Artigo publicado na Nature em 23/07/2026,onde os pesquisadores de diferentes países afirmam que os meteorologistas preveem que esse fenômeno climático colossal, se combinará com o aquecimento global, para elevar as temperaturas mundiais a novos patamares em 2027.
O padrão climático El Niño, que vem se intensificando no Oceano Pacífico, caminha para se tornar o mais intenso em pelo menos 150 anos, afirmaram os pesquisadores. Se as previsões de magnitude extrema apresentadas por eles se confirmarem, a onda de calor que o El Niño liberará do oceano, somada ao aquecimento decorrente das mudanças climáticas causadas pelo ser humano, provavelmente tornará o próximo ano o mais quente já registrado, além de desencadear eventos climáticos extremos, em diversas partes do mundo.
Segundo projeções de um conjunto de modelos climáticos, o pico deste El Niño deve superar o recordista anterior por uma “margem realmente impressionante”, diz Zeke Hausfather, cientista climático da Berkeley Earth, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos da Califórnia, que sediou a coletiva.
Não é “impossível” que o evento, se combine com as mudanças climáticas, para elevar as temperaturas médias globais em 2027 a até 1,7°C acima da média pré-industrial, afirmou ele, durante a apresentação. Isso deixaria o planeta à beira de ultrapassar o limite de 1,5°C, que os governos se comprometeram a evitar no âmbito do Acordo de Paris.
A ocorrência atual de um El Niño não é surpreendente. O fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é uma flutuação natural, na temperatura da superfície do mar e nos ventos do Oceano Pacífico tropical. Historicamente, ele oscila entre episódios quentes de El Niño e episódios frios de La Niña, em intervalos de dois a sete anos. O último El Niño ocorreu em 2023–24 e, após meteorologistas alertarem sobre a iminência de um grande evento, o fenômeno deste ano surgiu em junho.
No entanto, as previsões mais recentes sugerem, que este El Niño pode atingir proporções ainda maiores do que o esperado. Segundo Justin Mankin, pesquisador climático do Dartmouth College em Hanover, o fenômeno apresenta características muito semelhantes às daquelas variações, que cientistas projetaram ser amplificadas pelas mudanças climáticas de origem humana, mais adiante neste século.
Previsões extremas
As temperaturas elevadas da superfície do mar no Pacífico e os padrões de vento, marcas registradas do El Niño, intensificaram-se rapidamente desde junho. Em seu boletim mais recente, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), estimou em 80% a probabilidade de ocorrência de um evento “muito forte” até o final do ano, com quase total certeza de que as condições do El Niño, persistirão pelo menos até abril de 2027.
“Neste momento, observamos todos os indicadores de um acoplamento atmosfera-oceano muito vigoroso em todo o Oceano Pacífico equatorial, o que nos dá mais confiança de que veremos, de fato, um El Niño ‘muito forte’, capaz de figurar entre os mais intensos já registrados em nosso histórico”, afirma Michelle L’Heureux, meteorologista da NOAA, que lidera a equipe de previsão do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) da agência em College Park, Maryland.
No entanto, a previsão da NOAA pode ser conservadora. Em uma publicação em blog na semana passada e durante a coletiva de imprensa realizada hoje, Hausfather comparou as projeções de 14 modelos climáticos para este El Niño, e demonstrou que a estimativa mediana, para o pico da temperatura da superfície do mar no Pacífico, é cerca de 0,8°C superior ao recorde anterior, estabelecido em 2015–2016. “Não é, de forma alguma, uma conclusão garantida, mas a probabilidade tem aumentado mês a mês”, disse ele.
Além de o evento El Niño elevar as temperaturas médias globais a níveis recordes em 2027, Hausfather afirma, que há uma boa chance de que ele impulsione as temperaturas o suficiente, nos próximos meses, para tornar 2026 também um ano de calor recorde. O padrão de ondas de calor, secas, inundações e incêndios florestais associado ao El Niño, também terá consequências para as economias. Mankin e seus colegas estimaram que, as mudanças climáticas atribuídas a um forte El Niño em 1997–98, reduziram o crescimento econômico global em US$ 5,7 trilhões nos anos seguintes.
Se as previsões estiverem minimamente corretas, o atual El Niño poderá causar “US$ 10 trilhões em perdas econômicas até 2032”, diz Mankin. Além dos impactos na sociedade humana, é provável que este El Niño sobrecarregue ecossistemas e oceanos, provocando uma queda na quantidade líquida de carbono, que eles absorvem da atmosfera. Temperaturas oceânicas elevadas, também são uma má notícia para os recifes de coral, que sofrem branqueamento devido ao calor.
Parte de um padrão?

É provável, que este El Niño não seja o maior já ocorrido na Terra, se recuarmos bastante no registro climático, diz Kaustubh Thirumalai, paleoclimatologista que estuda a variabilidade do ENOS (El Niño-Oscilação Sul) na Universidade do Arizona, em Tucson. Evidências obtida a partir de corais, apontam para um evento muito forte que pode ter ocorrido no século XVII, por exemplo. No entanto, é difícil afirmar com certeza, visto que eventos transitórios, como os episódios de El Niño, são difíceis de identificar de forma robusta em um passado remoto.
Segundo Thirumalai, a verdadeira importância do El Niño deste ano, ocorrido apenas dois anos após o anterior, reside em saber se ele pode indicar uma mudança sistemática no ciclo do ENOS, com episódios de El Niño sendo impulsionados pelas mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Em outras palavras: os cientistas sabem que o El Niño amplifica os efeitos do aquecimento global, mas será que essa relação funciona nos dois sentidos? “Para ser bem sincero, eu diria que ainda não sabemos”, afirma ele.
Muitos modelos climáticos preveem, que o aquecimento global causado pelo ser humano, provavelmente levará o ENOS a um novo estado médio neste século, com episódios de El Niño tornando-se mais intensos e frequentes. No entanto, os pesquisadores continuam a debater, se já observaram o início desse padrão nos dados climáticos.
“Estamos em um estado de transição neste momento”, diz Thirumalai, comparando a mudança em curso neste século à profunda transformação iniciada há cerca de 20.000 anos, quando se passou de um período glacial gelado para um mundo mais quente. “O sistema climático ainda não entrou em equilíbrio. E só entrará em equilíbrio depois que pararmos de emitir CO2.”
Artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02293-y

Imagens: Magnific (Freepik)







