“Não é preciso sair do RJ para ter um evento de alto nível”: Dr. Flávio Lobianco antecipa os debates do 2º Anest In Rio

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Às vésperas do 2º Anest In Rio, o Jornal do Médico® conversou com exclusividade com o vice-presidente da SAERJ, Dr. Flávio Lobianco. Na entrevista, o especialista antecipa os principais destaques científicos e profissionais do congresso, que será realizado de 24 a 26 de setembro, no Windsor Barra/RJ. Confira a seguir.

Jornal do Médico®: Dr. Flávio, o 2º Anest In Rio traz uma programação técnica robusta. Na prática clínica da Anestesia Regional, existem discrepâncias sociais na administração de bloqueios no Brasil?

Dr. Flávio Lobianco: A literatura médica, principalmente norte-americana, relata discrepâncias sociais bem documentadas na administração de bloqueios de anestesia regional, principalmente para analgesia pós-operatória. Nos Estados Unidos, pacientes não brancos (negros, asiáticos e hispânicos) têm cerca de 18% menos chance de receber anestesia regional para dor pós-operatória. Há vários fatores que contribuem para essas discrepâncias: desde componentes sociais até financeiros e variam muito em função do hospital, do provedor da assistência e do próprio paciente. No Brasil não temos estudos exatamente com esse perfil, mas historicamente sabemos que o acesso à saúde não é igualitário a negros, indígenas e outras minorias. O maior determinante no Brasil dessas discrepâncias são os recursos financeiros destinados à saúde. Temos o SUS que atende a 75% da população, apresentando grande heterogeneidade regional, e a Saúde Suplementar Privada com maior alocação de recursos. O quadro é complexo. No entanto como anestesiologistas devemos sempre ofertar o melhor tratamento possível com os recursos disponíveis, além de sermos sinalizadores de tratamento analgésicos insuficientes. O que parece ajudar em quaisquer tipos de discrepâncias no tratamento é a padronização mínima de qualidade segundo protocolos básicos determinados por cada serviço de anestesiologia.
Dr. Flávio Lobianco no Anest In Rio

Jornal do Médico®: O paciente obeso apresenta desafios anatômicos específicos. Como a Anestesia Regional tem evoluído para oferecer maior segurança e previsibilidade nesse cenário?

Dr. Flávio Lobianco: A ultrassonografia pré-punção e em tempo real foi o principal avanço, superando a dificuldade de palpação de referências anatômicas causada pelo maior tecido adiposo. Ela permite identificar vasos sanguíneos, nervos e profundidade epidural/subaracnóidea, reduzindo tentativas de punção, tempo de agulhamento e falhas em bloqueios neuroaxiais e periféricos. No entanto, em casos de imagem subótima por espessura de tecido adiposo, técnicas combinadas de ultrassom com neuroestimulação, eletromiografia ou monitorização de pressão de injeção e, mais recentemente, algoritmos de identificação automática por inteligência artificial têm sido propostos para superar essa limitação. Apesar da maior taxa histórica de falha de bloqueio em obesos, dados de grandes séries mostram que a satisfação e o sucesso global permanecem altos, não justificando exclusão desses pacientes da anestesia regional.

“Apesar da maior taxa histórica de falha de bloqueio em obesos, dados de grandes séries mostram que a satisfação e o sucesso global permanecem altos, não justificando exclusão desses pacientes da anestesia regional.”

Jornal do Médico®: A atuação do anestesiologista fora do centro cirúrgico vem crescendo, especialmente em procedimentos complexos como os de eletrofisiologia. Quais são os desafios no manejo desses pacientes fora do centro cirúrgico?

Dr. Flávio Lobianco: Os principais desafios são estruturais, de segurança e de comunicação interdisciplinar em locais não projetados para anestesia. Salas de eletrofisiologia frequentemente apresentam iluminação insuficiente, ruído, espaço restrito, acesso limitado ao paciente, equipamentos antigos ou pouco familiares e menor familiaridade da equipe, fatores associados a maior morbimortalidade comparada ao centro cirúrgico. Complicações respiratórias — depressão respiratória por sedação excessiva com monitoramento inadequado — são a principais causas de eventos adversos em ambientes fora do centro cirúrgico. Quase o dobro. Na eletrofisiologia especificamente, soma-se a necessidade de comunicação estreita entre anestesiologista e eletrofisiologista quanto ao modo ventilatório, hemodinâmica e complicações inerentes aos procedimentos (como tamponamento cardíaco), e a exigência de imobilidade para mapeamento 3D preciso, o que pode demandar sedação profunda ou anestesia geral. Estratégias para redução de incidentes anestésicos incluem checklists específicos por local, padronização de protocolos de anestesia, videolaringoscopia disponível e reforço da preparação para emergências anestésicas com a equipe local.
Palestra no Anest In Rio

Jornal do Médico®: Chegando à sua 4ª edição, o módulo Anestesia & Finanças consolidou-se como um tema essencial. Qual é a importância de discutir gestão, planejamento financeiro e carreira para o fortalecimento profissional do médico anestesiologista hoje?

Dr. Flávio Lobianco: Em 2023, como Diretor Financeiro da SAERJ, propus junto com o Dr. Marcelo Cursino da COOPANEST-RIO a criação do Anestesia & Finanças para abordar o planejamento financeiro pessoal do anestesiologista. Estávamos saindo da pandemia do COVID-19 e víamos muitos colegas sem a estruturação financeira para enfrentar diminuição de renda desse período. Com a participação de especialistas do mercado financeiro inauguramos um foro de discussão desses temas. Esse ano iremos focar na faixa etária do anestesiologista, discutindo quais devem ser os objetivos financeiros adaptados à grande alteração na remuneração ocorrida nos serviços prestados por anestesiologistas no Estado do Rio de Janeiro nos últimos anos.

“Não é preciso mais sair do Estado do Rio de Janeiro para se ter um evento de alta qualidade. O Anest In Rio se consolida como um foro de discussão e congraçamento presencial, permitindo uma network sem paralelo.”

Jornal do Médico®: Para encerrar, qual é a principal mensagem e o legado que a SAERJ busca deixar aos congressistas com a realização deste 2º Anest In Rio?

Dr. Flávio Lobianco: O Anest in Rio chega a sua segunda edição com a proposta de disponibilizar para o anestesiologista um Congresso de alto nível técnico e informativo direcionado aos sócios da SAERJ e a todos os colegas visitantes de outros estados. Não é preciso mais sair do Estado do Rio de Janeiro para se ter um evento de alta qualidade. Se consolida também como um foro de discussão e congraçamento presencial da Anestesiologia do Rio de Janeiro, permitindo uma network sem paralelo. Para os médicos em especialização, residentes e acadêmicos é a oportunidade de serem introduzidos comunidade de Anestesiologia do Rio de Janeiro para além de seus Serviços de Anestesiologia e Faculdades, expandindo horizontes.

Sobre o entrevistado:

Dr. Flávio Lobianco, CRM 5258300-0/RJ | RQE Nº 51459 é médico anestesiologista do Hospital Clementino Fraga Filho (HUCFF – UFRJ), Corresponsável pelo CET Prof. Bento Gonçalves (UFRJ), Presidente da Comissão de Educação Permanente (CEP) da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), Vice-Presidente da Sociedade de Anestesiologia do Estado do Rio de Janeiro (SAERJ) e TSA-SBA/RJ.

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