CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico
Plantões exaustivos sem planejamento, defasagem de honorários e a armadilha dos contratos precários: esses são alguns dos maiores obstáculos enfrentados pelos recém-formados em medicina. Para debater saídas práticas e fortalecer a liderança da nova geração, conversamos com o Dr. Luiz Flávio Vinciprova Fonseca, diretor da SOMERJ e conselheiro do CREMERJ, que antecipa as discussões centrais do I Encontro do Médico Jovem SOMERJ/AMB.
Jornal do Médico® – Quais são os erros mais comuns do recém-formado no início da carreira e o que ele precisa priorizar para não ficar refém apenas de plantões sem planejamento?
Dr. Luiz Flávio – Ao sair da faculdade, é natural querer independência financeira, recuperar o investimento feito na formação e começar a usufruir dos resultados de anos de dedicação. O problema surge quando a urgência de receber os primeiros honorários passa a comandar todas as decisões profissionais.
O médico começa aceitando plantões mal remunerados, assume jornadas excessivas, atua em diferentes serviços sem uma estratégia definida, frequentemente sofre com inadimplência e adia a especialização para um futuro que nunca parece chegar. Para evitar esse ciclo, ele deve reservar tempo aos estudos para se capacitar, principalmente por meio da residência médica. Com isso, dará consistência à sua carreira e conquistará força para buscar melhor remuneração no médio e longo prazo.
Jornal do Médico® – Diante de contratos fragilizados, pejotização e honorários defasados, como o associativismo protege na prática o dia a dia do médico jovem?
Dr. Luiz Flávio – Diante de contratos frágeis, da pejotização desregulada e de honorários defasados, o associativismo médico tem o papel fundamental de transformar a força individual — que muitas vezes é pequena perante hospitais, operadoras e grandes corporações — em uma voz coletiva capaz de lutar por condições dignas de trabalho, remuneração justa e segurança profissional.
O médico jovem ingressa no mercado em um momento de extrema vulnerabilidade. O recém-formado precisa conquistar seu espaço, acumular experiência prática, arcar com despesas imediatas e, frequentemente, estruturar os custos da especialização. Nesse cenário, pode acabar aceitando vínculos desfavoráveis e exigências que dificilmente toleraria se contasse com maior poder de negociação.
É exatamente aí que o associativismo se torna indispensável. Por meio da Associação Médica Brasileira (AMB) e de suas entidades federadas, como a SOMERJ no estado do Rio de Janeiro, o profissional encontra acolhimento, formação complementar, articulação institucional e representatividade legítima para a defesa da categoria.
“O associativismo médico tem o papel fundamental de transformar a força individual — muitas vezes pequena diante de grandes grupos e operadoras — em uma voz coletiva capaz de assegurar dignidade, segurança e remuneração justa.”
Jornal do Médico® – Como o I Encontro do Médico Jovem da SOMERJ/AMB foi desenhado para incentivar essa nova geração a ocupar espaços de decisão e liderar a defesa da classe médica fluminense?
Dr. Luiz Flávio – Este encontro foi planejado precisamente para encurtar a distância entre a nova geração e suas entidades de classe, estimulando a presença ativa no movimento associativo e preparando lideranças para assumir posições de decisão na defesa da Medicina.
Com uma programação diversificada, o evento promove o diálogo direto entre acadêmicos, médicos recém-formados, jovens especialistas e lideranças consagradas. Criamos um espaço legítimo de escuta, troca de vivências e formulação conjunta de saídas para as principais dores da profissão. Temas como planejamento de carreira, residência médica, inovação tecnológica, empreendedorismo, gestão financeira, posicionamento ético, saúde mental, segurança jurídica e associativismo ampliam a percepção dos participantes sobre seu papel social — que vai muito além do consultório, alcançando a formulação de políticas para a saúde.
A participação ativa de representantes da SOMERJ, AMB, CNMJ, CFM, CREMERJ e outras instituições reforça essa integração, permitindo que os jovens compreendam as instâncias de representação e descubram caminhos sólidos para participar das decisões que moldam o exercício profissional.
“O evento foi desenhado para encurtar distâncias: queremos que a nova geração compreenda os espaços de decisão institucional e participe ativamente das diretrizes que determinam o presente e o futuro da Medicina.”
Jornal do Médico® – Considerando os pilares de autonomia, defesa profissional e futuro da profissão, que mensagem o senhor deixa aos acadêmicos, residentes e recém-formados que estarão na Santa Casa nos dias 6 e 7 de novembro? O que eles podem esperar de diferencial dessa experiência para suas carreiras?
Dr. Luiz Flávio – O conhecimento é o alicerce da autonomia do médico. O aprendizado jamais se encerra na colação de grau ou na conclusão da residência; ele exige aperfeiçoamento constante.
Atravessamos um período em que a Medicina avança em velocidade inédita: são novas tecnologias, ferramentas de inteligência artificial, novos protocolos terapêuticos e transformações profundas nas relações trabalhistas. Nesse contexto, a educação médica continuada deixa de ser um mero diferencial curricular e se estabelece como exigência mandatória para uma atuação ética, resolutiva, segura e focada no paciente.
No tocante à defesa profissional, é imperativo ter plena clareza sobre direitos, deveres e sobre os riscos éticos, jurídicos e operacionais inerentes ao ato médico. A segurança do médico depende de organização técnica e engajamento associativo. Um exemplo claro dessa força é a atuação do Núcleo de Assuntos Parlamentares (NAP) da AMB, que fiscaliza e atua sobre proposições legislativas no Congresso Nacional, resguardando prerrogativas fundamentais da nossa profissão.
Buscamos assegurar um horizonte mais sólido para a Medicina: com melhor formação, honorários compatíveis, proteção jurídica e, acima de tudo, excelência na assistência prestada à sociedade.
O grande diferencial deste encontro na Santa Casa é justamente conectar conteúdo científico, realidade de mercado e consciência política. Os participantes sairão preparados para gerenciar a própria trajetória com visão crítica, entendendo como influenciar os rumos da saúde e da prática médica no Brasil.
“O conhecimento é o alicerce da autonomia do médico. Em um mercado em rápida transformação, a educação continuada e o respaldo associativo são os únicos escudos contra a precarização do ato médico.”
Sobre o entrevistado
O Dr. Luiz Flávio Vinciprova Fonseca é médico otorrinolaringologista (CRM: 5266630-0/RJ RQE: 33667), presidente da Sociedade Médica de Barra Mansa (RJ) e diretor da SOMERJ. Atua como conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ), é membro da Comissão Nacional de Equidade, Diversidade e Inclusão da Associação Médica Brasileira (CONEDI-AMB) e médico otorrinolaringologista da Prefeitura Municipal de Resende (RJ).
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