Por que a gripe está tão forte este ano? Uma variante com muitas mutações oferece respostas

Artigo publicado na Nature em 14/01/2026, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que um aumento expressivo de casos de gripe está ligado, em parte também, a uma variante que não tem sido dominante nos últimos anos, resultando em uma diminuição da imunidade natural.

Como milhões de pessoas acamadas podem atestar, a gripe está se alastrando pelo mundo. O vírus provocou uma onda de doenças e hospitalizações em países como o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos, onde “de repente, todos estão vendo não apenas casos, mas um grande número de casos”, afirma Andrew Pekosz, virologista da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore. Em muitas nações, a temporada de gripe começou mais cedo, e se intensificou mais rapidamente, do que o normal.

Então, por que esta temporada de gripe está tão grave? Os cientistas suspeitam que isso se deva, em parte, a uma nova cepa do vírus influenza que se tornou dominante. Essa variante apresenta muitas mutações importantes, o que significa que ela é muito menos semelhante à cepa usada na vacina contra a gripe, do que os vírus das temporadas anteriores. Isso pode facilitar a resistência do vírus ao sistema imunológico e às vacinas. Além disso, a cepa dominante pertence a um subtipo viral que circula há décadas, mas não era dominante nas últimas temporadas de gripe, o que significa que muitas pessoas têm uma imunidade relativamente fraca contra ele.

Ainda assim, há evidências que sugerem que as vacinas contra a gripe atualmente disponíveis oferecem proteção contra casos graves da doença.

Nos Estados Unidos, ainda é cedo na temporada de gripe “para dizer exatamente como ela se comparará com outras temporadas das últimas décadas”, afirma Jesse Bloom, virologista do Fred Hutchinson Cancer Center em Seattle. Mas “esta é, com certeza, uma temporada de gripe pior do que a média”.

Um ano para o H3N2

A temporada de gripe de 2025-2026 começou um mês antes do previsto no Reino Unido, em grande parte da Europa e no Japão, que declarou epidemia de gripe, devido ao número inesperadamente alto de infecções. Na Austrália, a temporada de gripe durou pelo menos um mês a mais do que o habitual. No Canadá, “todas as províncias e territórios registraram um aumento massivo no número de casos, simultaneamente”, afirma Eleni Galanis, diretora-geral da Agência de Saúde Pública do Canadá, em Ottawa. “E isso, obviamente, exerce muita pressão sobre o sistema de saúde.”

O vírus causador de muitos dos casos deste ano é um exemplo do subtipo H3N2, que evolui mais rapidamente do que outras cepas. Uma variante do vírus H3N2, chamada subclado K, tornou-se globalmente dominante em setembro, e agora é responsável por cerca de 80% das infecções por influenza em todo o mundo. “Tudo pode ser atribuído a essa variante do clado K”, diz Pekosz.

Incompatibilidade da vacina

Modelagens sugerem, que o subclado K, surgiu já em fevereiro do ano passado. O sequenciamento só foi realizado em junho, meses depois de a Organização Mundial da Saúde ter selecionado as cepas da gripe que seriam usadas como base para as vacinas da atual temporada de gripe no hemisfério norte. Os cientistas ajustam a composição da vacina todos os anos para levar em conta as contínuas mudanças genéticas no vírus.

Devido a esse intervalo de tempo, “há uma incompatibilidade entre a cepa da vacina e a cepa circulante”, afirma Scott Hensley, virologista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia.

Mesmo assim, em um pré-print publicado em 6 de janeiro, Hensley e seus colegas descobriram que, em algumas pessoas, a vacina induz anticorpos suficientes contra o subclado K, para proteger contra a forma grave da doença, diz Hensley. O estudo ainda não foi revisado por pares.

Mais mutações

Comparado com a cepa H3N2, usada na vacina predominante contra a gripe, o subclado K apresenta 11 mutações em uma proteína chamada hemaglutinina, que forma espículas na superfície das partículas do vírus influenza. Essas espículas ajudam o vírus a se ligar e se fundir às células hospedeiras.

Desde 2007, as cepas circulantes do H3N2, geralmente desenvolvem de uma a três diferenças adicionais de aminoácidos, em relação à cepa da vacina contra a gripe a cada seis meses, de acordo com uma análise não publicada de John Huddleston, virologista computacional do Fred Hutchinson Cancer Center. A taxa de mutação do vírus em um período tão curto é crucial, afirma ele: “É incrivelmente alta”.

Após a infecção pelo vírus ou a vacinação contra ele, o sistema imunológico produz anticorpos que têm como alvo a hemaglutinina. No entanto, mesmo uma única mutação na proteína, pode impedir que os anticorpos do hospedeiro se liguem às espículas virais, explica Hensley. Isso impede que os anticorpos destruam as partículas virais.

Os cientistas ainda não sabem quais mutações impulsionaram o aumento da disseminação do vírus, afirma Sarah Cobey, microbiologista evolucionista da Universidade de Chicago, em Illinois.

Retorno

Virologistas concordam, que um fator que contribuiu para o aumento da incidência de H3N2 nos últimos seis meses, é a circulação relativamente baixa de vírus H3 em temporadas de gripe anteriores. Na temporada de 2024-2025, o H3 foi responsável por cerca de metade dos casos de gripe nos EUA, e por cerca de 40% dos casos na Europa. Como resultado, a imunidade da população contra os vírus H3 estava relativamente baixa no início desta temporada de gripe.

Como os níveis globais de vacinação contra a gripe são baixos, “as infecções provavelmente têm um papel mais importante na manutenção de níveis de imunidade elevados do que a vacinação”, afirma Ian Barr, vice-diretor do Centro Colaborador da OMS para Referência e Pesquisa sobre Influenza em Melbourne, Austrália. Era improvável que o H3 fosse deixado de lado por muito tempo, diz Barr. “Ele certamente voltaria mais cedo ou mais tarde”, afirma. “E é o que está acontecendo este ano.”

Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-00061-6

Imagem Designed by Freepik

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
https://www.nature.com/articles/d41586-026-00061-6
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