemos proporcionar a eles.
Dr. Guilherme Tavares monitorando a saúde das atletas nos gramados

Dr. Guilherme Tavares e equipe do Futebol Feminino do Vasco da Gama | Foto: João Gabriel Alves

Jornal do Médico® Rio: A transição da teoria para a prática do exercício em pacientes comuns exige muito critério. Quais são os principais parâmetros fisiológicos e clínicos que o médico do esporte deve monitorar para garantir que a alta intensidade traga benefícios sem sobrecarregar o coração?

Dr. Guilherme Tavares: A prescrição de exercício em alta intensidade começa muito antes do treino: começa na avaliação clínica. O médico precisa conhecer o diagnóstico, as medicações, o histórico familiar, sinais e sintomas, pressão arterial, ritmo cardíaco, função ventricular, presença de isquemia, arritmias e o nível real de capacidade funcional. Em pacientes com maior risco, o teste ergométrico ou, idealmente, o teste cardiopulmonar, ajudam a definir zonas seguras de treinamento com mais precisão.

“Exercício físico não é apenas prevenção. Exercício é tratamento; e, como todo tratamento potente, precisa de prescrição precisa.”

Jornal do Médico® Rio: E durante a realização da atividade física em si, o que deve ser observado de perto?

Dr. Guilherme Tavares: Na prática, os principais parâmetros são a frequência cardíaca, a pressão arterial, a percepção subjetiva de esforço, os sinais e sintomas associados, o comportamento eletrocardiográfico e a presença de dor torácica, dispneia desproporcional, tontura, palpitações ou queda de rendimento inexplicada. Quando usamos o teste cardiopulmonar, conseguimos ir além: avaliamos VO₂ pico, limiares ventilatórios, pulso de oxigênio, eficiência ventilatória e a resposta da frequência cardíaca e eletrocardiográfica ao esforço. Isso permite prescrever intensidade com muito mais segurança.

Portanto, o segredo está em individualizar a dose. A alta intensidade pode ser uma ferramenta excelente para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, o metabolismo, a função vascular e a autonomia, mas só é segura quando existe critério médico, progressão gradual e monitorização adequada com uma equipe multidisciplinar envolvida.

“A alta intensidade só é segura quando existe critério médico, progressão gradual e monitorização adequada com uma equipe multidisciplinar envolvida.”

Jornal do Médico® Rio: Como fundador e professor do projeto de extensão de Medicina Esportiva da UFRJ, como você avalia o atual cenário de formação dessa especialidade no país? O que é fundamental para o seu crescimento ético?

Dr. Guilherme Tavares: Vejo a Medicina Esportiva no Brasil em um momento de grande expansão, mas também de grande responsabilidade. Boa parte da população está mais interessada em performance, longevidade, composição corporal, prevenção de doenças e retorno seguro ao exercício. Ao mesmo tempo, o esporte de alto rendimento exige médicos cada vez mais preparados para lidar com fisiologia, cardiologia, ortopedia, nutrição, reabilitação, controle de carga, urgências em campo e tomada de decisão sob pressão.

Na formação, o ponto fundamental é mostrar que a Medicina Esportiva não é apenas cuidar de lesão ou liberar atestado. É uma especialidade clínica, funcional e preventiva, que precisa dominar tanto o manejo do atleta profissional quanto o do paciente comum que quer sair do sedentarismo, tratar obesidade, hipertensão, diabetes ou doença cardiovascular.

Infelizmente, quase não temos essa área nas grades curriculares da maioria das faculdades pelo país. Por isso decidi criar esse projeto de extensão na UFRJ: para dar oportunidade aos alunos de conhecerem uma área que não para de crescer, aproximando o estudante da prática real, estimulando o raciocínio crítico e ajudando a formar, desde cedo, os meus futuros colegas de profissão.

“Medicina Esportiva não é apenas cuidar de lesão ou liberar atestado. É uma especialidade clínica, funcional e preventiva.”

Jornal do Médico® Rio: Quais pilares devem guiar o futuro da especialidade para evitar modismos ou tratamentos sem evidência científica?

Dr. Guilherme Tavares: Para crescer com qualidade, a especialidade precisa manter três pilares: ética, evidência e interdisciplinaridade.

Ética: para não prometer resultados fáceis ou vender performance sem segurança.
Evidência: para que a prescrição de exercício, suplementação, reabilitação e retorno ao esporte sejam guiados por ciência, e não por modismos.
Interdisciplinaridade: porque o cuidado esportivo moderno depende de um diálogo constante com a cardiologia, ortopedia, fisioterapia, nutrição, psicologia, fisiologia e preparação física. Sozinho, você não chega a lugar nenhum. Juntos, o foco maior se torna sempre o cuidado com o paciente ou atleta.

Acredito que o futuro da Medicina Esportiva no Brasil é muito promissor, desde que a formação acompanhe a complexidade da área. Precisamos formar profissionais de saúde capazes de, principalmente, proteger vidas, interpretando dados de performance com critério e tomando decisões individualizadas, entendendo o exercício como um processo transformador, seja por saúde ou por rendimento.

“Para crescer com qualidade, a especialidade precisa manter três pilares: ética, evidência e interdisciplinaridade.”

Jornal do Médico® Rio: O Brasil será o palco da Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino em 2027. Diante desse cenário histórico, como você enxerga a evolução da medicina esportiva dedicada especificamente às mulheres?

Dr. Guilherme Tavares: A Copa do Mundo Feminina no Brasil representa um marco esportivo extremamente importante e gratificante, mas também uma oportunidade médica sem precedentes. O futebol feminino cresceu muito em visibilidade, profissionalização e exigência física, e a medicina esportiva precisa acompanhar esse avanço com protocolos específicos para mulheres, e não simplesmente reproduzir modelos construídos a partir do futebol masculino.

A atleta feminina tem particularidades fisiológicas, hormonais, biomecânicas e metabólicas que impactam diretamente a performance, a recuperação e o risco de lesão. No futebol, isso aparece de forma muito clara nas lesões de joelho, especialmente no ligamento cruzado anterior (LCA), cujo risco é descrito como duas a até oito vezes maior em mulheres em comparação aos homens, ocorrendo frequentemente em idades mais jovens. A prevenção precisa envolver força, controle neuromuscular, estabilidade de quadril, mecânica de salto e aterrissagem, desaceleração, mudança de direção e controle rigoroso de carga.
Estádio do Maracanã em Rio de Janeiro

O lendário Maracanã e os estádios brasileiros serão palcos da histórica Copa do Mundo Feminina em 2027 | Foto: Divulgação

Jornal do Médico® Rio: E quanto aos aspectos hormonais e fisiológicos, como o ciclo menstrual, como a ciência médica tem se posicionado?

Dr. Guilherme Tavares: Esse é outro ponto fundamental: entender melhor o ciclo menstrual, sintomas associados, disponibilidade energética, deficiência de ferro, sono, recuperação e a resposta individual ao treinamento. A literatura ainda reconhece lacunas importantes sobre como as variações hormonais interferem na performance e no risco de lesão, mas já é claro que monitorar essas informações ajuda a individualizar melhor o treino, o recovery e a prevenção.

Inclusive, a FIFA está investindo no maior estudo já produzido no mundo relacionando o futebol feminino, ciclo menstrual e a prevenção de lesões. Nos próximos anos, certamente teremos muito mais informações para levar a teoria à prática e conseguir melhorar ainda mais a nossa entrega de saúde dentro do esporte feminino.

Vejo a medicina esportiva dedicada às mulheres caminhando para um modelo mais completo, menos genérico e mais personalizado. Isso inclui rastreio cardiológico, prevenção musculoesquelética, saúde ginecológica, nutrição, saúde mental, controle de carga e protocols específicos de retorno ao jogo. Mais do que um grande evento, a Copa do Mundo no Brasil deve deixar um legado: estruturar melhor o cuidado da atleta feminina desde a base até o alto rendimento. Teremos o prazer de viver o maior evento de futebol mundial aqui pertinho, nos nossos estádios e com a nossa torcida. Isso é gratificante demais. Estou muito ansioso!

“Mais do que um grande evento, a Copa do Mundo no Brasil deve deixar um legado: estruturar melhor o cuidado da atleta feminina desde a base até o alto rendimento.”

Sobre o entrevistado:

Dr. Guilherme Tavares é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação em Medicina Esportiva, Cardiologia Esportiva e Nutrologia Esportiva.

Atualmente, é o Médico do Futebol Feminino Profissional do Club de Regatas Vasco da Gama, médico responsável pela reabilitação cardíaca do Laboratório de Performance Humana (LPH), Coordenador médico do núcleo de teste ergométrico da BRMED e Sócio-Fundador da MVP (Most Valuable Performance). No âmbito acadêmico, atua como Fundador e professor do projeto de extensão de Medicina Esportiva da UFRJ.

Marcado:

Revista Digital Rio

Cadastre-se gratuito para receber as edições do Jornal do Médico® Rio em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará