Aceleração do envelhecimento após os 50 varia entre órgãos

É um alerta que pessoas de meia-idade, há muito tempo oferecem aos jovens: o envelhecimento não é um processo tranquilo. Agora, uma análise exaustiva de como as proteínas mudam ao longo do tempo em diferentes órgãos, corrobora essa ideia, descobrindo que as pessoas experimentam um ponto de inflexão por volta dos 50 anos, após o qual o envelhecimento parece acelerar.

 

O estudo, publicado em 25 de julho na Cell, também sugere que alguns tecidos, especialmente os vasos sanguíneos, envelhecem mais rápido do que outros, e identifica moléculas que podem acelerar a marcha do tempo.

 

As descobertas se somam às crescentes evidências de que o envelhecimento não é linear, mas sim, marcado por períodos de rápidas mudanças. Mesmo assim, estudos mais amplos são necessários antes que os cientistas possam rotular a idade de 50 anos como um ponto crítico, diz Maja Olecka, que estuda o envelhecimento no Instituto Leibniz sobre Envelhecimento, Instituto Fritz Lipmann em Jena, Alemanha, e não participou do estudo.

 

“Existem essas ondas de mudanças relacionadas à idade”, diz ela. “Mas ainda é difícil chegar a uma conclusão geral sobre o momento em que os pontos de inflexão ocorrem.”

 

Mostrando a idade

Trabalhos anteriores demonstraram que diferentes órgãos podem envelhecer em ritmos diferentes. Para desvendar ainda mais essa questão, Guanghui Liu, que estuda medicina regenerativa na Academia Chinesa de Ciências em Pequim, e seus colegas, coletaram amostras de tecido de 76 pessoas de ascendência chinesa, com idades entre 14 e 68 anos, que morreram em decorrência de lesão cerebral acidental. As amostras vieram de órgãos que representam oito sistemas do corpo, incluindo os sistemas cardiovascular, imunológico e digestivo.

 

Os pesquisadores então criaram um compêndio das proteínas encontradas em cada uma das amostras. Eles encontraram aumentos relacionados à idade na expressão de 48 proteínas associadas a doenças, e observaram alterações precoces por volta dos 30 anos na glândula adrenal, responsável pela produção de vários hormônios.

 

Isso condiz bem com dados anteriores, afirma Michael Snyder, geneticista da Faculdade de Medicina da Universidade Stanford, na Califórnia. “Isso se encaixa na ideia de que o controle hormonal e metabólico é fundamental”, afirma. “É aí que ocorrem algumas das mudanças mais profundas à medida que as pessoas envelhecem.”

 

Entre os 45 e os 55 anos, ocorreu um ponto de inflexão marcado por grandes mudanças nos níveis de proteína. A mudança mais drástica foi encontrada na aorta, a principal artéria do corpo, que transporta sangue oxigenado para fora do coração. A equipe rastreou uma proteína produzida na aorta que, quando administrada em camundongos, desencadeia sinais de envelhecimento acelerado. Dr. Liu especula que os vasos sanguíneos atuam como um condutor, transportando moléculas que promovem o envelhecimento para destinos remotos por todo o corpo.

 

O estudo é uma adição importante a outros que analisaram moléculas que circulam no sangue, em vez de amostras de tecido retiradas de órgãos individuais, como forma de monitorar mudanças relacionadas à idade, afirma Dr. Snyder. “Somos como um carro”, diz ele. “Algumas peças se desgastam mais rápido.” Saber quais partes são propensas ao desgaste pode ajudar os pesquisadores a desenvolverem maneiras de intervir para promover o envelhecimento saudável, afirma ele.

 

Na metade do caminho para os 100

No ano passado, Dr. Snyder e seus colegas encontraram pontos de inflexão do envelhecimento por volta dos 44 e 60 anos. Outros estudos encontraram envelhecimento acelerado em diferentes momentos, incluindo por volta dos 80 anos, o que estava além do escopo do estudo atual, afirma Dra. Olecka.

 

Discrepâncias com outros estudos podem surgir do uso de diferentes tipos de amostras, populações e abordagens analíticas, afirma Dr. Liu. À medida que os dados se acumulam ao longo do tempo, as principais vias moleculares envolvidas no envelhecimento provavelmente convergirão entre os estudos, acrescenta.

 

Esses dados se acumularão rapidamente, afirma Dra. Olecka, porque os pesquisadores estão cada vez mais incorporando séries temporais detalhadas em seus estudos, em vez de simplesmente comparar “jovens” com “velhos”. E esses resultados podem ajudar os pesquisadores a interpretarem esses períodos de rápida mudança. “Atualmente, não entendemos o que desencadeia esse ponto de transição”, afirma ela. “É um campo emergente realmente intrigante.”

 

Referente ao artigo publicado em Nature

 

Créditos da imagem: Freepik 

Marcado:

Revista Digital Rio

ACESSO EXCLUSIVO

Cadastre-se gratuito para receber a edição de estreia do Jornal do Médico® Rio de Janeiro em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará