William Osler, no início do século XX, já reconhecia aquilo que muitos médicos ainda hoje tentam negar ou suavizar diante do paciente: a incerteza é parte constitutiva da prática médica. A estatística, que viria a consolidar-se nas décadas seguintes, não fez mais do que confirmar essa condição. Nossos diagnósticos e condutas repousam em probabilidades, em estimativas do que é mais provável ser o correto, nunca em certezas absolutas.
Ainda assim, a sociedade insiste em enxergar a medicina como uma ciência exata, como se cada queixa tivesse uma resposta imediata e cada tratamento garantisse um desfecho previsível. Essa dissonância entre a natureza incerta da medicina e a expectativa de certeza por parte da sociedade cria um terreno fértil para distorções.
É mais fácil — e, não raro, mais lucrativo — vender segurança do que educar para a consciência da falibilidade. A indústria da saúde, e até mesmo parte da própria classe médica, encontra vantagens em transformar a promessa de cura em um produto embalado de previsibilidade. Mas nesse processo, perde-se o ethosmédico: a dignidade do cuidado, a honestidade intelectual diante do desconhecido e a coragem de caminhar junto ao paciente na travessia da incerteza.
A mudança geracional revela muito sobre como a medicina é percebida. Para os mais velhos, a comparação se dava entre diferentes médicos ou serviços de saúde. Já os mais jovens, formados na cultura do consumo imediato, comparam o atendimento médico com serviços de outra ordem — aplicativos de entrega, fast-foods, experiências digitais. Querem agilidade, conveniência, experiência agradável.
Mas uma “fast medicina” corre o risco de engordar listas de diagnósticos errôneos e tratamentos superficiais, sem enfrentar a causa real do problema. É a forma vencendo o conteúdo. O paciente, encantado pela fluidez do processo, nem sempre percebe que a pressa pode custar caro — em desfechos piores, em diagnósticos tardios, em confiança desgastada.
Aqui se instala uma questão central: falamos em sociedade, mas na prática vivemos no intervalo tênue entre sociedade e mercado. Grande parte dos hábitos que definem o comportamento das pessoas é tutelada pela economia do consumo, que não apenas responde a demandas, mas as cria.
As preferências sociais são moldadas por estratégias de marketing, pela lógica da conveniência, pelo apelo da experiência imediata. O que chamamos de sociedade nada mais é, muitas vezes, do que um reflexo das forças de mercado travestido de desejo coletivo. Na saúde, isso é particularmente perigoso. Se a lógica do consumo define como o atendimento médico deve ser feito, a tendência será privilegiar forma em detrimento de substância, rapidez em lugar de profundidade, satisfação instantânea em vez de valor real.
Por outro lado, cabe perguntar: quem deve guiar esse processo? Deve a sociedade, moldada pela pressão do mercado, ditar como a medicina deve ser exercida? Ou são as instituições médicas — faculdades, conselhos, sociedades científicas — que deveriam tutelar a sociedade nesse campo, justamente porque ela é hipossuficiente no saber médico?
Aqui reside o paradoxo. Se deixamos ao mercado a tarefa de regular expectativas, transformamos o cuidado em mercadoria. Se nos fechamos em um paternalismo rígido, ignoramos o direito da população de participar ativamente do processo. O caminho talvez esteja na educação: educar não apenas indivíduos, mas a própria cultura, criando consciência de que a incerteza é inerente à prática médica e de que valor não se confunde com velocidade nem com promessa absoluta de cura.
O problema é que nossas instituições parecem surdas a esse debate. Faculdades seguem presas a currículos engessados, distantes das transformações sociais. Conselhos de classe gastam energia em disputas corporativas, esquecendo-se de construir pontes de confiança com a população. Sociedades científicas concentram-se em congressos para pares, pouco se arriscando no espaço público onde o mercado fala alto e conquista corações e mentes.
Enquanto isso, o mercado dita narrativas, cria expectativas e ocupa o lugar que deveria ser preenchido pela voz das instituições médicas. É urgente resgatar o ethos médico não apenas como identidade de classe, mas como serviço à sociedade. A dignidade deve estar acima da mercantilização.
Isso não significa negar a necessidade de sustentabilidade econômica, mas recusar-se a reduzir a medicina ao papel de mais um produto no mercado de experiências. Educar pacientes não é ato acessório, é parte essencial da missão. Mostrar que a incerteza não é falha, mas essência da prática. Ensinar que o valor não está apenas na simpatia do atendimento ou na rapidez da prescrição, mas na honestidade do raciocínio clínico, no compromisso com a verdade possível e no respeito à vulnerabilidade humana.
Talvez a provocação maior seja esta: se nós, médicos e instituições, não assumirmos a tarefa de guiar a sociedade nesse caminho, outros o farão. E não será a partir do compromisso primeiro com a dignidade. Se isso ocorrer, a medicina corre o risco de deixar de ser ciência aplicada à vida para tornar-se apenas mais um espetáculo a ser consumido — embalado, vendido e descartado como qualquer outro produto do mercado de experiências.

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