Não tratamos apenas a pele, tratamos o impacto na vida do paciente”, destaca Dra. Ana Priscia sobre Dermatite Atópica no X AlergoCeará

Reportagem: Argollo de Menezes
Jornalista DRT-CE 1950
CEO, Editor Jornal do Médico® e Membro Honorário SOBRAMES-CE
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Comemorando duas décadas de história e consolidado como o principal fórum bianual de atualização da especialidade no estado, o X AlergoCeará reunirá a comunidade médica no dia 29 de agosto (sábado), no BS Design, para debater condutas clínicas inovadoras e medicina de precisão. Entre os destaques da programação científica está a Dra. Ana Priscia, que conduzirá discussões sobre a segurança dos novos fármacos na dermatite atópica grave e modera mesas sobre erros inatos da imunidade e APLV. O Jornal do Médico® acompanha todos os detalhes do evento e traz uma entrevista especial com a médica sobre os desafios e avanços da especialidade no Ceará.

Jornal do Médico®: Dra. Ana Priscia, a sua conferência aborda o perfil de segurança dos tratamentos para Dermatite Atópica. Quais são as principais pontes e diferenças que o médico especialista precisa observar ao transpor os dados dos ensaios clínicos controlados para a prática clínica do “mundo real”?

Dra. Ana Priscia: Os ensaios clínicos são fundamentais para entendermos eficácia e segurança, mas o paciente do consultório é muito mais complexo do que o paciente selecionado para um estudo. No mundo real, temos comorbidades, diferentes faixas etárias, uso concomitante de outras medicações, histórico de infecções e pacientes que nem sempre seguem o tratamento de forma ideal.

Por isso, precisamos interpretar os dados dos estudos dentro do contexto de cada paciente. Com os imunobiológicos e os inibidores de JAK, por exemplo, temos hoje uma quantidade cada vez maior de dados de segurança de longo prazo. O grande avanço é que já conseguimos tomar decisões terapêuticas muito mais individualizadas, equilibrando eficácia, segurança, perfil do paciente e impacto da doença na qualidade de vida.
Dra. Ana Príscia durante o IX AlergoCeará

Dra. Ana Príscia durante o IX AlergoCeará

Jornal do Médico®: O manejo da Dermatite Atópica grave passou por uma grande evolução recente com o advento dos imunobiológicos e inibidores de JAK. Como o acompanhamento a longo prazo tem consolidado a segurança e transformado a qualidade de vida desses pacientes?

Dra. Ana Priscia: A mudança foi realmente muito grande. Antes, muitas vezes o nosso objetivo era apenas controlar as crises, muitas vezes às custas de efeitos colaterais relevantes. Hoje, conseguimos pensar em controle sustentado da doença e, principalmente, em devolver ao paciente uma vida normal.

Os dados de acompanhamento prolongado têm sido muito importantes para mostrar que essas terapias podem ser utilizadas de forma segura quando há indicação adequada e monitorização correta. E, na prática, vemos algo que vai muito além da melhora das lesões de pele: melhora do sono, redução do prurido, melhora da saúde mental, da produtividade e da vida social.

“Não tratamos apenas a pele. Tratamos o impacto que a Dermatite Atópica causa na vida daquele paciente.”

Jornal do Médico®: A senhora também estará na moderação de uma mesa de extrema relevância sobre imunologia e alergia alimentar. Com temas como Erros Inatos da Imunidade no teste do pezinho e as novas terapias em APLV, qual é o papel do diagnóstico precoce e da intervenção ativa para mudar a história natural dessas condições na infância?

Dra. Ana Priscia: O diagnóstico precoce pode mudar completamente a história de uma criança. Nos Erros Inatos da Imunidade, reconhecer sinais de alerta e investigar precocemente permite muitas vezes intervir antes que ocorram infecções graves ou complicações permanentes.

Na APLV, também tivemos uma mudança de paradigma. Hoje entendemos que não basta simplesmente retirar o alimento. Precisamos confirmar o diagnóstico, evitar dietas de exclusão desnecessárias e, quando indicado, utilizar estratégias que favoreçam a aquisição de tolerância.

É uma medicina cada vez mais ativa e menos baseada simplesmente em “esperar para ver”. Quanto mais cedo identificamos corretamente essas condições, maior a possibilidade de modificar sua evolução e melhorar a qualidade de vida da criança e da família.

“Hoje entendemos que não basta simplesmente retirar o alimento. Precisamos confirmar o diagnóstico, evitar dietas de exclusão desnecessárias e, quando indicado, utilizar estratégias que favoreçam a aquisição de tolerância.”

Jornal do Médico®: O painel traz ainda discussões fundamentais sobre o diagnóstico laboratorial, incluindo quimioluminescência e alergia molecular (ImmunoCAP). De que forma a medicina de precisão e essas novas ferramentas diagnósticas auxiliam o alergista a evitar restrições alimentares desnecessárias?

Dra. Ana Priscia: Essas ferramentas são muito importantes, mas precisam ser usadas com critério. Um teste positivo para sensibilização não significa necessariamente alergia clínica. Essa é uma mensagem que precisamos reforçar muito.

A alergia molecular, por exemplo, permite identificar com maior precisão contra quais componentes do alimento o paciente está sensibilizado e, em determinados contextos, ajuda a estimar melhor o risco de reações sistêmicas e a diferenciar sensibilização verdadeira de alguns fenômenos de reação cruzada.

Mas nenhum exame substitui uma boa história clínica. A medicina de precisão não é pedir mais exames; é pedir o exame certo para responder à pergunta clínica certa. Quando fazemos isso, conseguimos evitar diagnósticos equivocados e, principalmente, dietas de exclusão que podem trazer impacto nutricional e psicológico importantes para a criança.

Jornal do Médico®: Para finalizar, comemorando a 10ª edição do AlergoCeará, qual é a relevância deste encontro para a atualização e o fortalecimento da especialidade?

Dra. Ana Priscia: O AlergoCeará já se tornou um encontro muito importante para a nossa especialidade. Chegar à 10ª edição mostra a força e a maturidade da Alergia e Imunologia no Ceará.

Mais do que trazer novidades, um congresso como esse permite discutir como transformar conhecimento científico em decisão clínica. A nossa especialidade está evoluindo muito rapidamente, com novas terapias, novas ferramentas diagnósticas e uma compreensão cada vez maior dos mecanismos imunológicos das doenças.

E eu acho especialmente importante podermos fazer isso aqui, reunindo especialistas, compartilhando experiências e formando novas gerações. É uma oportunidade de atualização, mas também de fortalecimento da nossa especialidade e, principalmente, de oferecer uma medicina cada vez mais precisa e segura aos nossos pacientes.

Sobre a entrevistada:

Ana Príscia, CRM/CE 10027 RQE Nº: 76447 é médica especialista em Alergia e Imunologia, com sólida formação e atuação na área. Realizou residência médica em Alergia e Imunologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e possui Título de Especialista pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI).

Atua no diagnóstico e tratamento de doenças alérgicas, com ênfase em dermatite atópica, urticária, asma e imunoterapia com alérgenos. Além da prática clínica, destaca-se como palestrante e produtora de conteúdo voltado à educação médica e à divulgação científica.

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