A alergia ao consumo de carne está aumentando

Artigo publicado na Nature em 31/07/2026,onde os pesquisadores americanos afirmam que a alergia é causada por carrapatos, mas que eles ainda têm muito a aprender sobre essa doença.

O Dr. Thomas Platts-Mills desenvolve uma erupção cutânea se ingerir carne vermelha. O imunologista é uma das milhares de pessoas diagnosticadas anualmente com a alergia à α-gal (alfa-gal) induzida por carrapatos, uma alergia potencialmente fatal, que vem apresentando um aumento na incidência.

As pessoas podem desenvolver essa alergia após serem picadas pelo menos duas vezes por carrapatos, que carregam em sua saliva, uma molécula de açúcar chamada α-gal (galactose-α-1,3-galactose). Esses carrapatos frequentemente são transportados por cervos, e podem ser transmitidos a um hospedeiro humano, quando as pessoas caminham por áreas com grama ou arbustos, que abrigam os parasitas.

Os casos de alergia à α-gal estão aumentando em muitos países. Pesquisadores apontam as mudanças climáticas, e o crescimento das populações de cervos como fatores contribuintes, mas ainda há muito que a ciência desconhece sobre a doença. Até mesmo o diagnóstico é desafiador, pois os pacientes geralmente apresentam sintomas vagos, como dor abdominal ou vômito, horas após o consumo de carne e, por vezes, meses depois da picada do carrapato. Por esse motivo, é provável que a alergia esteja sendo subdiagnosticada. Atualmente, não existem tratamentos ou cura para a condição.

“Ainda estamos tateando no escuro, mas é nossa responsabilidade, encontrar algo que funcione para as pessoas” que necessitam de tratamento, afirma o Dr. Benjamin Casterline, pesquisador de imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Missouri.

Quando um carrapato pica, a α-gal é transferida da saliva para a corrente sanguínea da pessoa, desencadeando a produção de anticorpos da classe imunoglobulina E (IgE). Exposições futuras à α-gal, encontrada na carne vermelha e em laticínios, podem provocar uma reação alérgica. Em alguns casos, isso pode evoluir para anafilaxia, uma reação potencialmente fatal, explica o Dr. Platts-Mills, que também pesquisa alergias na Universidade da Virgínia, em Charlottesville. Pelo menos duas pessoas morreram em decorrência dessa alergia em todo o mundo.

Em ascensão

A Austrália, registra as taxas mais elevadas de alergia à α-gal no mundo, afetando mais de 700 em cada 100.000 habitantes, em algumas regiões propensas à presença de carrapatos. O número de casos suspeitos tem aumentado 22% ao ano desde 2020, sendo a maioria causada pelo carrapato-da-paralisia australiano (Ixodes holocyclus).

Os Estados Unidos, também são um foco importante da doença; estima-se que até 450.000 pessoas possam ter a alergia, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Entre 2017 e 2022, cerca de 15.000 pessoas foram diagnosticadas com a alergia a cada ano, sendo que a maioria dos casos, ocorreu em regiões onde o carrapato-estrela-solitária (Amblyomma americanum) é comum, as picadas dessa espécie de carrapato são a principal causa da alergia a alfa-gal nos Estados Unidos.

No Japão, de 2% a 4% da população (até 4,9 milhões de pessoas) foram expostos à alfa-gal, e produziram anticorpos, o que significa que estão sensibilizados à molécula, mas não são necessariamente alérgicos a ela. Na Dinamarca, a prevalência de sensibilização à alfa-gal na população, mais do que dobrou entre 1990 e 2016, passando de 1,3% para 3,2%. Um estudo constatou, que de 1% a 8% das pessoas que vivem em áreas com grandes populações de carrapatos apresentam a alergia, e até 35% das pessoas podem estar sensibilizadas.

As mudanças climáticas são uma das explicações para o aumento dos casos, uma vez que o aquecimento das temperaturas, amplia os habitats dos carrapatos, afirma a Dra. Nanju Alice Lee, cientista de alimentos e pesquisadora da área de alergias na Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália. Por exemplo, os habitats dos carrapatos australianos, antes restritos a uma pequena área de Nova Gales do Sul, expandiram-se pela costa leste do país até Queensland, diz a Dra. Lee.

Uma alergia incomum

Essa alergia é incomum, por ser uma alergia alimentar, desencadeada pela picada de um inseto, afirma a Dra. Lee. Outra diferença notável, é que os sintomas podem levar até oito horas para surgir após a exposição, ao contrário de outras reações alérgicas mediadas por IgE, nas quais os sintomas ocorrem em questão de minutos ou até duas horas, após a exposição.

Não está claro por que os sintomas demoram tanto a aparecer. O Dr. Platts-Mills explica, que a teoria atual, é que a α-gal pode ser expressa como parte de glicolipídios em células de mamíferos, presentes na carne consumida pela pessoa. “Se você come um bife de carne bovina, os glicolipídios podem entrar no sistema linfático” na forma de aglomerados de lipídios chamados quilomícrons e, então, aparecer na corrente sanguínea uma hora depois, explica ele. Nesse estágio, eles são grandes demais para sair da circulação. No entanto, ao longo das três horas seguintes, os quilomícrons, que expressam α-gal, são decompostos em moléculas pequenas, o suficiente para deixar a corrente sanguínea, e penetrar nos tecidos intestinais, onde desencadeiam uma reação imunológica.

O Dr. Casterline afirma, que sua equipe planeja criar um registro de pessoas com alergia à α-gal, para monitorar sintomas, identificar subtipos da alergia e, potencialmente, associar esses subtipos a biomarcadores, visando aprimorar o diagnóstico. Contudo, ele ressalta, que os pesquisadores precisam compreender melhor a alergia, antes que tratamentos possam ser desenvolvidos.

Atualmente, recomenda-se que pessoas com alergia à α-gal, evitem produtos à base de carne de mamíferos; além disso, podem ser prescritos anti-histamínicos de longa duração, para reduzir o risco de reação alérgica. No entanto, existem evidências de que indivíduos alérgicos, produzem menos anticorpos contra a α-gal ao longo do tempo, caso evitem novas picadas de carrapato. Muitas alergias alimentares persistem por toda a vida, diz a Dra. Lee, mas, após um período de “repouso” do sistema imunológico, que dura vários anos, é possível que as pessoas comecem a reintroduzir carne em sua dieta.

P.S- As espécies de carrapatos mais predominantes e comuns no Brasil são o carrapato-vermelho-do-cão (Rhipicephalus sanguineus), muito frequente em áreas urbanas, e o carrapato-estrela (Amblyomma sculptum), amplamente encontrado em zonas rurais e silvestres.

Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02362-2

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Magnific (Freepink)

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