Setembro amarelo permanente

Setembro: um chamado à vida e ao cuidado contínuo.

Setembro chega trazendo uma cor, o amarelo, e uma lembrança que deveria ser permanente: a importância de falar sobre suicídio, de cuidar da vida e de olhar para o outro com mais empatia. É nesse mês que campanhas se intensificam, que frases ganham espaço e que, de repente, parece que todos estão atentos a um tema que, na realidade, grita o ano inteiro. Porque a dor não tem calendário, o sofrimento não espera setembro, e o silêncio pode ser fatal em qualquer dia.

Depressão não é apenas uma doença no sentido clínico. Ela é uma realidade crua e cruel, um fardo que muitos carregam em silêncio, uma escuridão que rouba o ar, a força e até o desejo de existir. Quem sofre não precisa de julgamentos, de sermões, nem de frases prontas como “isso passa” ou “seja forte”. O que realmente cura é a presença, o olhar que acolhe, a mão que segura sem pressa e a escuta sem pressa de dar respostas.

 

O suicídio nunca surge de repente. Ele é consequência de dores acumuladas, de gritos sufocados, de invisibilidades repetidas. Quantas vezes passamos por alguém que sorri por fora, mas por dentro está em pedaços? Quantas vezes nos contentamos com um “está tudo bem” sem coragem de perguntar de novo, sem oferecer um espaço seguro para a verdade? Setembro nos lembra, mas todos os meses deveriam ser setembro. Todos os dias deveriam ser dias de atenção, de cuidado, de perceber sinais sutis que podem salvar vidas.

Vivemos em uma sociedade rápida para julgar e lenta para acolher. A pressão por ser bem-sucedido, bonito, produtivo, perfeito — tudo isso pesa. E nesse cenário, muitos se calam. O isolamento, disfarçado em conexões digitais, aprofunda a solidão. Pessoas rodeadas de “amigos virtuais” se sentem sozinhas ao extremo. É nesse abismo invisível que o suicídio encontra espaço.

Por isso, precisamos ser mais humanos. Precisamos ouvir de verdade, abraçar de verdade, olhar nos olhos sem pressa. Precisamos estar dispostos a ser porto seguro quando o outro está naufragando. Cuidar do próximo é, sim, um ato revolucionário em tempos de tanta indiferença. É reafirmar que a vida tem valor, mesmo quando a própria pessoa não consegue enxergar esse valor.

Setembro é um lembrete, mas não pode ser um ponto final. Ele deve ser o início de uma mudança de postura, de uma cultura que normalize o cuidado, que quebre o tabu do sofrimento mental e que ensine que pedir ajuda não é fraqueza, é coragem. Porque cada gesto de empatia pode ser a diferença entre alguém desistir ou escolher continuar.

 

Rossana Köpf – psicanalista

 

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