Artigo publicado na Nature em 17/08/2026,onde os pesquisadores chineses afirmam que à medida que as mudanças climáticas se intensificam, é urgente que os cientistas compreendam como o calor noturno dificulta o descanso e a recuperação do nosso corpo.
O aquecimento global não se resume ao calor durante o dia. As noites também estão ficando mais quentes. Em maio, Délhi registrou uma temperatura mínima noturna de 32,4 °C, e outras partes da Índia, permaneceram de 3 °C a 5 °C acima do normal após o anoitecer. Enquanto a Europa Ocidental vivenciava o mês de junho mais quente já registrado, a França marcou uma mínima noturna recorde de 22 °C, e a Saxônia Oriental, na Alemanha, sofreu com uma temperatura histórica de 29,4 °C. Em julho, temperaturas noturnas recordes, superiores a 27 °C, intensificaram a sensação de abafamento em cidades das costas do Golfo e do Atlântico dos EUA.
O calor afeta o sono das pessoas. Dois terços dos participantes de uma pesquisa no Reino Unido relataram dificuldades para dormir, durante a onda de calor de junho, sendo que quase metade perdeu pelo menos três horas de sono por noite. Uma análise de mais de 1.300 cidades constatou que, entre 2020 e 2025, cada habitante perdeu, em média, quase 56 horas de sono por ano, devido ao calor noturno.
As consequências vão além da perda de sono. Em 28 cidades do Leste Asiático, ondas de calor noturnas intensas, foram associadas a um aumento de 3% nas mortes (excluindo aquelas decorrentes de lesões e outras causas externas). Em Hong Kong, noites longas e quentes, com temperaturas em torno de 30 °C por 12 horas, foram associadas a um aumento de 3,1% nas internações hospitalares de emergência, chegando a 5,3% entre idosos e pessoas de baixa renda.
No entanto, os cientistas ainda não compreendem totalmente como as noites quentes afetam a saúde e o sono. Para obter um panorama completo, medir apenas as temperaturas é insuficiente; é preciso estudar também as respostas fisiológicas das pessoas ao calor. A seguir, apresentamos o que é necessário para compreender melhor essa relação e lidar com o calor noturno.
À noite, o organismo está biologicamente programado para a recuperação.
O sono é fundamental para a saúde, pois permite que o corpo e o cérebro se recuperem das tensões diárias. Regidos pelo nosso sistema circadiano, os níveis de ativação fisiológica e a atividade cardiovascular, diminuem durante o sono. Nosso sistema nervoso, metabolismo e sistema imunológico são reequilibrados. Diferentes estágios do sono, auxiliam na consolidação da memória e sustentam mecanismos de controle cognitivo e emocional.
À medida que relaxamos e nos preparamos para dormir, a temperatura central do corpo cai, desencadeando processos de restauração. Os vasos sanguíneos periféricos se dilatam e transferem calor do centro do corpo para a pele e as extremidades. No entanto, quando a temperatura no quarto está muito alta, e, especialmente, quando o ambiente está úmido, o resfriamento do corpo fica prejudicado, comprometendo a qualidade do sono.
Quando estão acordadas, as pessoas podem beber água, movimentar-se, abrir janelas, usar ventiladores ou buscar locais mais frescos, para restaurar o equilíbrio térmico. Durante o sono, porém, a capacidade de tomar medidas para controlar a temperatura corporal é limitada. Assim, torna-se mais difícil adormecer e manter o sono em um ambiente quente.
O calor noturno também pode sobrecarregar o organismo. O coração bombeia mais sangue para a pele, a fim de dissipar o calor interno, o que eleva a frequência cardíaca. A sudorese prolongada pode levar à desidratação. Essas exigências físicas, podem ser particularmente desgastantes para idosos e pessoas com sistemas cardiovasculares fragilizados.
Em climas quentes, todas essas perturbações se combinam para aumentar os riscos à saúde. A exposição ao calor eleva a ativação fisiológica, manifestada pelo aumento da frequência cardíaca e da sudorese. Acordar para beber água ou mudar de posição, interrompe a sequência restauradora dos estágios do sono. O sono fragmentado pode, por sua vez, prejudicar a recuperação cardiovascular, metabólica, imunológica, cognitiva e emocional, contribuindo para a fadiga, a redução da atenção e a desregulação de processos fisiológicos no dia seguinte.
Pesquisadores da área médica compreendem partes desses processos, mas ainda não os quantificaram adequadamente, nem determinaram plenamente, como eles se conectam em um ciclo vicioso. As mudanças climáticas significam, que um número muito maior de pessoas, será exposto a noites quentes com mais frequência. À medida que todos nos adaptamos, pesquisadores e formuladores de políticas públicas, precisam questionar não apenas qual será a temperatura diurna, mas se a noite permitirá que as pessoas se resfriem, durmam e se recuperem.
Calor noturno: cinco prioridades para futuras pesquisas

• Definir o que constitui uma noite de recuperação térmica. Relacionar as condições externas e do ambiente de dormir com os ritmos da temperatura corporal, o sono e o desempenho no dia seguinte.
• Estabelecer limiares relevantes para a saúde. Diferenciar anomalias meteorológicas de limiares adequados para a emissão de alertas, medidas habitacionais ou apoio energético.
• Analisar o efeito do acúmulo de calor ao longo de vários dias. Determinar se a recuperação noturna incompleta gera um estresse residual mensurável e altera as respostas a episódios de calor subsequentes.
• Avaliar intervenções com foco na recuperação. Analisar alertas, habitação e estratégias de resfriamento urbano com base na qualidade do sono, na recuperação fisiológica e no desempenho no dia seguinte, e não apenas na temperatura.
• Mensurar as desigualdades nas oportunidades de recuperação. Integrar fatores como qualidade da habitação, pobreza energética, jornada de trabalho, responsabilidades de cuidado e acesso a sistemas de resfriamento, à avaliação de riscos relacionados ao calor.
É preciso monitorar os riscos do calor para a saúde
As métricas convencionais de calor noturno, baseadas em anomalias meteorológicas, são úteis para acompanhar tendências climáticas. Por exemplo, uma “noite tropical” é frequentemente definida, como aquela em que a temperatura do ar externo permanece acima de 20 °C ou mais, em algumas regiões, como 25 °C na Coreia do Sul. Índices de noites quentes consecutivas, contabilizam sequências de duas ou mais noites, que ultrapassam um determinado limite de temperatura.
No entanto, esses dados são inadequados para fins médicos. Eles não captam, por exemplo, a temperatura interna dos ambientes, nem o momento exato e a duração da exposição ao calor, em relação à qualidade do sono ao longo da noite. Defendemos que pesquisadores e formuladores de políticas devem, em vez disso, avaliar o risco noturno, com base no desequilíbrio entre a carga térmica a que uma pessoa é exposta, e a capacidade de recuperação do seu organismo.
A carga térmica pode ser quantificada, pelo número de horas em que as condições do quarto ultrapassam um limite de temperatura relevante para a saúde durante o período de sono, e a recuperação dos participantes pode ser medida de várias formas.
Sensores de baixo custo, podem ser utilizados para registrar a temperatura e a umidade do ar a cada poucos minutos. Em estudos de campo, esses sensores poderiam ser instalados nos quartos, e os participantes usariam dispositivos no pulso, para registrar horários e continuidade do sono, movimentação, temperatura da pele, frequência cardíaca e variabilidade da frequência cardíaca. A medição da pressão arterial, da fadiga, da sonolência e da atenção pela manhã, pode indicar se a recuperação ocorreu adequadamente durante a noite.
Amostras reduzidas, poderiam ser usadas para validar estudos maiores, por meio do monitoramento detalhado da temperatura central do corpo e dos estágios do sono, utilizando sensores e eletrodos aplicados à pele. Mediante consentimento informado, os registros dos participantes poderiam ser associados aos seus dados de saúde.
Tais métodos já são tecnicamente viáveis, e têm sido utilizados para investigar os efeitos da qualidade do ar no sono, revelando uma associação entre quartos mais quentes e mal ventilados, e uma qualidade de sono inferior, especialmente entre idosos. Uma plataforma chamada HeatSuite, demonstrou a viabilidade de integrar dados de sensores ambientais, com informações de dispositivos vestíveis (como medições de pressão arterial e temperatura), em estudos com idosos.
Essas abordagens devem agora ser estendidas, a grupos monitorados antes, durante e depois de noites quentes. Observações repetidas são essenciais, para verificar se a recuperação noturna incompleta, deixa um estresse fisiológico residual por vários dias. Devem ser coletados dados ambientais, fisiológicos e relativos ao sono ao longo de várias semanas, complementados por breves pesquisas diárias sobre sintomas, uso de medicamentos e comportamentos de resfriamento.
Tais estudos poderiam determinar, em que medida a recuperação incompleta, contribui para o aumento da mortalidade e das internações hospitalares durante noites quentes. Poderiam também investigar os efeitos de noites longas ou repetidas com calor moderado, e verificar se a temperatura interna em tempo real, é mais relevante do que a temperatura mínima externa.
Não se deve presumir que os limiares sejam universais; é preciso recrutar grupos representativos que abranjam diferentes climas, tipos de moradia e grupos sociais. Condições ambientais idênticas, podem gerar riscos desiguais, uma vez que a idade, doenças crônicas, a qualidade da habitação e o acesso a meios de resfriamento, influenciam a capacidade das pessoas de dissipar calor e manter um sono contínuo.
Uma nova abordagem para o enfrentamento do calor

Uma abordagem centrada na recuperação, altera o objetivo das estratégias de gestão do calor. O sucesso não deve ser medido apenas pela redução dos picos de temperatura diurnos, ou pela diminuição do tempo que as pessoas passam ao ar livre, mas também pela garantia de um período de sono termicamente seguro. Isso exige intervenções integradas nas áreas de habitação, energia, saúde pública e planejamento urbano.
Os alertas de saúde relacionados ao calor, devem informar sobre os riscos tanto diurnos quanto noturnos, incluindo situações de noites quentes consecutivas, superaquecimento interno e interrupções no fornecimento de energia. Os avisos devem ser emitidos antes do anoitecer, e oferecer orientações práticas sobre como reduzir o calor em casa, utilizar a ventilação e ventiladores com segurança, e identificar pessoas em situação de risco, que possam precisar de assistência adicional.
As políticas habitacionais devem tratar os quartos, como espaços fundamentais para a saúde. É preciso considerar medidas como sombreamento, isolamento térmico, ventilação controlável e sistemas de resfriamento eficientes e confiáveis, capazes de proteger as pessoas durante ondas de calor extremo, bem como a acessibilidade financeira à energia elétrica; afinal, a presença de um aparelho de ar-condicionado, não garante que a família consiga pagar contas mais altas para utilizá-lo. As normas técnicas devem avaliar, se os ambientes de dormir, conseguem dissipar o calor após dias sucessivos de altas temperaturas, e não apenas, se as edificações atendem aos critérios de conforto diurno.
Estudos sobre o período noturno, também devem ser incorporados às pesquisas climáticas e às estratégias de gestão pública. Os planos de saúde pública, devem estender suas ações de alcance e contingência para ondas de calor, também para o período noturno. Políticas relacionadas a materiais de construção, vegetação, ventilação e dissipação de calor residual, devem ser avaliadas com base em seu impacto nas temperaturas do ar noturno e dos quartos. Os centros de resfriamento, não devem ser avaliados apenas pela frequência de público durante o dia, mas também pela sua capacidade de oferecer um refúgio acessível, seguro e adequado para dormir. O resfriamento urbano, deve ser avaliado ao longo de todo o ciclo diário. Intervenções que reduzem as temperaturas superficiais à tarde, como a criação de áreas sombreadas, podem ter efeitos limitados após o pôr do sol. O calor armazenado nos materiais, bem como as emissões de gases de efeito estufa, podem retardar o resfriamento dos ambientes internos durante a noite.
A equidade deve tornar-se um princípio central da governança, voltada para a recuperação. Inquilinos, famílias em situação de pobreza energética, moradores de andares superiores ou de habitações de alta densidade, trabalhadores do turno da noite e informais, idosos, pessoas com doenças crônicas e comunidades com fornecimento de eletricidade instável, recebem a mesma previsão do tempo que os demais, mas dispõem de oportunidades radicalmente diferentes, para se recuperar de ondas de calor extremo. Se a capacidade de resfriamento, depender inteiramente do poder aquisitivo individual, a recuperação transforma-se em um bem privado distribuído com base na renda.
As noites quentes demonstram que o risco climático é determinado não apenas pela temperatura máxima, mas também pela capacidade de resposta do corpo, da moradia e da cidade após o pico de calor ter passado.
Qualquer cidade ou região que afirme gerir eficazmente o risco relacionado ao calor, deve ser capaz de responder a uma pergunta direta: quem consegue realmente dormir, refrescar-se e recuperar-se durante uma noite quente, e quem é forçado a iniciar um novo dia carregando um desgaste fisiológico não resolvido?
Artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02532-2

Imagens: Magnific (Freepik)







