Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 09/09/2026, onde pesquisadores espanhóis afirmam que somente com uma cobertura vacinal eficiente, se pode impedir que doenças preveníveis por vacinas, se estabeleçam e se propaguem.
Dois moradores da Pensilvânia morreram após contraírem sarampo, atraindo nova atenção para uma doença, que os EUA haviam declarado eliminada. As mortes ocorreram em meio a um aumento no número de casos, com mais de 2.777 casos de sarampo confirmados nos EUA, até o momento.
Esse aumento é particularmente notável, porque apenas três mortes por sarampo foram registradas nos EUA entre 2001 e 2022, sendo a mais recente ocorrida em 2015. Posteriormente, o CDC confirmou três mortes em 2025.
O ressurgimento nos EUA faz parte de um fenômeno mais amplo, que afeta outros países com sistemas de saúde bem estruturados, e levanta uma questão importante: por que doenças que estiveram controladas por décadas, estão reaparecendo?
Durante décadas, doenças como sarampo, difteria e poliomielite, deixaram de ser ameaças cotidianas em muitos países de alta renda, graças à vacinação. No entanto, alguns desses patógenos voltaram a encontrar oportunidades para se propagar.
Na Europa, foram notificados 127.350 casos de sarampo em 2024, o dobro do número registrado no ano anterior, e o maior número contabilizado na região desde 1997. Além disso, foram registradas 38 mortes. Embora o número de casos tenha caído para 33.998 em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertaram, que o risco de novos surtos persistiria devido à existência de bolsões populacionais, com cobertura vacinal insuficiente.
A Itália oferece um exemplo particularmente marcante, de como doenças que antes pareciam relegadas ao passado, podem se tornar fatais.
Recentemente, uma menina de 4 anos não vacinada, morreu de difteria respiratória em Palermo, na Itália. O diagnóstico foi posteriormente confirmado pelo Instituto Nacional de Saúde da Itália. O caso ocorreu em um contexto da EU, onde a difteria continua sendo notificada, apesar da vacinação.
Em 2024, foram notificados 151 casos na UE e no Espaço Econômico Europeu, incluindo 83 causados pela Corynebacterium diphtheriae toxigênica e 65 causados pela Corynebacterium ulcerans.
O problema não se limita ao sarampo ou à difteria. Em 2022, os EUA notificaram um caso de poliomielite paralítica, em um adulto não vacinado em Nova York, o primeiro detectado no país desde 2013. O indivíduo estava infectado com um poliovírus, derivado de vacina do tipo 2 (VDPV2), e vírus geneticamente relacionados à amostra do paciente, foram posteriormente identificados em águas residuais de vários condados, evidenciando a ocorrência de transmissão comunitária.
Posteriormente, a Alemanha comunicou ao Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC), a detecção de poliovírus selvagem do tipo 1, em uma amostra de águas residuais de Hamburgo, embora nenhum caso humano associado tenha sido identificado.
Essa detecção seguiu-se a relatos de vários países da EU, incluindo Finlândia, Alemanha, Polônia e Espanha, que haviam detectado VDPV2 em águas residuais em 2024. Tais achados levaram o ECDC a recomendar o reforço da vacinação e da vigilância.
O ressurgimento desses patógenos, não significa que as vacinas deixaram de funcionar. Pelo contrário, evidencia uma questão fundamental: quando a cobertura vacinal diminui, aumenta o número de indivíduos suscetíveis. Esses casos, portanto, levantam uma questão mais ampla: o que está acontecendo com a vacinação em sociedades, que conseguiram manter essas doenças sob controle por décadas?
Dados Recentes
A vacinação infantil transformou a saúde global e evitou milhões de mortes; no entanto, o progresso na cobertura vacinal, desacelerou na última década.
Uma análise recente publicada na revista The Lancet, examinou a cobertura de 11 combinações de vacinas em 204 países e territórios, abrangendo o período de 1980 a 2023. A análise estimou, que a vacinação de rotina, evitou aproximadamente 154 milhões de mortes infantis desde 1974. Contudo, o progresso estagnou em muitas áreas desde 2010, e a cobertura de pelo menos uma vacina recomendada, caiu em 21 dos 36 países de alta renda analisados.
Esse declínio não se limitou a uma única vacina. Segundo o mesmo estudo, a cobertura da primeira dose da vacina contra o sarampo, diminuiu entre 2010 e 2023, em 100 dos 204 países estudados. Entre os países de alta renda, houve quedas na França, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos. A pandemia de COVID-19, agravou uma tendência, que já apresentava sinais de estagnação. Interrupções nos serviços de saúde e nos programas de imunização, levaram a perdas na cobertura, que não se recuperaram de forma uniforme.
Os dados mais recentes da OMS e do UNICEF, mostram que a cobertura vacinal diminuiu em alguns países, enquanto permaneceu estável ou se recuperou em outros. Portanto, não se pode presumir um declínio generalizado na vacinação, em todos os países de alta renda.
No entanto, por que isso está acontecendo? A resposta é mais complexa do que uma causa única. A análise da The Lancet, identificou desigualdades em saúde, consequências da pandemia e a estagnação dos programas de imunização, como principais barreiras à cobertura vacinal. Outro fator de importância crescente é a confiança nas vacinas.
A desinformação e a hesitação vacinal, podem reduzir a aceitação das vacinas, especialmente quando as doenças preveníveis por vacinação, deixam de ser percebidas como ameaças cotidianas. Contudo, nem todo indivíduo não vacinado hesita em se vacinar.
Dificuldades de acesso aos serviços de saúde, falta de informação, problemas para completar os esquemas vacinais e desigualdades sociais, também podem explicar algumas lacunas na cobertura.
O futuro dependerá, em grande medida, de qual dessas tendências prevalecerá. As projeções do estudo estimaram que, se a trajetória atual persistir, a cobertura global da segunda dose da vacina contra o sarampo, atingirá aproximadamente 76% até 2030, ficando bem abaixo da meta internacional de 90%. Em um cenário mais favorável, a cobertura poderia ultrapassar 85%, enquanto em um cenário desfavorável, poderia ficar abaixo de 63%. Esses números servem de alerta: manter a cobertura vacinal, exige não apenas disponibilizar as vacinas, mas também garantir, que elas cheguem a toda a população e que as pessoas confiem nelas.
Restaurando a Proteção Perdida
Diante dessa situação, restaurar a cobertura vacinal, não é apenas uma questão de compensar as doses que deixaram de ser administradas durante a pandemia. Na Europa, as estratégias atuais também buscam identificar, onde estão concentrados os grupos de pessoas não vacinadas e quais barreiras impedem alguns indivíduos de acessar ou aceitar a vacinação.
O ECDC estimou que cerca de 600.000 crianças entre 12 e 23 meses, podem não ter recebido, pelo menos uma das vacinas infantis recomendadas na Europa, e desenvolveu ferramentas para ajudar as autoridades de saúde a melhorar a aceitação e a cobertura vacinal.
Uma das estratégias envolve a vacinação de recuperação, que permite que pessoas não vacinadas no momento recomendado, completem seu esquema vacinal. Essas intervenções são combinadas com uma melhor identificação de indivíduos suscetíveis, e com medidas voltadas especificamente para comunidades onde a cobertura vacinal é mais baixa.
Na Romênia, por exemplo, certas regiões aumentaram a cobertura vacinal contra sarampo, caxumba e rubéola em 25%, durante o primeiro trimestre de 2026, após a implementação de medidas destinadas a reverter a queda nas taxas de vacinação.
A OMS e o UNICEF alertaram que, na Europa e na Ásia Central, a cobertura de várias vacinas infantis estagnou ou caiu em comparação com os níveis pré-pandemia.
O objetivo, portanto, não deve ser apenas retornar aos níveis anteriores à pandemia, mas garantir que as lacunas de imunidade continuem diminuindo, e que os sistemas de vacinação consigam detectar e corrigir rapidamente qualquer queda na cobertura. A vacinação é uma das intervenções de saúde pública mais eficazes. O desafio é garantir que essas ferramentas cheguem a todas as comunidades, e que a cobertura permaneça alta o suficiente, para impedir que doenças preveníveis por vacinas, se estabeleçam e se propaguem.
Link do artigo de origem: https://www.medscape.com/viewarticle/vaccines-worked-decades-why-are-diseases-returning-2026a1000xk1?src=

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