Quando a alma não consegue mais silenciar

Há um cansaço que não nasce do trabalho, nem das longas jornadas ou da falta de sono. É um cansaço que começa nos olhos e termina no coração. Surge silenciosamente, enquanto o dedo desliza pela tela em busca da próxima notícia, da próxima tragédia, da próxima explicação para um mundo que parece nunca encontrar paz.
Vivemos conectados como nenhuma outra geração. Nunca soubemos tanto sobre o sofrimento humano. Em poucos minutos atravessamos continentes, presenciamos guerras, catástrofes, violência, crises econômicas, perdas e injustiças. A informação chega antes mesmo de a emoção encontrar tempo para respirar.

Esse fenômeno recebeu um nome: doomscrolling. Mas, antes de ser um termo científico, ele retrata um comportamento profundamente humano. Afinal, quem nunca procurou respostas quando sentiu medo? Quem nunca acreditou que, lendo apenas mais uma notícia, finalmente encontraria alguma segurança ? O problema é que essa resposta quase nunca chega.

Cada nova manchete promete esclarecer a anterior, mas abre caminho para outra ainda mais inquietante. A mente entra em um ciclo de vigilância permanente. Sem perceber, deixamos de observar o céu para observar notificações. O silêncio perde espaço para o ruído constante das telas, e o presente vai sendo substituído por uma sucessão infinita de preocupações sobre um futuro que ainda nem aconteceu.

A neurociência explica que essa exposição contínua às más notícias mantém o cérebro em estado de alerta, estimulando a liberação constante de cortisol e adrenalina. O organismo passa a agir como se estivesse diante de um perigo real durante todo o tempo. O coração acelera. O sono perde qualidade. A concentração diminui. A ansiedade cresce. E aquilo que parecia apenas um hábito digital transforma-se em sofrimento emocional.
Mas talvez exista um efeito ainda mais delicado e menos percebido.

Quando convivemos diariamente com imagens de dor, o coração pode começar a criar uma espécie de armadura. Não porque deixamos de amar, mas porque ninguém consegue permanecer emocionalmente aberto diante de uma avalanche contínua de sofrimento. Aos poucos, a tristeza dos outros deixa de nos surpreender. A tragédia seguinte substitui a anterior antes mesmo que possamos elaborar o que sentimos. E a alma, cansada de carregar tantas dores que não são suas, aprende apenas a sobreviver. Entretanto, sobreviver nunca foi o mesmo que viver.

Viver continua sendo olhar nos olhos de quem amamos sem que o celular interrompa o encontro. É ouvir uma criança rir e permitir que aquele instante tenha mais força do que a última manchete. É caminhar sem a necessidade de verificar o mundo a cada minuto. É compreender que a realidade também é feita de gestos de solidariedade, reencontros, pesquisas que salvam vidas, pessoas que cuidam de pessoas e pequenos milagres cotidianos que raramente ocupam os grandes portais de notícias.

Precisamos reaprender uma habilidade que a pressa digital quase nos roubou: fazer pausas. O cérebro necessita de descanso tanto quanto o coração necessita de esperança. Cuidar da saúde mental é reconhecer que nossa sensibilidade não foi feita para suportar um fluxo ininterrupto de medo. A psicoterapia oferece um lugar ,onde a mente pode desacelerar e onde o coração volta a encontrar palavras para aquilo que vinha sendo sufocado pelo excesso de informações. Em tempos em que o mundo parece gritar sem descanso, proteger a própria paz tornou-se um ato de responsabilidade. Porque uma alma exausta já não consegue oferecer acolhimento, nem a si mesma, nem aos outros.

No fim, talvez a maior notícia que possamos dar ao nosso próprio coração seja esta: ainda existe beleza entre as manchetes. Ainda existem pessoas que estendem as mãos, médicos que devolvem esperança, famílias que recomeçam, crianças que sorriem, árvores que florescem depois da tempestade e amanheceres que insistem em nascer, mesmo após as noites mais escuras. E enquanto houver um único gesto de bondade no mundo, haverá também um motivo para lembrar que a esperança nunca deixou de ser a notícia mais importante de todas.

Rossana Kopf – Psicanalista

Imagens: Magnific (Freepik)

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