Resquícios da profissão romântica da medicina .

Dr. Paulo Aguiar meu mastologista e amigo ,em uma das nossas conversas, me fez um convite silencioso: olhar para a medicina não apenas como ciência, mas como uma arte de amar.
Foi ali, entre palavras simples e cheias de significado, que percebi o quanto ainda sobrevivem os resquícios dessa profissão romântica, mesmo em tempos de pressa, números e protocolos.

A medicina romântica não cabe em livros de anatomia, nem em gráficos ou relatórios. Ela habita nas entrelinhas. Mora nos olhos que não desviam do sofrimento, na mão que se estende ao paciente que teme o desconhecido, no abraço que vence a frieza de uma notícia dura. É ciência, sim, mas também é poesia escrita nos corredores silenciosos dos hospitais.Romântica porque acredita que cada paciente carrega uma história, um mundo inteiro dentro de si. Porque entende que curar nem sempre é possível, mas cuidar é sempre obrigação. Romântica porque não trata apenas de corpos, mas de almas — e, às vezes, o simples gesto de escutar com atenção vale mais do que qualquer remédio.Ainda que o mundo moderno tenha acelerado tudo, essa medicina resiste. Ela se esconde em detalhes que parecem pequenos: um lençol ajeitado, um copo d’água oferecido, um tempo roubado para ouvir a lembrança repetida de um paciente idoso. Resiste na lágrima contida que o médico enxuga em silêncio, porque também sente, também sofre, também é humano.Cada plantão é um poema que nunca se escreve, mas que se sente: o apito dos monitores como notas de uma sinfonia incansável, os passos apressados pelos corredores como versos correndo atrás da vida, o coração do médico pulsando como maestro de uma orquestra invisível.

 

Ao lado dessa medicina poética, há o peso da realidade: a exaustão, as frustrações, a impotência diante do inevitável. Mas é justamente aí que a profissão revela sua face mais romântica — quando, mesmo sem poder vencer a morte, oferece dignidade, aconchego, presença.Quando o médico, ao invés de apenas tratar, escolhe amar.

 

No fim da conversa com o Dr. Paulo Aguiar, fiquei em silêncio. Era como se ele tivesse acendido uma vela em meio à escuridão do pragmatismo que muitas vezes domina a profissão. Percebi que a medicina romântica não é um passado esquecido — é um presente que insiste em florescer nas mãos daqueles que não deixaram a alma se tornar máquina.Os resquícios da profissão romântica da medicina são eternos.

 

Eternos porque sempre existirão médicos que veem na dor um chamado para a ternura, e na vida um campo sagrado de cuidado. Eternos porque, por trás de cada jaleco branco, pulsa um coração que ainda acredita que curar é mais do que técnica: é amar até o último instante.

 

Rossana Köpf – psicanalista

 

 

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