Células imunológicas de longa duração mostram-se promissoras contra o câncer

Artigo publicado na Nature em 30/04/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que o câncer no sangue entrou em remissão em algumas pessoas tratadas com um tipo de célula T, que age como células-tronco, em um ensaio clínico inédito no mundo.

O primeiro ensaio clínico, a testar o poder antitumoral de uma classe de células imunológicas de longa duração, semelhantes a células-tronco, sugere que elas podem ser mais potentes e menos tóxicas, do que a mistura padrão de células usada em terapias contra o câncer.

O estudo, publicado na revista Cell em 30 de abril, foi pequeno, e ensaios maiores são necessários, para estabelecer a eficácia do tratamento. Mas os resultados iniciais são promissores: de 11 pessoas com cânceres sanguíneos de difícil tratamento, 5 entraram em remissão, após receberem um tratamento chamado terapia com células T com receptor de antígeno quimérico (CAR), que continha uma proporção excepcionalmente alta de células imunológicas, com propriedades semelhantes às células-tronco.

Essa formulação foi eficaz em doses menores do que a terapia com células CAR-T normal, e produziu efeitos colaterais mais leves. “Em termos de dose, essas células definitivamente pareceram mais potentes”, diz Christine Brown, que estuda imunoterapia contra o câncer no City of Hope, um centro de tratamento e instituto de pesquisa oncológica em Duarte, Califórnia, e que não participou do estudo. “É um primeiro passo, mas um passo importante.”

Diversos tipos de células T

As terapias com células CAR-T, reprogramam células imunológicas chamadas células T, para atacar e destruir células cancerígenas. Para produzir esses medicamentos complexos e vivos, os pesquisadores geralmente isolam as células T do sangue do receptor e, em seguida, as modificam geneticamente, para expressar uma proteína que se liga às células cancerígenas. Mas as células T apresentam uma variedade de tipos, cada uma com funções únicas, e as terapias com células CAR-T, normalmente contêm uma mistura delas.

Pesquisas anteriores sugeriram que a presença de um subconjunto de células T, chamadas células T de memória de células-tronco, está correlacionada com o sucesso da terapia com células CAR-T. Essas células têm propriedades semelhantes às das células-tronco, incluindo a capacidade de gerar muitos tipos de células T.

Luca Gattinoni, pesquisador de câncer no Instituto Leibniz de Imunoterapia em Regensburg, Alemanha, e seus colegas, decidiram testar se uma terapia “enriquecida”, composta principalmente por essas células, poderia ser mais eficaz do que os tratamentos usuais com células CAR-T.

Trabalhando com James Kochenderfer, pesquisador de câncer no Instituto Nacional do Câncer dos EUA em Bethesda, Maryland, os autores desenvolveram um procedimento que aumentou a proporção de células T de memória de células-tronco, em uma dose de células CAR-T em quase dez vezes. Eles usaram a mistura enriquecida, para tratar pessoas com cânceres sanguíneos, cuja doença havia recidivado após um transplante de células-tronco hematopoiéticas, ou que não havia respondido à terapia. A equipe comparou as respostas desses indivíduos, com as de pessoas que haviam sido tratadas anteriormente com a terapia padrão com células CAR-T.

Produto poderoso

Os autores descobriram, que suas células CAR-T, tinham maior probabilidade de induzir remissão completa nos participantes, do que doses semelhantes de células CAR-T convencionais. Das 10 pessoas que receberam a terapia convencional com células CAR-T, uma entrou em remissão completa. Mas, dos 11 participantes que receberam a nova terapia, 5 obtiveram remissão completa, e outro apresentou remissão parcial. Apenas um participante neste braço do estudo, teve piora da doença logo após o tratamento.

“Em termos de eficácia, este é um produto mais poderoso”, afirma Susan Kaech, imunologista do câncer no Allen Institute em Seattle, Washington. “É empolgante.”

As células CAR-T, às vezes desencadeiam uma resposta imune perigosa, chamada síndrome de liberação de citocinas, mas esse efeito colateral foi relativamente leve, nos participantes que receberam o tratamento aprimorado.

A maioria das pessoas que recebe terapia com células CAR-T, passa primeiro por um tratamento com medicamentos agressivos, para reduzir seus níveis de células T não geneticamente modificadas, uma etapa que comprovadamente melhora o desempenho da terapia convencional com células CAR-T. Os participantes do estudo mais recente, não foram submetidos a esse pré-tratamento, mas adicioná-lo, poderia aumentar ainda mais a eficácia da terapia enriquecida, afirma Brown.

Gattinoni e seus colegas estão planejando estudos de acompanhamento em pessoas com outros tipos de câncer, incluindo alguns com sarcoma, que geralmente afeta a pele ou os olhos. Este estudo será particularmente interessante, diz ele, porque testará os efeitos da terapia com células CAR-T enriquecidas, contra um tumor sólido. Tumores sólidos têm se mostrado mais difíceis de tratar com a terapia convencional com células CAR-T, do que os cânceres do sangue.

Esses estudos futuros, ajudarão os pesquisadores a responder questões ainda em aberto sobre a abordagem, afirma Brown. Por exemplo, a terapia com células CAR-T de Gattinoni contém níveis muito baixos de outra classe de células T, chamadas células T CD4+, mas estas podem ser importantes para provocar respostas imunológicas contra tumores sólidos, explica ela.

Link do artigo de origem: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01398-8

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Freepik

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