Transporte ferroviário pode ser uma alternativa para o planeta

E se existisse uma tecnologia que pudesse ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, a poluição do ar e a degradação ambiental, ao mesmo tempo em que melhorava a saúde, reduzia a desigualdade social e impulsionava o crescimento econômico? Pois existe, e este mês ela completa 200 anos. A inauguração da Ferrovia Stockton e Darlington, no nordeste da Inglaterra, em 27 de setembro de 1825, é considerada o nascimento da ferrovia moderna, um evento que desencadeou uma revolução na mobilidade humana e na organização social.

 

Inicialmente, as ferrovias tiveram uma expansão vertiginosa, mas, desde meados do século XX, o desenvolvimento ferroviário na maioria dos países sofreu um revés, e foi ultrapassado pelo crescimento do transporte rodoviário e aéreo. Um estudo do Fórum Internacional de Transportes (ITF), sediado em Paris, com 51 países, principalmente de alta renda, constatou que a participação das ferrovias no transporte de carga caiu de 38% em 1980 para 24% em 2017. Na União Europeia, em 2022, apenas 8,4% dos quilômetros percorridos por passageiros foram percorridos por ferrovia, em comparação com 9% por via aérea e 73% por automóvel.

 

Apesar dos investimentos significativos em trens de alta velocidade no Japão, China e partes da Europa, a extensão total das redes em muitos países diminuiu, à medida que linhas convencionais consideradas não rentáveis, ​​foram cortadas. Enquanto isso, o transporte ferroviário é uma prioridade baixa em muitos países de baixa e média renda, onde as redes são escassas ou inexistentes. Todo o continente africano, por exemplo, tem apenas 87.000 quilômetros de ferrovias. Em contraste, a Índia tem pelo menos 65.000 quilômetros e uma superfície terrestre de apenas um décimo desse tamanho.

 

É hora de virar o jogo e reconhecer os vastos benefícios das ferrovias, como pedra angular de um sistema de transporte sustentável,que pode apoiar o desenvolvimento humano e o crescimento econômico. Pesquisas em todas as disciplinas, podem subsidiar políticas em preparação para um renascimento tão necessário, à medida que as ferrovias entram em seu terceiro século.

 

De acordo com a Agência Internacional de Energia, o transporte é atualmente responsável por cerca de um quarto das emissões globais de dióxido de carbono. Entre 1990 e 2022, essas emissões cresceram 1,7% ao ano, um aumento maior do que o de qualquer setor, exceto a indústria, à medida que mais pessoas em mais partes do mundo se tornaram mais móveis. Mais de 90% da energia usada para abastecer o transporte, vem de combustíveis fósseis.

 

Esses números, por si só, justificam um foco renovado no transporte ferroviário. Por passageiro-quilômetro, ele produz um quinto das emissões do transporte rodoviário e menos de um quarto das emissões do transporte aéreo. As emissões diretas podem ser reduzidas a zero se os trens forem movidos a eletricidade totalmente renovável.

 

O transporte ferroviário também contribui pouco para as emissões de partículas poluentes, que são um risco à saúde. Isso é particularmente importante em um mundo em rápida urbanização. Melhores opções de transporte público ferroviário, poderiam ajudar a reduzir a expansão urbana, bem como a área necessária para estradas, estacionamentos e outras infraestruturas relacionadas a automóveis. Cidades menos congestionadas, com menos veículos motorizados, são locais mais habitáveis, onde as pessoas são mais propensas a caminhar e pedalar, colhendo os benefícios dessas atividades para a saúde. Elas também são mais inclusivas, especialmente para pessoas mais jovens e mais velhas, que têm menor probabilidade de possuir um veículo. À medida que a urbanização e a densidade populacional média aumentam, pesquisas mostram que os benefícios econômicos do investimento em ferrovias superam os do investimento em estradas.

 

Mas não são apenas as cidades. O Reino Unido celebrará seu papel no nascimento das ferrovias ainda este mês, mas o país também oferece um exemplo dos efeitos que o desinvestimento em ferrovias pode ter. Um estudo de 2024 examinou um programa sustentado de cortes na rede ferroviária do país, entre as décadas de 1950 e 1980. Constatou-se que as áreas predominantemente rurais mais afetadas pelos cortes, apresentaram declínio populacional, perda de empregos e queda no número de trabalhadores qualificados, em comparação com as áreas não afetadas.

 

Uma maneira pela qual as pesquisas podem ajudar a colocar as coisas nos trilhos é ampliando os critérios usados ​​pelos governos, para avaliar o investimento em ferrovias, afirma Christian Wolmar, consultor independente de transportes e autor baseado em Londres. Muitas vezes, esses critérios se baseiam em métricas limitadas de lucratividade ou “economia de tempo” por potenciais usuários, sem consideração suficiente dos impactos sociais e ambientais mais amplos. Economistas, outros cientistas sociais e pesquisadores de sustentabilidade, podem contribuir para o desenvolvimento de avaliações mais robustas desses benefícios indiretos.

 

Tais iniciativas podem contribuir para estruturas regulatórias e políticas mais amplas. Apenas um terço dos países, incorporou totalmente o setor de transportes em suas “contribuições nacionalmente determinadas”, seus compromissos contínuos de redução das emissões de gases de efeito estufa, no âmbito do Acordo Climático de Paris de 2015, de acordo com um rastreador da ITF. Para atingir as metas de zero emissões líquidas, as emissões do transporte precisam diminuir 3% ao ano, a partir de agora.

 

A pesquisa também pode esclarecer os vencedores e os perdedores criados pelas decisões de investimento. A China, por exemplo, está pronta para continuar a expansão vertiginosa de sua ferrovia de alta velocidade, com o objetivo de atingir 60.000 quilômetros até 2030. Mas os acadêmicos debatem a sensatez da velocidade e da escala dessa expansão, com a incerteza remanescente sobre a extensão da distribuição dos benefícios econômicos das conexões de alta velocidade.

 

Em seu auge, imediatamente antes da Primeira Guerra Mundial, a rede ferroviária dos EUA se estendia por mais de 400.000 quilômetros, mais do que a distância da Terra à Lua. Hoje, cobre pouco mais da metade disso. A extensão desse declínio ressalta a necessidade de reverter a negligência em relação a uma tecnologia que não só mudou o mundo, mas também pode salvar o planeta.

 

 

Referente ao artigo publicado em Nature

 

 

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