Artigo publicado na Nature em 14/07/2026,em que pesquisadores de diferentes países afirmam que as pesquisas correm contra o tempo para regenerar o timo, um órgão efêmero do sistema imunológico, na esperança de que isso retarde o envelhecimento.
Em 1996, o criobiólogo Dr. Gregory Fahy foi ao consultório de seu médico e, com argumentos convincentes, conseguiu obter uma quantidade de hormônio do crescimento suficiente, para um mês de tratamento. Sua esperança, reforçada por um único estudo realizado com ratos, era que as injeções o ajudassem a regenerar o timo, um órgão peculiar do sistema imunológico, que sofre atrofia e praticamente desaparece, à medida que as pessoas envelhecem. Regenerá-lo, pensava Dr. Fahy, o ajudaria a viver uma vida mais longa e saudável.
A melhora foi evidente, pelo menos de acordo com exames de ressonância magnética (RM), diz Dr. Fahy. Sua massa tímica funcional quase dobrou. No entanto, não estava tão claro, se isso o fazia sentir-se mais jovem. “Eu tinha apenas 46 anos na época, e estava praticamente no auge da minha saúde”, diz ele, embora tentativas posteriores de regenerar o tecido, o tenham deixado sentindo-se “energizado e invencível”.
O que começou como um auto experimento não regulamentado, evoluiu para uma série de pequenos ensaios clínicos conduzidos pela Intervene Immune, uma empresa biofarmacêutica sediada em Torrance, Califórnia, da qual Dr. Fahy é o diretor científico.
A empresa não está sozinha. Houve uma explosão de pesquisas sobre o timo nos últimos três anos, estimulada por relatos na literatura científica, indicando que a saúde desse órgão, antes considerado dispensável, é um provável indicador da saúde geral de uma pessoa. O entusiasmo aumentou quando dois estudos publicados este ano, relataram que a deterioração da saúde do timo, está associada a um risco maior de morte.
Os investidores estão reagindo. Em janeiro, a TECregen, uma empresa de biotecnologia sediada em Basileia, na Suíça, captou 10 milhões de francos suíços (US$ 12,4 milhões), para desenvolver terapias de regeneração do timo, que poderiam ajudar a retardar o envelhecimento e prevenir o câncer, segundo o site da empresa. Ela ainda não divulgou nenhum candidato a medicamento. Em outubro passado, a Zag Bio, uma empresa de biotecnologia focada no timo sediada em Cambridge, Massachusetts, foi lançada com um financiamento de US$ 80 milhões. Empresas de capital de risco e farmacêuticas, têm buscado contato com o Dr. Fahy e outros cientistas, além de iniciarem seus próprios programas de pesquisa. “O interesse atual nessa área é enorme”, diz Marcel van den Brink, médico-chefe e presidente do City of Hope, um hospital e centro de pesquisa em câncer localizado em Duarte, na Califórnia, que estuda o timo desde 1996. Havia uma “forte percepção de que eu estava perdendo meu tempo”, afirma ele. Mas agora, “as pessoas estão entrando em contato conosco” e levando a área a sério.
Órgão esquecido
Durante décadas, acreditou-se que o timo fosse um órgão vestigial. Ele foi “esquecido” e “menosprezado”, diz Georg Holländer, imunologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Na década de 1920, alguns pesquisadores supunham que o órgão estivesse envolvido na produção de cascas de ovos em aves, mas que tivesse funções limitadas em mamíferos. Décadas mais tarde, o biólogo e ganhador do Prêmio Nobel, Peter Medawar, descreveu o timo como “um acidente evolutivo sem grande importância”.
Eles estavam enganados. A importância do órgão passou despercebida pelos cientistas durante muito tempo, em parte porque mamíferos, que têm o timo removido cirurgicamente, parecem perfeitamente saudáveis. Foi apenas na década de 1960, quando o imunologista Jacques Miller realizou essas cirurgias em camundongos recém-nascidos, que a função do órgão foi descoberta. Camundongos filhotes sem timo, frequentemente sucumbiam a infecções e morriam. Eles apresentavam poucas células imunes em seus linfonodos.
Miller descobriu que o timo produz células T, um tipo de célula que ele também identificou na mesma época, e que recebeu esse nome em homenagem ao órgão. Sabemos hoje, que as células T são uma parte crucial do sistema imunológico, atacando células cancerígenas e combatendo infecções.
Nos seres humanos, o timo encolhe drasticamente ao longo da vida. Após a puberdade, a maior parte de suas células, transforma-se em tecido adiposo não funcional. A produção de células T diminui. Aos 40 anos, o timo produz cerca de um quarto da quantidade de células T, que produzia aos 8 anos. Aos 65 anos, produz apenas 10%.
Foco na função
Por esse motivo, muitos cientistas presumiram, que indivíduos mais velhos, não precisavam mais de novas células T. “As pessoas têm a impressão de que só é importante produzir células T quando se é jovem”, diz Jennifer Cowan, imunologista da University College London. “E isso, claramente, não é verdade.”
Três descobertas mudaram esse paradigma. Primeiro, um estudo de 2023 constatou, que pessoas que tiveram o timo removido cirurgicamente, apresentavam um risco quase três vezes maior de morte, e o dobro da probabilidade de desenvolver câncer, cinco anos após a cirurgia, em comparação com pessoas que não haviam passado pelo procedimento. “Foi algo muito impactante”, diz Cowan, “a ponto de as pessoas não quererem remover o timo, caso leiam esse artigo.”
Em seguida, em março, dois estudos consecutivos analisaram, em conjunto, dados de mais de 31.000 indivíduos, e estenderam as conclusões para pessoas com timos intactos, que haviam atrofiado naturalmente com a idade. Um deles revelou que um timo menor está associado a um risco mais elevado de morte, bem como a um maior risco de desenvolver câncer e doenças cardiovasculares, como a insuficiência cardíaca. O segundo estudo constatou, que um timo menor, está associado a uma pior sobrevida após a administração de imunoterapia para o câncer.
Alguns cientistas ressaltam que os estudos apontam apenas para correlações. “Ao analisar retrospectivamente, há muitas peças do quebra-cabeça, que simplesmente não podem ser conhecidas”, diz Daniel Boffa, cirurgião torácico da Universidade Yale. Ele e seus colegas realizaram um estudo, que constatou pouca diferença no risco de recorrência de tumores entre pessoas que tiveram todo ou parte do timo removido, para tratar câncer de timo.
Ainda assim, o interesse comercial e acadêmico pelo timo, cresceu significativamente. “O seu novo crescimento tornou-se uma questão importante”, diz Yousuke Takahama, biólogo do desenvolvimento do Instituto Nacional do Câncer dos EUA. “Assim como reiniciar o computador, é como reiniciar nosso sistema imunológico.”
Cientistas acreditam, que o timo possui um grande potencial regenerativo. Por exemplo, o timo sofre atrofia durante a gravidez e se recupera após o parto, afirma David Scadden, hematologista do Massachusetts General Hospital.
No entanto, existem poucos métodos comprovados para regenerar o timo. A terapia de privação de andrógenos, um tratamento padrão para o câncer de próstata, pode aumentar a produção de células T pelo timo. A restrição calórica, também pode ter esse efeito. Um tratamento para crianças nascidas sem timo obteve aprovação regulatória em 2021, mas é caro e complexo, envolvendo o transplante de tecido doador, cuidadosamente processado para o músculo da coxa da criança.
Quanto a um tratamento para regenerar um timo envelhecido, a abordagem mais avançada atualmente, é o coquetel do Dr. Fahy, composto por hormônio do crescimento e outros compostos, administrado via injeção quatro vezes por semana. Um grupo de dez voluntários apresentou sinais de reversão do envelhecimento, após um ano de uso dos medicamentos. A equipe do Dr. Fahy analisou os “relógios epigenéticos” dos participantes, um conjunto de modificações químicas nos cromossomos, que muda de forma previsível com a idade. Os resultados sugeriram que o tratamento reverteu os relógios epigenéticos das pessoas em uma média de dois anos e meio. Dr. Fahy prevê que as pessoas farão as injeções por um ano, farão uma pausa de quatro anos e repetirão o ciclo.
Ensaios adicionais avaliarão, se a terapia pode ser ajustada para minimizar efeitos colaterais, e melhorar indicadores como força muscular, composição corporal e massa de substância branca no cérebro. “Levará alguns anos até termos os resultados desses estudos”, diz ele.

Pesquisadores também estudam outros tratamentos que, espera-se, evitem o possível aumento do risco de câncer e os picos de glicemia, associados ao uso de hormônios do crescimento.
Francisco Leon, CEO da empresa de biotecnologia Tolerance Bio, sediada na Filadélfia (Pensilvânia), afirma, por exemplo, que sua empresa possui um anticorpo capaz de retardar a atrofia do timo. A empresa não revelou o alvo desse anticorpo, mas planeja testá-lo em ensaios clínicos em 2027. “Este pode ser um medicamento para a longevidade”, diz Leon. “Seremos capazes de prevenir e tratar doenças relacionadas ao envelhecimento.” A Thymmune Therapeutics, uma empresa de biotecnologia sediada em Cambridge, está desenvolvendo células-tronco prontas para uso que, espera-se, possam se transformar em tecido tímico, após serem injetadas no paciente.
Ainda existem vários desafios. O maior obstáculo é direcionar os medicamentos especificamente para o timo, a maior parte do órgão é composta por células que não apresentam uma proteína de superfície exclusiva. Além disso, muitas moléculas candidatas são administradas por via intravenosa, o que é inconveniente para tratamentos de longo prazo.
Ademais, pesquisadores apontam que a maioria dos estudos atuais não investiga os mecanismos pelos quais as células T produzidas por um “timo regenerado”, poderiam melhorar a saúde. “É fácil perceber que o tamanho foi restaurado, mas não está claro se a funcionalidade plena também foi recuperada”, afirma Ann Griffith, microbiologista do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas.
Não se sabe ao certo, quando uma terapia poderá estar amplamente disponível, mas isso provavelmente levará anos. “Não compreendemos totalmente como as intervenções realmente regeneram o tecido; estamos apenas começando a explorar o assunto”, diz Griffith. “Estamos bem no início do processo.”
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02149-5

Imagens: Magnific (Freepik)







