Por Trás do Jaleco: Dr. Helton Setta e o legado de cinco décadas dedicadas a aliviar a dor e formar gerações

Reportagem: Irma Lasmar
Jornalista MTB-RJ 26110
Coordenação: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE
Instagram: @jornaldomedico

Mais de cinco décadas de Medicina e a mesma empolgação de quando estudava para o vestibular: este é o Prof. Dr. Helton José Bastos Setta, 76 anos, responsável pela criação da Escola de Medicina e Cirurgia da UNIRIO, de onde hoje é professor emérito. Nascido e criado no bairro carioca do Lins de Vasconcelos, bem perto do Hospital Naval Marcílio Dias, o anestesista já vislumbrava desde cedo o caminho profissional que trilharia, estudando ostensivamente e militando pelas oportunidades. Tudo isso inspirado no único médico da família – seu primo – e com apoio irrestrito dos sete irmãos, do pai contador e da mãe auxiliar de enfermagem, a qual também revendia cosméticos, costurava e fazia doces para fora, além de ter acolhido provisoriamente várias moças órfãs ao longo dos anos. Estreando o projeto piloto do Mini.Doc “Por Trás do Jaleco” — nova série do Jornal do Médico® —, Dr. Helton revisitou sua caminhada em entrevista exclusiva. Em um relato comovente que alterna lágrimas e sorrisos, manifestou o amor incondicional pela arte de curar e o orgulho de inspirar sucessivas gerações na medicina.

Jornal do Médico: Como descobriu sua vocação e iniciou sua trajetória?

Prof. Dr. Setta: Na escola primária, eu tive a oportunidade de me vestir de marinheiro e isso me acendeu o desejo de entrar para a Marinha. Com o tempo, a vontade de ajudar as pessoas fez brotar a medicina em mim. Só que foi muito difícil: família pobre, estudo limitado… mas eu tinha uma vontade enorme. Então, me trancava na garagem e estudava até a exaustão. Na adolescência, eu tocava bateria numa banda e isso descarregava meu estresse. Costumo dizer que o meu lado baterista me ajudou bastante nessa caminhada. Quando prestei vestibular, em 1968, fui aprovado mas não classificado em várias faculdades. Então me juntei a mais de 50 colegas na mesma situação e fizemos uma grande manifestação em frente ao prédio do Ministério da Educação no Rio de Janeiro para pedir a criação de mais vagas. Aí o MEC nos mandou para a Universidade Federal do Amazonas! E eu fui, aos 19 anos, fazer Medicina em Manaus. Cursei os dois primeiros anos lá e depois vim transferido para a Faculdade de Medicina de Teresópolis.
Prof. Dr. Helton Setta - Mini.Doc Por Trás do Jaleco

Jornal do Médico: Por que escolheu a anestesia?

Prof. Dr. Setta: Por causa da dor. Seja qual for, física, moral ou sentimental, não tem sofrimento pior. A anestesia não cura, mas momentaneamente abranda a dor. Recebi apoio total dos meus pais e irmãos. E eu tinha um primo anestesista que me encantava com seus relatos. Aliás, era o único médico da família na época. Hoje o filho dele também é anestesista. Depois que fui para a reserva da Marinha, fiz o curso de Cuidados Paliativos e Dor na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“A anestesia não cura, mas momentaneamente abranda a dor. Seja qual for o sofrimento — físico, moral ou sentimental —, não há nada pior que a dor.”

Prof. Dr. Helton Setta no Laboratório de Habilidades

Jornal do Médico: Na Marinha o senhor alcançou o posto máximo como diretor de saúde. Mesmo no topo da hierarquia militar, por que nunca abriu mão da sala de aula e dos plantões no Hospital Gaffrée e Guinle?

Prof. Dr. Setta: Na Marinha, conforme se cresce na carreira, a parte técnica vai ficando um pouquinho de lado e dando espaço à parte administrativa, de gestão e de finanças. E eu sentia que faltava algo à minha medicina. Então, dar aulas e plantões me completava.
Prof. Dr. Helton Setta

Jornal do Médico: O que representa dedicar uma vida inteira a formar gerações de médicos?

Prof. Dr. Setta: É realmente gratificante ir a um congresso e encontrar com alunos que passaram por você há 30 anos e estão bem sucedidos, felizes, com uma porção de conquistas. Ensinar norteia o caminho, seja da anestesia ou da retidão. E consegui inspirar grande parte dos meus alunos que seguiram pela anestesiologia.
Encontro de gerações da medicina

Jornal do Médico: Pode mencionar um momento marcante em sua trajetória médica, que tenha ficado gravado na sua memória afetiva?

Prof. Dr. Setta: Eu estava no auge profissional na década de 1990 quando atendi no Marcílio Dias uma poetisa chamada Arlete, que estava apavorada em ser anestesiada. Eu, brincando muito com ela, de maneira gentil, sem nenhum medicamento, fiz com que ela ficasse extremamente tranquila. Ela ficou tão grata a mim que escreveu uma poesia sobre o acontecimento, sobre a angústia dela até encontrar um médico brincalhão. E concluía os versos afirmando que, se todos os professores fossem como eu, a alegria e a confiança seriam contagiantes. O poema, como ato de gratidão, marcou muito a minha vida. Até hoje nos falamos, e quando ela escreve livro novo me manda. Fazendo o que eu sabia e devia fazer, eu fiz o bem a alguém. Ensino aos meus alunos que ninguém cresce sozinho. É preciso dividir para multiplicar.
Prof. Dr. Helton Setta e alunos

Jornal do Médico: E neste mês comemorativo do Dia do Médico, diante de tantas tecnologias e transformações na saúde, qual é o real significado de exercer a medicina com alma?

Prof. Dr. Setta: Somente com alma, com paixão, com coração, com sentimento, com abraço, com agradecimento, e transmitindo confiança, é possível melhorar um paciente. Só assim ele tem a certeza e a tranquilidade de que o médico está ali como parceiro para ajudar a resolver aquilo que o aflige. E isso realmente faz bem para a gente. Com 52 anos de formado, ainda choro de emoção, e isso é muito bom. E nunca foi pelo dinheiro. Mesmo vindo de família humilde, aprendemos a dividir, e nada nos faltou. Caixão não tem gaveta. Da vida só levamos os sentimentos que temos e o respeito que conquistamos. Meus pais diziam que a verdadeira riqueza é o conhecimento e o saber. E se não pode dar nada a ninguém, ofereça ouvido e atenção. É gratificante ver meu nome na placa do laboratório, receber homenagens como patrono, ser escolhido paraninfo pelos alunos. Teve uma turma que colocou até meu nome na classe! Isso não tem preço.

“Caixão não tem gaveta. Da vida só levamos os sentimentos que temos e o respeito que conquistamos. A verdadeira riqueza é o conhecimento e o saber.”

Prof. Dr. Helton Setta em aula prática

Sobre o entrevistado:

Helton José Bastos Setta, CRM: 5221892-6/RJ é médico anestesiologista e Vice-Almirante Médico da Reserva da Marinha do Brasil. Casado, pai de dois filhos e avô de dois netos, possui graduação em Medicina pelo Centro Universitário Serra dos Órgãos (1974) e doutorado em Ciências Navais (1998).

Possui especializações em Dor e Cuidados Paliativos Oncológicos pela UFRJ (2012), em Anestesiologia pela UniRio (1988), em Medicina do Trabalho pela Fundacentro (1979), em Medicina Submarina e Escafandria pela Diretoria de Ensino da Marinha (1977) e MBA Executivo em Saúde pelo Coppead/UFRJ (2005). É Professor Emérito da UniRio, membro nato do Conselho Consultivo da Academia Brasileira de Medicina Militar (ABMM) e da Sociedade de Anestesiologia do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ), instituição que presidiu no biênio 2017/2018.

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Mini.Doc “Por Trás do Jaleco” em Vídeo

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