Novo estudo culpa a dieta, e não a inatividade física, pela crise de obesidade no mundo

Mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo vivem com obesidade, uma epidemia global que as autoridades de saúde atribuem tanto ao aumento do consumo de calorias quanto à diminuição da atividade física. Mas qual fator contribui mais? Após medir as calorias queimadas por pessoas de diferentes origens econômicas e estilos de vida, uma pesquisa publicada no Proceedings of the National Academy of Sciences conclui, que a dieta desempenha um papel muito maior do que a inatividade física no impulsionamento da epidemia de obesidade, embora nem todos os pesquisadores concordem com essa interpretação.

 

O novo estudo descobriu que, quando ajustado para o tamanho corporal, pessoas em sociedades economicamente mais desenvolvidas, gastam relativamente menos energia. No entanto, as diferenças são muito pequenas, para explicar as taxas mais altas de obesidade nessas sociedades. O ganho de peso em todo o mundo, por outro lado, parece estar associado principalmente à quantidade que consumimos, e não à quantidade que queimamos.

 

As descobertas se alinham com a sabedoria convencional atual de que o aumento da ingestão de energia é o principal fator de obesidade e destacam a necessidade de políticas para reduzi-la, afirma Vanessa Oddo, epidemiologista da Universidade de Illinois em Chicago, que não participou do trabalho. No entanto, ela e outros alertam que o estudo, que se baseou em modelagem computacional, observações pontuais dos participantes e medidas indiretas de atividade física e dieta, não foi elaborado para identificar as causas da epidemia.

 

Pesquisas anteriores haviam demonstrado que pessoas em sociedades mais industrializadas, tendem a ter um índice de massa corporal médio, e um percentual de gordura corporal mais elevados, embora as tendências não sejam claras. Para explorar os papéis relativos da dieta e da atividade física na formação desse padrão, uma equipe liderada pelo antropólogo evolucionista Herman Pontzer, da Universidade Duke, analisou um banco de dados que inclui milhares de participantes em seis continentes, vivendo em sociedades e estilos de vida diversos.

 

O banco de dados contém medições do gasto energético da urina dessas pessoas, após beberem água molecularmente marcada com versões pesadas de oxigênio e hidrogênio, que os cientistas podem medir após a passagem pelo corpo. À medida que queimamos calorias, alguns dos átomos de oxigênio na água que bebemos, são usados para produzir o dióxido de carbono que exalamos. Ao medir o excesso de hidrogênio pesado na urina de uma pessoa alguns dias após beber a água marcada, os cientistas podem estimar quanto oxigênio foi transformado em dióxido de carbono, e, portanto, quanta energia foi queimada.

 

Os pesquisadores também mediram ou estimaram, a fração da energia de uma pessoa que foi gasta em funções básicas, como respirar e regular a temperatura corporal. Em seguida, subtraíram essa energia, juntamente com uma estimativa da energia necessária para a digestão, do gasto energético total de uma pessoa, para calcular as calorias queimadas durante a atividade física.

 

Quando os pesquisadores calcularam essas medidas em 34 populações ao redor do mundo, e as ajustaram para fatores como idade e tamanho corporal, descobriram que pessoas em áreas economicamente mais desenvolvidas, gastavam menos energia total. Sociedades rurais, como a comunidade Tuvan na Sibéria, por exemplo, queimavam relativamente mais calorias do que pessoas nos Estados Unidos.

 

No entanto, as diferenças entre as populações foram pequenas e variaram consideravelmente, afirma a coautora do estudo, Amanda McGrosky, antropóloga evolucionista da Universidade Elon. O modelo dos pesquisadores sugere, que essa diminuição foi impulsionada principalmente por um menor gasto basal, e não pela atividade física. McGrosky observa que trabalhos anteriores da equipe de Pontzer sugerem, que pessoas em sociedades menos industrializadas podem ter taxas metabólicas mais altas, porque são expostas a mais germes e, portanto, têm atividade imunológica elevada.

 

No geral, os pesquisadores descobriram que as diferenças no gasto energético total, explicavam apenas 10% da relação entre o desenvolvimento econômico e as medidas de obesidade. Sua conclusão: os 90% restantes da tendência, devem ser impulsionados pelo excesso de ingestão energética.

 

Pesquisadores não envolvidos no trabalho elogiaram a forma como a equipe utilizou medidas objetivas de gasto energético e gordura corporal, para estudar as diferenças entre as populações. Os resultados corroboram uma forte associação entre ingestão energética e obesidade, afirma Jeff Goldsmith, bioestatístico e cientista de dados de saúde pública da Universidade de Columbia.

 

No entanto, o banco de dados subjacente ao estudo é globalmente desigual, contendo dados de milhares de pessoas em sociedades economicamente desenvolvidas, mas apenas de algumas dezenas de pessoas de comunidades de caçadores-coletores ou horticultores. “Preocupo-me em tentar fazer afirmações amplas”, diz Goldsmith, “quando a amostra é distorcida”.

 

Além disso, o trabalho pressupõe que a energia usada para a digestão e o metabolismo básico, pode ser extrapolada entre populações, mesmo que esse possa não ser o caso. Os métodos do estudo, embora interessantes, baseiam-se em “muitas suposições sobrepostas”, afirma Andrew Brown, bioestatístico da Universidade de Ciências Médicas do Arkansas. “É muito possível que pequenas mudanças na atividade física tenham efeitos desproporcionais na própria ingestão energética.”

 

Como os pesquisadores não têm dados sobre o que cada participante comeu, eles não conseguem descobrir exatamente o que há nas dietas de sociedades economicamente mais desenvolvidas, que poderia explicar suas maiores taxas de obesidade. A equipe observou mais gordura corporal em pessoas de populações que, em média, consomem alimentos ultraprocessados e mais calóricos. Mas McGrosky enfatiza que esse mecanismo potencial, entre outros, precisa de mais estudos, e acrescenta que os resultados da equipe não contradizem a importância do exercício.

 

“A atividade física é absolutamente benéfica para a saúde em geral”, diz ela. “Só que pode não ter os mesmos efeitos no seu gasto energético geral como se pensava anteriormente.”

 

Referente ao artigo publicado em Science

 

 

Créditos da imagem: Freepik

 

Marcado:

Revista Digital Rio

ACESSO EXCLUSIVO

Cadastre-se gratuito para receber a edição de estreia do Jornal do Médico® Rio de Janeiro em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará