Testes de detecção de múltiplos tipos de câncer: o “Santo Graal” ou um alerta?

Artigo publicado na The Lancet em 21/09/2026, onde pesquisadores americanos afirmam que pesquisas clínicas de longo prazo, com desfechos clínicos concretos, são essenciais para garantir, que as novas tecnologias de detecção de câncer, proporcionem benefícios reais em vez de danos mensuráveis.

Um único exame de sangue, capaz de identificar a maioria dos tipos de câncer, continua sendo a meta idealizada no rastreamento oncológico. A empresa americana de biotecnologia Grail, foi a que mais se aproximou do desenvolvimento de um teste viável, de detecção de múltiplos tipos de câncer. Em junho de 2026, as grandes expectativas de muitos foram frustradas, durante a reunião científica anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO): o estudo Galleri, um marco para a Grail, que alocou aleatoriamente 140.000 residentes do Reino Unido, para receberem cuidados habituais, acrescidos do teste de detecção de múltiplos tipos de câncer, ou apenas os cuidados habituais, não atingiu seu desfecho primário, que era a redução de casos de câncer em estágio avançado.

A reação da comunidade dedicada à prevenção do câncer foi negativa, assim como a da Bolsa de valores de Wall Street. O valor da empresa caiu 50%, uma perda da qual ela ainda não conseguiu se recuperar de forma significativa. O relatório completo do estudo ainda não foi publicado em periódico biomédico, o que impede uma avaliação abrangente dos desfechos clínicos e da segurança do paciente, bem como a avaliação econômica necessária para a adoção clínica.

Resultados decepcionantes, não interromperam a comercialização de testes de detecção de múltiplos tipos de câncer. Embora não tenham sido aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, várias empresas no país, estão autorizadas a oferecer a detecção de múltiplos tipos de câncer na forma de testes desenvolvidos em laboratório, os quais podem ser obtidos por meio de plataformas de saúde online, sem necessidade de consulta médica presencial.

Testes desenvolvidos em laboratório, precisam demonstrar apenas validade analítica, e não validade clínica. Uma onda de mobilização nos EUA, impulsionou a aprovação da lei Nancy Gardner Sewell Medicare Multi-Cancer Early Detection Screening Coverage Act (H.R.842), que determina a cobertura pelo Medicare, para exames de sangue de detecção de múltiplos tipos de câncer a partir de 2028, condicionada à aprovação da FDA. A solicitação final de aprovação pré-comercialização da Grail junto à FDA, está prevista para ser analisada em 23 de setembro de 2026, com uma possível aprovação esperada para o início de 2027.

Com base no resumo apresentado na conferência da ASCO de 2026, calculamos os riscos absolutos de câncer por estágio nos dois grupos do estudo realizado no Reino Unido. Acreditamos que esses dados são importantes para pacientes, cuidadores e formuladores de políticas públicas. O desfecho primário do estudo, que comparou o risco combinado de cânceres nos estágios III e IV entre os grupos após três anos, mostrou-se semelhante, situando-se em 1%. O risco geral de câncer foi 0,3% maior no grupo submetido ao teste de detecção de múltiplos tipos de câncer (5,1%) em comparação com o grupo de controle (4,8%).

Esses dados não fornecem evidências convincentes de benefício clínico. O leve aumento na detecção de doenças em estágio inicial, poderia ser benéfico ou indicar um possível dano decorrente do sobrediagnóstico, isto é, a identificação de um câncer que, de outra forma, não causaria sintomas nem morte.

Após a Coreia do Sul introduzir o rastreamento em larga escala e de baixo custo da tireoide por ultrassom no final da década de 1990, e nos anos 2000, o número de diagnósticos aumentou 15 vezes, mas as taxas de mortalidade permaneceram estáveis. O aumento na incidência deveu-se à detecção de tumores inofensivos de crescimento lento, e não de doenças agressivas.

Uma estratégia muito útil, que a Grail poderia adotar, seria dar continuidade ao estudo realizado no Reino Unido, para compreender melhor o equilíbrio entre benefícios e danos ao longo do tempo, antes de comercializar o teste. Infelizmente, o protocolo do estudo não permite a continuidade do ensaio Galleri.

Apesar da impressionante ciência pré-clínica, por trás dos testes de detecção de múltiplos tipos de câncer, os dados pouco expressivos dos ensaios clínicos, não deveriam causar surpresa. Outro estudo recente da Grail, o PATHFINDER 2, relatou uma sensibilidade de detecção de câncer de aproximadamente 40%, mas uma especificidade de quase 99%. Como a probabilidade pré-teste de câncer não ultrapassa 1% a 2% em uma população de risco médio na faixa dos 60 anos, mesmo um teste altamente específico, gerará tantos resultados falso-positivos quanto verdadeiros positivos. Em outras palavras, um resultado positivo tem um desempenho semelhante ao de um cara ou coroa.

Além das características do teste, a mudança de estágio da doença (stage shift) como desfecho primário, no estudo do Reino Unido, gerou controvérsia significativa, assim como a percepção de falta de transparência sobre a relação entre a empresa e o Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido. Um estudo desenhado para demonstrar explicitamente uma melhora em um desfecho tradicional, como a mortalidade por câncer, exigiria um acompanhamento de longo prazo e grandes recursos, muitas vezes além do interesse das empresas patrocinadoras. Empresas com fins lucrativos, estão ansiosas para lançar seus produtos no mercado antes da concorrência, enquanto investidores desejam retornos positivos, o mais rápido possível. Embora a lógica econômica seja compreensível, um acompanhamento mais longo é indispensável, para comprovar a utilidade clínica de qualquer novo teste diagnóstico.

Até o momento, não há evidências de que qualquer teste de detecção de múltiplos tipos de câncer previna a doença, detecte-a consistentemente em um estágio inicial, ou reduza a mortalidade associada ao câncer. Paralelamente, as taxas de falso-positivo têm sido previsivelmente altas. Os custos associados à investigação de resultados falso-positivos são muito reais, assim como o impacto psicológico sobre os pacientes que recebem a informação incorreta de que têm câncer, ou a falsa tranquilidade, de que não o têm. No estágio atual de desenvolvimento, os testes de detecção de múltiplos tipos de câncer, informam incorretamente aos pacientes que eles têm câncer (falso-positivo) com mais frequência, do que identificam quando eles realmente têm a doença. A introdução generalizada e oficializada desses testes para a população de risco médio, continua sendo impulsionada predominantemente pela esperança, e não por evidências.

Acreditamos que ensaios clínicos meticulosos e de alta qualidade, focados em desfechos relevantes para os pacientes, devem ser priorizados. Para atuarem como guardiões confiáveis ​​da saúde pública, governos e líderes do setor de saúde devem resistir a pressões, sejam públicas ou corporativas, para buscar soluções fáceis que possam expor os pacientes a riscos. Outros exemplos atuais, como a ressonância magnética de corpo inteiro para detecção de doenças ou infusões de peptídeos para promover a saúde, carecem de dados robustos sobre segurança em humanos ou de supervisão regulatória.

Novos testes de detecção de câncer devem ser avaliados em ensaios com poder estatístico adequado, utilizando como desfechos, a incidência e a mortalidade por câncer. O desenvolvimento de um novo medicamento leva de 10 a 20 anos, desde os testes laboratoriais até o uso pelo paciente. Defendemos que os testes de detecção de múltiplos tipos de câncer, sejam avaliados de maneira semelhante. Essa abordagem demanda tempo e recursos elevados, além de postergar potenciais benefícios para os pacientes. No entanto, uma avaliação tão rigorosa protege contra danos físicos e psicológicos. Não por acaso, o princípio primum non nocere (“primeiro, não causar dano”) tem norteado os profissionais de saúde há séculos. Ironicamente, os riscos associados aos testes de detecção de múltiplos tipos de câncer, são mais bem compreendidos do que os seus benefícios. Até que esse equilíbrio seja estabelecido, a classe médica, começando pelo profissional que atende diretamente o paciente, deve atuar como um guardião esclarecido dos melhores interesses de cada indivíduo.

Para o futuro, o aprimoramento da avaliação de novos testes de rastreamento de câncer pode ser alcançado mais facilmente, mediante a integração de ensaios clínicos à estrutura de sistemas de saúde de aprendizado contínuo. É verdade, que essa mudança implicaria um atraso na entrada de novos testes no mercado. Contudo, apenas uma minoria dos novos testes demonstra, de fato, ser benéfica quando submetida a avaliações rigorosas. Pressões comerciais e políticas, continuam a impulsionar a adoção pública dessas tecnologias. Fazem-se necessárias maior agilidade e transparência na divulgação dos resultados completos, e não apenas daqueles que apresentam o produto sob uma ótica favorável. Ensaios clínicos randomizados, rigorosos e de longo prazo, com desfechos clínicos concretos (seguindo os padrões de desenvolvimento de medicamentos), são essenciais para garantir que as novas tecnologias de detecção de câncer proporcionem benefícios reais, em vez de danos mensuráveis.

Artigo original: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(26)01909-4/fulltext

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Magnific e divulgação

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