A “masculinidade tóxica” pode ser medida? Cientistas tentam quantificar esse termo polêmico

Artigo publicado na Nature em 19/01/2026, onde pesquisadores de diferentes nacionalidades afirmam que um estudo identificou oito indicadores de masculinidade tóxica em homens heterossexuais, e concluiu que a “virilidade” não é necessariamente um aspecto problemático da masculinidade.

Quão disseminado é o problema da “masculinidade tóxica” nas sociedades ocidentais? Um estudo realizado na Nova Zelândia revelou, que apenas uma pequena porcentagem dos homens entrevistados, se enquadrava na categoria mais grave de toxicidade hostil, e que o desejo de se sentir “viril”, não indicava necessariamente que a pessoa tivesse visões socialmente prejudiciais.

O termo “masculinidade tóxica” foi cunhado na década de 1980, e expressa a ideia de que algumas características consideradas estereotipicamente “masculinas” por muitas sociedades, como dominância e agressividade, podem ter impactos sociais nocivos. Hoje, a expressão é frequentemente usada para descrever todo tipo de comportamento, desde violência sexual, até a relutância em ajudar nas tarefas domésticas.

O conceito se mostrou útil de diversas maneiras, destacando, por exemplo, como as expectativas de gênero podem contribuir para a depressão em homens, e incentivando-os a valorizar a abertura sobre suas emoções. Mas também pode ser problemático, afirmam os pesquisadores. O uso casual do termo pode sugerir erroneamente, por exemplo, que todas as sociedades concebem a masculinidade da mesma maneira, que todos os traços masculinos são negativos ou que todos os homens são tóxicos.

Pesquisadores têm se aprofundado em conceitos semelhantes, incluindo a masculinidade hegemônica ou patriarcal, que examina como uma visão dominante e culturalmente idealizada da masculinidade sustenta o patriarcado. Mas o termo “masculinidade tóxica” não recebeu tanta atenção acadêmica. “Ninguém a mede”, afirma o pesquisador de psicologia Steven Sanders, da Universidade Estadual do Oregon. Alguns psicólogos estão agora tentando analisar e quantificar seus aspectos.

Em 2024, Sanders e seus colegas publicaram uma “escala de masculinidade tóxica”, identificando 28 questões, que avaliavam o grau de toxicidade expresso por estudantes universitários brancos do sexo masculino nos Estados Unidos. A doutoranda em psicologia Deborah Hill Cone, da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e seus colegas, ampliaram essa compreensão com uma visão mais abrangente da toxicidade e uma amostra maior e mais diversificada de homens em um estudo publicado na revista Psychology of Men & Masculinities.

O riquinho mimado do mundo da tecnologia

Hill Cone e seus colegas identificaram oito indicadores de masculinidade tóxica em homens adultos heterossexuais em sociedades ocidentais. Esses indicadores incluíam preconceito contra a identidade sexual das pessoas e a “centralidade da identidade de gênero”, que quantifica a importância do gênero para a autoimagem de alguém.

Os autores analisaram tanto o sexismo hostil, por exemplo, a crença de que as mulheres buscam poder controlando os homens, quanto o sexismo benevolente, como a visão de que os homens devem proteger e valorizar as mulheres. Eles também investigaram se os homens se opõem à prevenção da violência doméstica e se acreditam que, de modo geral, as sociedades são compostas por alguns grupos mais merecedores de proteção do que outros.

A equipe analisou os resultados do Estudo de Atitudes e Valores da Nova Zelândia de 2018-19, uma pesquisa abrangente com respostas de quase 50.000 pessoas. Mais de 15.000 participantes se identificaram como homens heterossexuais e responderam a perguntas relevantes, como “ser mulher/homem é uma parte importante de como me vejo” e “grupos inferiores devem permanecer em seus lugares”.

Em uma análise estatística, os respondentes foram divididos em cinco grupos. A boa notícia é que apenas o menor grupo (3,2% dos homens) foi caracterizado pelos pesquisadores como “tóxico hostil”, enquanto o maior grupo foi “atóxico” (35,4%). Isso não é surpreendente, diz Sanders. “Em média, os homens não são monstros.” Entre esses grupos, Hill Cone e seus colegas encontraram dois grupos moderados, divididos entre aqueles que eram mais ou menos tolerantes com pessoas de minorias sexuais e de gênero (LGBTQ+) e um grupo “tóxico benevolente”, cujos membros obtiveram pontuações relativamente altas em medidas de sexismo, mas não em hostilidade.

A probabilidade de os homens da amostra apresentarem o perfil hostil tóxico era maior entre os mais velhos, solteiros, desempregados, religiosos ou pertencentes a minorias étnicas, bem como entre aqueles com altos níveis de conservadorismo político, privação econômica ou desregulação emocional, ou com baixo nível de escolaridade.

O típico ‘macho alfa’ do mundo da tecnologia ou o ‘valentão de fraternidade’, não apareciam no grupo hostil tóxico, afirma Hill Cone. Em vez disso, o grupo hostil tóxico era composto principalmente por homens marginalizados e desfavorecidos. “São homens com poucos recursos, não homens dirigindo Lamborghinis.”,

É importante ressaltar, que a centralidade da masculinidade na identidade de um indivíduo, não era um fator preditivo específico para o grupo ao qual ele pertencia. Embora os homens do grupo hostil tóxico tendessem a relatar que seu gênero era importante para eles, o mesmo acontecia com muitos homens nas outras categorias. “Homens ‘machões’ não são necessariamente tóxicos”, diz Hill Cone. “Existe masculinidade positiva.”

Tudo com moderação

O estudo é amplo, inteligentemente concebido e bem executado, afirma Ryon McDermott, psicólogo da Universidade do Sul do Alabama, em Mobile. Mas, acrescenta, que é importante lembrar, que examinou homens em apenas uma parte do mundo. A forma como esses homens se dividiu em cinco grupos distintos, “pode não se repetir em uma amostra diferente”, diz McDermott.

Michael Flood, pesquisador de homens, masculinidades e prevenção da violência na Universidade de Tecnologia de Queensland, Austrália, afirma que estudos que visam quantificar a masculinidade tóxica podem ser usados ​​para “adaptar melhor as intervenções que abordam formas nocivas de masculinidade, a grupos específicos de homens”, se forem adaptados para levar em conta, as diferenças culturais da região do estudo.

No entanto, acrescenta McDermott, as principais conclusões não são particularmente surpreendentes. Outros estudos também constataram que apenas uma pequena porcentagem de homens adere a “aspectos desagradáveis ​​e problemáticos da masculinidade”.

Estudar a masculinidade tóxica é importante, diz McDermott, em parte porque ajuda a esclarecer como muitas características que as pessoas consideram tóxicas, como competitividade ou dominância, podem ser benéficas, tanto para homens quanto para mulheres, com moderação. Essas características se tornam problemáticas, afirma ele, quando as pessoas desenvolvem ideias rígidas e extremas sobre o que significa gênero, e se sentem compelidas a corresponder a esses padrões. “Se você é homem e acredita que não pode agir de forma feminina de jeito nenhum, sendo vulnerável, expressando emoções, você vai ter problemas”, diz McDermott. “Esses homens recorrem ao álcool, a outras substâncias tóxicas e até apresentam um risco maior de suicídio.”

Link do artigo original:https://www.nature.com/articles/d41586-026-00144-4

Imagem Designed by Freepik

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
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