Superdotação: quando uma criança precisa ser vista antes de ser compreendida

Superdotação: quando uma criança precisa ser vista antes de ser compreendida.
No dia 10 de agosto, foi celebrado o Dia Mundial da Superdotação, uma data que nos convida a olhar com mais atenção, sensibilidade e acolhimento para crianças que, muitas vezes, estão diante de nós, mas permanecem invisíveis.

Fala-se pouco sobre superdotação e, muitas vezes, ela é confundida com boas notas ou facilidade para aprender. Mas uma criança superdotada é muito mais do que um número ou um desempenho escolar.
Ela pode ser extremamente curiosa, perceber detalhes que passam despercebidos, ter uma memória extraordinária, buscar novidades e apresentar ideias incomuns para sua idade. Ao mesmo tempo, pode sentir profundamente, ter dificuldades de relacionamento e apresentar uma maturidade intelectual muito maior do que sua maturidade emocional.

Como ressalta a psicóloga especialista nessa área, Maria Fernanda Marinho, compreender a singularidade de cada criança é essencial para que ela seja acolhida em suas necessidades, potencialidades e também em suas fragilidades.

Não é preciso “consertar” essa criança. É preciso compreendê-la. Quando suas necessidades são ignoradas, podem surgir perda de autoestima, isolamento, dificuldades de relacionamento e até evasão escolar. Por isso, pais, professores e profissionais precisam aprender a olhar para além do comportamento.

Às vezes, aquilo que parece desinteresse é tédio. Aquilo que parece inquietação pode ser uma mente que precisa de novos desafios. E aquilo que parece excesso de sensibilidade pode ser uma criança sentindo o mundo com uma intensidade que ainda não sabe como explicar.

A escola tem um papel fundamental. Precisamos criar ambientes onde essas crianças possam aprender, criar, questionar e também simplesmente ser crianças. O desenvolvimento intelectual não pode acontecer às custas do desenvolvimento emocional.

Hoje, 260 mães em Fortaleza estão unidas nessa luta, promovendo encontros mensais, atividades culturais e, principalmente, espaços de acolhimento, escuta e troca. Porque nenhuma mãe deveria precisar lutar sozinha para que seu filho seja compreendido. João Pedro Veloso, aos 10 anos, tem QI 143, é membro da Mensa Internacional e já escreveu dez livros. Ao seu lado, sua mãe, Alexandra Veloso, dedica-se à causa das crianças superdotadas, ajudando a levar essa discussão para famílias e escolas. Divulgar informação também é uma forma de cuidar.

Que professores aprendam a reconhecer essas crianças, que famílias encontrem acolhimento e que profissionais possam orientar sem rotular. E, acima de tudo, que nenhuma criança precise diminuir sua própria luz para ser aceita. Toda criança merece ser vista em sua singularidade, compreendida em suas necessidades e respeitada em todo o seu potencial.

Porque superdotação não é apenas ter uma mente que aprende depressa. É também ter um coração que precisa ser cuidado. E quando uma criança finalmente encontra alguém que a olha e diz “eu vejo você”, talvez comece ali uma das formas mais bonitas de inclusão: a possibilidade de ela descobrir que não precisa esconder quem é para merecer pertencer. Ver uma criança é o primeiro passo. Compreendê-la é um gesto de amor.

Rossana Köpf – Psicanalista

Imagem: Magnific (Freepik)

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