Um “super” El Niño pode transformar a Amazônia, e a maior floresta tropical do mundo pode estar condenada.

Artigo publicado na Nature em 11/08/2026,onde pesquisadores de diferentes países afirmam que a Floresta Amazônica pode estar mais próxima de um ponto de não retorno do que os cientistas imaginavam. Há quem tema que secas e incêndios possam levá-la a um declínio irreversível.

O El Niño está de volta com força total. Uma enorme massa de água quente está se expandindo no Oceano Pacífico equatorial, e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), estima em 80%, a probabilidade de que esse fenômeno climático perturbador, se transforme em um evento “muito forte” até o final do ano. Alguns especialistas preveem que este El Niño, caminha para se tornar o mais intenso em pelo menos 150 anos.

Para a floresta amazônica, o momento não poderia ser pior

Os eventos de El Niño, que ocorrem aproximadamente a cada dois a sete anos, alteram os padrões climáticos em todo o mundo. Na bacia amazônica, eles geralmente provocam secas severas. O El Niño mais recente, formado em junho de 2023 e dissipado em junho de 2024, atingiu a floresta com especial intensidade, ressecando grandes áreas, reduzindo o nível de rios importantes a mínimas históricas, e contribuindo para a pior temporada de incêndios em mais de duas décadas.

Alguns pesquisadores sugerem que o El Niño em formação, somado ao aquecimento e à redução da umidade causados ​​pelas mudanças climáticas, pode levar a floresta além de seu “ponto de não retorno” (tipping point), um termo que descreve o limiar a partir do qual uma reação em cadeia descontrolada de ressecamento, morte de árvores e incêndios florestais, começaria a se propagar de forma irreversível pela bacia amazônica. Se isso ocorresse, a floresta tropical daria lugar a savanas e áreas de vegetação degradada ao longo de décadas, liberando potencialmente uma quantidade de carbono equivalente a vários anos de emissões globais, e reduzindo drasticamente as chuvas em toda a América do Sul e além.

Os impactos do atual El Niño, podem não ser tão severos quanto sugerem as previsões mais pessimistas; muito depende da intensidade que ele atingirá e de quanto da floresta será consumido pelo fogo. No entanto, a Amazônia enfrenta esse desafio em um estado de fragilidade, e alguns pesquisadores que conhecem bem a região, estão apreensivos. “Se o próximo El Niño for realmente tão forte quanto prevemos, poderá resultar em grandes incêndios florestais na Amazônia, espalhando-se por áreas antes inimagináveis”, afirma Bernardo Flores, especialista em resiliência amazônica do Instituto Juruá, em Manaus (Brasil). “Veremos qual proporção da floresta poderá morrer em decorrência disso.”

Traumas passados

Parte da preocupação, segundo os pesquisadores, reside no fato de que grandes áreas da Amazônia, podem ainda estar se recuperando das secas severas de 2023–2024. Hao Bai, ecólogo florestal da Universidade de Pequim, na China e seus colegas, chegaram a essa conclusão analisando 33 anos de dados de satélites de radar, que monitoravam dois indicadores de saúde da floresta, a quantidade de umidade retida e a quantidade de biomassa vegetal viva, em toda a bacia amazônica. Durante as secas de 2023–2024, os pesquisadores constataram, que as medições de radar, associadas a ambos os indicadores, caíram para os níveis mais baixos desde o início dos registros via satélite, em 1992. Os autores estimam que menos da metade da floresta afetada retornará às condições anteriores à seca em um prazo de sete anos, o que representaria a recuperação mais lenta já registrada após uma grande seca na Amazônia.

Para Bai e seus colegas, essas descobertas ressaltam a crescente vulnerabilidade da Amazônia a secas intensas impulsionadas pelo El Niño, e pelas mudanças climáticas causadas pela atividade humana. Se grandes secas continuarem a ocorrer antes que a floresta tenha se recuperado das anteriores, o estresse recorrente poderá enfraquecê-la, reduzindo sua capacidade de resistir a extremos climáticos.

A floresta também pode estar mais próxima de seu ponto de não retorno do que estimativas anteriores sugeriam, segundo um estudo liderado por Nico Wunderling, especialista em modelagem do sistema terrestre da Universidade Goethe, em Frankfurt (Alemanha). A própria floresta amazônica gera grande parte da chuva que cai na bacia; por isso, Wunderling e seus colegas, incluindo Flores, analisaram como esse processo poderia mudar, modelando o movimento da umidade na atmosfera, e testando os impactos do aquecimento global e do desmatamento. O modelo indica que, sem desmatamento, a Amazônia permaneceria relativamente estável mesmo com um aquecimento global de até 3,7–4,0°C acima dos níveis pré-industriais. No entanto, se o desmatamento eliminar entre 22% e 28% da floresta tropical, um aquecimento de apenas 1,5–1,9 °C, poderia ser suficiente para desencadear um colapso que, com o tempo, transformaria até 80% da floresta em áreas degradadas, e ecossistemas semelhantes a savanas. O mundo está se aproximando rapidamente de um aquecimento de 1,5 °C. A Amazônia, dependendo da forma como a medição é feita, já teve cerca de 17% de sua área desmatada, afirma Wunderling.

“Não estamos muito longe disso”, acrescenta ele. Flores afirma, que a floresta tropical pode estar ainda mais próxima de um limite crítico climático, do que o estudo sugere, pois os autores não levaram totalmente em conta outros fatores prejudiciais, principalmente os incêndios florestais, que impõem um enorme estresse à floresta, e são intensificados pelos eventos de El Niño.

Uma vez que uma área da floresta queima, diz Flores, ela permanece inflamável por décadas. “E, se continuarmos a ter esses episódios de El Niño cada vez mais intensos, fenômenos que ganham força progressivamente, a situação torna-se muito preocupante”, continua ele. “A área de floresta inflamável aumenta continuamente, podendo chegar a um crescimento exponencial.” Dependendo da extensão da floresta queimada durante o atual El Niño, diz Flores, “ela poderia, basicamente, ultrapassar o ponto de não retorno”.

“Podemos já ter ultrapassado esse ponto crítico”, acrescenta. “Não sabemos ao certo. Mas o fato é que, se já o ultrapassamos, ou se estivermos prestes a fazê-lo, a situação é extremamente preocupante.”

Há muito tempo, existe uma divergência entre os cientistas que estudam a floresta tropical sobre onde exatamente se situa o ponto de não retorno da Amazônia, e quão próximo ele está. Outra complicação, segundo eles, é que pode não ser óbvio que esse ponto foi ultrapassado até que o fato já tenha ocorrido.

Alguns pesquisadores, incluindo Dolors Armenteras, especialista em ecologia do fogo na Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá, afirmam que partes da Amazônia podem já ter ultrapassado seus pontos de não retorno locais, mas que o limite crítico para toda a bacia ainda não foi atingido. “Acredito que seja uma possibilidade plausível para algumas partes da Amazônia”, diz ela, “mas não para toda a bacia”.

Carlos Nobre, cientista do sistema terrestre da Universidade de São Paulo (USP), que, na década de 1990, foi um dos primeiros a sugerir que a Amazônia poderia enfrentar um limiar climático crítico, concorda com Armenteras. “A Amazônia meridional está próxima de um ponto de não retorno”, afirma ele, mas “não a Amazônia setentrional nem a noroeste”.

Luciana Gatti, cientista atmosférica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em São José dos Campos, que há mais de duas décadas mede o balanço de carbono da Amazônia a partir de pequenas aeronaves, tem observado o acúmulo de sinais de alerta. Suas pesquisas mostram que a região sudeste da Amazônia, já deixou de ser um sumidouro de carbono, para se tornar uma fonte de carbono, liberando mais do que consegue armazenar. Os incêndios florestais deflagrados durante o El Niño de 2023–2024 “produziram as maiores emissões na Amazônia desde 2010”, afirma ela, acrescentando estar “realmente preocupada com as consequências” de um El Niño potencialmente mais forte chegando tão cedo.

A intensa temporada de incêndios de dois anos atrás, significa que “ter outro este ano, poderia ser devastador para a Amazônia”, diz Santiago Botía, cientista atmosférico do Instituto Max Planck de Biogeoquímica em Jena, na Alemanha.

Wunderling compartilha dessas preocupações, mas ressalva: “Não acredito que um único ano, mesmo que fosse um El Niño muito forte, seria suficiente para ultrapassar o ponto de não retorno”. A longo prazo, no entanto, “é exatamente assim que um ponto de não retorno ocorrerá de fato”, continua ele. “Veremos mais eventos extremos, devido ao El Niño, por exemplo. Eles se tornarão mais severos. E, então, o tempo de recuperação das árvores simplesmente não será suficiente”.

Futuro incerto

Há muitas incertezas sobre o ponto de não retorno da Amazônia, e sobre a evolução do fenômeno El Niño.

As previsões sobre a chegada do El Niño estão melhorando, mas os pesquisadores alertam que é mais difícil prever a intensidade final do evento. Botía acrescenta, que outros fatores também podem impactar significativamente a Amazônia. Temperaturas anormalmente altas no Atlântico Norte tropical, por exemplo, agravaram a seca durante o El Niño de 2023–2024. “Se não houver o efeito combinado do Oceano Atlântico”, diz Botía, “o El Niño, isoladamente, pode acabar sendo menos intenso do que esperamos”.

À medida que o fenômeno se intensifica, os pesquisadores acompanharão atentamente os padrões de precipitação, a duração da estação seca e a extensão dos incêndios, que normalmente atingem o pico em agosto e setembro no sul da Amazônia, e por volta de março mais ao norte. Cerca de 3,56 milhões de hectares da floresta amazônica foram consumidos pelo fogo em 2024, uma área aproximadamente do tamanho de Taiwan. A grande maioria dos incêndios, 95%, segundo Nobre, foi provocada por ação humana.

No entanto, pesquisadores apontam alguns avanços positivos. Segundo o INPE, o desmatamento na Amazônia brasileira foi cerca de 11% menor entre julho de 2024 e julho de 2025, em comparação com o período de 12 meses anterior. A área afetada por incêndios também registrou uma queda significativa.

Essas tendências trazem esperança a Flores. “Espero que o governo brasileiro e os governos dos países amazônicos, realmente adotem as medidas necessárias para evitar incêndios florestais, pois pode haver grandes incêndios durante o próximo El Niño”, diz ele.

“Este próximo El Niño será um verdadeiro teste.”

Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02449-w

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Magnific (Freepik)

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