Ensinar Medicina e Formar Novas Gerações: O Compromisso que Vai Além da Técnica

Ensinar Medicina é, antes de tudo, um ato de resistência. Em tempos de aceleração digital, sobrecarga assistencial e desvalorização simbólica da figura do médico, manter o compromisso com o ensino é preservar a essência mais nobre da profissão: o cuidado humano baseado no conhecimento, na ética e na empatia. Quando nos dispomos a formar novas gerações, não transmitimos apenas técnicas, protocolos ou diretrizes. Transmitimos uma forma de ver o mundo, de entender o sofrimento, de lidar com o desconhecido — e, sobretudo, de respeitar o outro em sua vulnerabilidade.

 

Nos corredores das universidades, nas enfermarias de hospitais-escola, ou mesmo nos auditórios onde se ministram aulas, está em jogo muito mais do que o desempenho acadêmico dos estudantes. Está em construção o médico do futuro: aquele que tomará decisões que impactam vidas, famílias, comunidades. E, nesse processo, o professor de Medicina não pode se limitar a ser um reprodutor de conteúdos. Ele precisa ser um formador de pensamento crítico, de postura ética e de responsabilidade social.

 

O que se espera da Medicina hoje é mais do que cura — é presença, é escuta, é discernimento. Mas como ensinar isso? Como cultivar em um estudante a humildade de reconhecer os próprios limites, ao mesmo tempo em que se estimula a confiança necessária para agir em situações extremas? Não há resposta simples. O que há é a necessidade de se ensinar com o exemplo.

 

A Medicina não é uma carreira que se aprende apenas com livros. Ela se aprende observando, perguntando, errando com segurança e sendo corrigido com respeito. Se há algo que o ensino médico precisa recuperar com urgência, é a cultura da mentoria. Em tempos em que a pressa, o burnout e a burocracia consomem os profissionais, quem ainda está disposto a ensinar com calma, com paciência, com generosidade?

 

Formar novas gerações é, também, um compromisso com o futuro da saúde pública do país. Em um cenário de desigualdade social gritante e acesso desigual a cuidados médicos, precisamos de médicos preparados não apenas para diagnosticar e prescrever, mas para compreender o contexto em que seus pacientes vivem. Isso exige uma formação técnica de excelência, sim — mas também uma formação humanista, sensível, comprometida com a dignidade humana.

 

Infelizmente, a docência médica ainda é, em muitos contextos, mal remunerada e pouco valorizada. Muitos professores acumulam jornadas pesadas, sem tempo hábil para se dedicar ao ensino como gostariam. Apesar disso, resistem — e fazem a diferença na vida de centenas de alunos. Porque sabem que o conhecimento compartilhado é um legado que atravessa gerações.

 

Ensinar Medicina é, portanto, um ato político no melhor sentido da palavra: uma escolha consciente de influenciar positivamente o mundo por meio da formação de pessoas capazes de cuidar. E não se cuida apenas com técnica — cuida-se com presença, com olhar atento, com afeto e com ética.

 

Formar novas gerações é manter viva a esperança de que, apesar dos desafios estruturais, o sistema de saúde brasileiro pode contar com médicos melhor preparados — não apenas em conteúdo, mas em caráter. Cabe a nós, docentes, sermos a ponte entre o conhecimento acumulado e o futuro da Medicina. Uma ponte firme, segura e generosa.

Se eu ainda me emociono ao entrar numa sala de aula, se ainda sinto um frio na barriga ao ver um estudante compreender um conceito complexo ou se apaixonar pela fisiologia do corpo humano, é porque acredito que ensinar Medicina é uma das mais poderosas formas de transformar o mundo. E é por isso que sigo ensinando. Porque sei que, a cada aluno que formamos com excelência, é uma sociedade inteira que ganha.

 

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