Artigo publicado na Nature em 20/10/2026, onde pesquisadores australianos afirmam que crescem as evidências sobre a “depressão circadiana”, mas são necessários mais dados, para alterar as diretrizes de diagnóstico e tratamento.
Uma em cada quatro pessoas com depressão, pode apresentar “depressão circadiana”, um quadro no qual perturbações no relógio biológico interno, contribuem para o transtorno mental, segundo um amplo estudo populacional e genético publicado hoje no British Journal of Psychiatry.
A pesquisa constatou que indivíduos com depressão circadiana, caracterizada por sono desregulado, baixa energia e redução da atividade física durante o dia, tendem a apresentar sintomas mais graves, com início em uma idade mais precoce, do que aqueles com outras formas de depressão. Além disso, esse grupo é composto majoritariamente por mulheres, e apresenta menor probabilidade de responder a antidepressivos convencionais.
Especialistas da área ressaltam que, embora as descobertas ampliem a compreensão clínica sobre as possíveis causas da depressão, os resultados são preliminares. São necessárias mais evidências, antes que a depressão circadiana possa ser formalmente reconhecida como um transtorno específico, ou que as diretrizes de tratamento sejam alteradas.
O transtorno depressivo maior é o segundo distúrbio de saúde mental mais comum em todo o mundo; contudo, sua gravidade e a resposta ao tratamento, podem variar consideravelmente de um indivíduo para outro. Segundo os autores, as pesquisas que buscam identificar os mecanismos subjacentes a essas diferenças, tiveram, até o momento, um impacto limitado no prognóstico e nas estratégias terapêuticas.
Estudos anteriores, já haviam associado a desregulação do ritmo circadiano à depressão. O relógio interno de 24 horas, controlado pelo cérebro, regula o ciclo sono-vigília, a liberação de hormônios e a digestão. Uma desregulação nesse relógio biológico, pode causar sensações semelhantes às do jet lag, ganho de peso, dificuldades de concentração e problemas de sono. O estudo mais recente buscou estabelecer a depressão circadiana como um subtipo específico e identificar seus principais sintomas.
Segundo a Dra. Colleen Loo, psiquiatra clínica e pesquisadora da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney (Austrália), o estudo representa um avanço importante na investigação dos mecanismos biológicos subjacentes, em alguns casos de depressão. “É uma contribuição extremamente valiosa para a ciência da compreensão da depressão”, afirma.
Uma em cada quatro
O estudo, que analisou 11.380 pessoas de ascendência europeia com depressão grave, revelou que quase um quarto, 2.604 indivíduos, preenchia pelo menos três dos seis critérios propostos para a depressão circadiana. Entre esses critérios, destacam-se a sonolência excessiva durante o dia, a sensação de cansaço ao despertar pela manhã e a preferência por manter hábitos noturnos (dormir e acordar mais tarde).
A sazonalidade (quando mudanças na luminosidade e na duração do dia afetam o humor), o atraso na fase do sono e o “jet lag” social (uma incompatibilidade entre o relógio biológico de uma pessoa e sua rotina social) também foram propostos como critérios. Os pesquisadores determinaram que, a presença de, pelo menos, três desses critérios classificaria um indivíduo como portador desse tipo de depressão.
A equipe constatou, que a depressão circadiana está associada a fatores de risco genéticos mais elevados, para o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e outros transtornos de humor, como a ansiedade e o transtorno depressivo maior. A coautora, Dra. Emiliana Tonini, pesquisadora na área de ritmos circadianos na Universidade de Sydney, afirma que isso pode significar, que pessoas com depressão circadiana, estão mais sujeitas a ter seus sintomas depressivos desencadeados por perturbações no ritmo circadiano ou por alterações no ciclo sono-vigília, como ocorre, por exemplo, com a mudança para o horário de verão ou com a chegada de um filho.
Eles também descobriram, que a depressão circadiana, está associada a um risco aumentado de inflamação e a um metabolismo desregulado. O coautor, Dr. Jacob Crouse, que também pesquisa ritmos circadianos na Universidade de Sydney, afirma que os resultados sugerem, que a disfunção metabólica pode afetar o humor, os níveis de energia e o sono de uma pessoa.
Tonini explica que a equipe espera que, ao identificar se o ritmo circadiano de um indivíduo contribui para sua depressão, seja possível orientar os médicos a sugerir tratamentos com maior probabilidade de eficácia. É comum que as pessoas experimentem diversos antidepressivos antes de obterem um controle efetivo dos sintomas, sendo que, em até 68% dos casos, não se observa melhora após o uso de antidepressivos convencionais.

Limitações do estudo
A Dra. Loo ressalta que o estudo se baseou em dados retrospectivos e autorrelatados sobre os sintomas; portanto, são necessárias mais investigações, para confirmar que a desregulação do ritmo circadiano pode, de fato, causar depressão.
O Dr. Malcolm Hopwood, psiquiatra e pesquisador da Universidade de Melbourne, na Austrália, aponta a necessidade de mais estudos, para verificar se esse tipo de depressão ocorre em populações além daquelas de ancestralidade europeia, bem como para entender como os indivíduos com esse quadro, respondem a medicamentos e outras intervenções terapêuticas.
“Estamos a pelo menos cinco a dez anos” de uma mudança definitiva na prática clínica, que incorpore o conceito de depressão circadiana, acrescenta ele, embora alguns profissionais possam começar a integrar o manejo do sono em suas práticas mais cedo.
Segundo a Dra. Loo, os resultados devem incentivar os médicos a avaliar e cuidar do sono de pacientes com depressão. “É uma questão de bom senso”, afirma. No entanto, o estudo não deve servir de base para que as pessoas classifiquem a si mesmas como portadoras de depressão circadiana, nem para que alterem, por conta própria, o uso de seus medicamentos.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-03359-7








