Coordenação: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico
O Dr. Ismar Vilanova, radiologista com mais de uma década de experiência em serviços de alta complexidade, esteve presente na Jornada Paulista de Radiologia (JPR) e no Radiology in Focus, no Panamá. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Médico®️, analisa como inteligência artificial, novas tecnologias de gestão e a teranóstica — integração entre diagnóstico por imagem e tratamento personalizado — estão transformando a radiologia e o cuidado ao paciente.
Dr. Ismar Vilanova no Radiology in Focus — Panamá, 2026
Dr. Ismar Vilanova: Minha participação nesses dois eventos teve uma motivação estratégica. Como radiologista e gestor de serviço de imagem em instituições de alta complexidade, considero essencial acompanhar não apenas a atualização diagnóstica, mas também as transformações que estão redefinindo a prática da radiologia: inteligência artificial, organização dos fluxos assistenciais, segurança do paciente, uso racional dos meios de contraste, controle de custos, teranóstica (a integração entre imagem diagnóstica e tratamento) e a conexão entre tecnologia e decisão clínica.
Na JPR, concentrei minha participação sobretudo nos módulos de inteligência artificial e inovação, especialmente nas discussões sobre o impacto da IA na carreira do radiologista, no diagnóstico, na remuneração e na organização dos serviços de imagem. Foi uma oportunidade de avaliar, de forma crítica, como essas ferramentas podem ser incorporadas à prática real sem perder o papel central do julgamento médico.
Já no Radiology in Focus, no Panamá, tive uma experiência complementar, com intensa troca de experiências com gestores de radiologia de todo o Brasil, inclusive vários ligados ao sistema Unimed. O evento permitiu comparar modelos de gestão, desafios operacionais e estratégias de inovação em diferentes realidades. Um dos temas de maior destaque foi a otimização do uso dos meios de contraste — as substâncias injetadas durante tomografias e ressonâncias magnéticas para melhorar a visualização de estruturas internas, como vasos e tumores. Essa discussão girou em torno das bombas injetoras inteligentes e conectadas: equipamentos que registram automaticamente quanto contraste foi utilizado em cada exame, padronizam os protocolos entre diferentes técnicos e turnos, e geram dados que ajudam a reduzir desperdícios e aumentar a segurança do paciente.
Além disso, nos dois eventos foi debatida a teranóstica — uma abordagem que combina imagem médica e tratamento personalizado. Por meio de substâncias chamadas radiofármacos, marcadas radioativamente, é possível ao mesmo tempo localizar tumores ou tecidos doentes com precisão (diagnóstico) e tratá-los com radiação dirigida (terapia). Para médicos de outras especialidades, isso significa que a radiologia passou a ter participação direta não apenas no diagnóstico, mas também na seleção dos pacientes para determinadas terapias e no acompanhamento de sua resposta ao tratamento.
Para mim, os dois eventos se conectaram por um mesmo objetivo: transformar conhecimento científico e tecnológico em melhoria concreta da assistência, da eficiência operacional e da qualidade diagnóstica — beneficiando, em última análise, o paciente que chega ao consultório de qualquer especialidade médica.
Os dois eventos se conectaram por um mesmo objetivo: transformar conhecimento científico e tecnológico em melhoria concreta da assistência e da qualidade diagnóstica — em benefício do paciente de todas as especialidades médicas.
Dr. Ismar Vilanova: O grande destaque da JPR, para mim, foi o amadurecimento da discussão sobre inteligência artificial. A IA deixou de ser apresentada apenas como uma ferramenta capaz de detectar lesões em exames e passou a ser discutida como uma força transformadora de toda a profissão.
Os módulos que acompanhei abordaram temas diretamente ligados ao futuro da radiologia: impacto da IA na carreira, risco ou não de substituição do radiologista, remuneração, diagnóstico diferencial assistido por algoritmos, geração automática de relatórios médicos (laudos) e a integração dessas ferramentas com os sistemas digitais de gestão e arquivamento de imagens.
O que mais me marcou foi perceber que a inteligência artificial não deve ser vista apenas como uma tecnologia diagnóstica isolada. Ela será uma camada transversal de toda a radiologia. Vai influenciar a forma como priorizamos exames urgentes, estruturamos os relatórios (laudos), construímos canais de comunicação de achados críticos ao médico assistente, medimos qualidade e organizamos os serviços.
Essa visão é especialmente importante para quem lidera departamentos de imagem de grande volume. Em um serviço que realiza milhares de exames por mês — tomografias, ressonâncias, ultrassonografias — a IA pode ajudar não apenas no diagnóstico, mas também na segurança, na rastreabilidade dos processos, na padronização dos protocolos e na gestão de toda a informação clínica gerada.
A inteligência artificial não deve ser vista como uma tecnologia diagnóstica isolada. Ela será uma camada transversal de toda a radiologia — influenciando diagnóstico, comunicação de resultados e organização dos serviços.
Dr. Ismar Vilanova: Vejo aplicação imediata em três frentes principais.
A primeira é a estruturação dos relatórios médicos — os chamados laudos. Atualmente, a radiologia ainda produz uma enorme quantidade de informação clínica em texto livre, muitas vezes difícil de medir, comparar e transformar em indicadores de qualidade. Laudos mais estruturados — com campos padronizados, terminologia uniforme e conclusões claras — melhoram a comunicação com o médico assistente, reduzem ambiguidade na interpretação dos resultados e criam uma base sólida para auditoria, pesquisa e futuras aplicações de inteligência artificial.
A segunda frente é o uso da inteligência artificial na organização do fluxo de trabalho do serviço de imagem. Em serviços de grande volume, a IA pode contribuir para a priorização automática de exames com achados críticos — como um pneumotórax ou embolia pulmonar —, identificação de inconsistências, revisão assistida de imagens e melhor organização das filas de leitura. Isso não substitui o radiologista, mas aumenta a eficiência do sistema e permite que o médico concentre mais energia nas decisões de maior complexidade clínica.
A terceira é a gestão ativa da qualidade e da segurança. A radiologia moderna precisa monitorar tempo de resposta dos laudos, comunicação de achados críticos ao médico assistente, uso adequado do meio de contraste, dose de radiação recebida pelo paciente, divergências diagnósticas e aderência a protocolos estabelecidos. Para médicos de outras especialidades, isso significa que a radiologia deixou de ser um serviço passivo — que simplesmente recebe pedidos e devolve imagens. Ela passou a ser uma área que mede, controla e responde ativamente pela qualidade e segurança de cada etapa do exame.
Na minha visão, a implementação da IA deve começar por uma base bem organizada: protocolos claros, dados confiáveis, indicators de desempenho, governança e foco permanente no paciente. Sem essa base, a tecnologia não se traduz plenamente em benefício clínico real.
A implementação da IA deve começar por uma base organizada: protocolos claros, dados confiáveis, indicadores de desempenho e foco permanente no paciente. Sem isso, a tecnologia não se traduz em benefício clínico real.
Sessão sobre radiofármacos para diagnóstico — um dos destaques do Radiology in Focus 2026
Painel internacional no Radiology in Focus — Panamá, 2026
Dr. Ismar Vilanova: O Radiology in Focus trouxe uma visão muito voltada à integração de sistemas. No Brasil, muitas vezes discutimos tecnologia de forma compartimentada: o equipamento de imagem, o meio de contraste, a bomba injetora, o sistema de arquivamento digital de imagens (chamado PACS), o laudo, a agenda e a produtividade — cada um em sua caixa separada. No Panamá, a abordagem foi mais sistêmica: como integrar todas essas etapas em um ecossistema coerente de qualidade, segurança, eficiência e cuidado centrado no paciente.
Um dos temas centrais foi a otimização do uso dos meios de contraste — as substâncias injetadas para destacar vasos, tumores ou estruturas nos exames de tomografia e ressonância. O foco foi nas bombas injetoras inteligentes e conectadas: equipamentos modernos capazes de registrar automaticamente cada dose administrada, apoiar a padronização dos protocolos entre diferentes técnicos e turnos, reduzir desperdícios e permitir uma análise detalhada do custo por exame ou por tipo de protocolo.
Isso é extremamente relevante para a realidade brasileira. Em serviços de alto volume, pequenas perdas de contraste, variações de protocolo entre examinadores ou ausência de rastreabilidade podem gerar impacto financeiro significativo. Mas o ganho não é apenas econômico. Quando padronizamos protocolos e monitoramos melhor o uso do contraste, aumentamos a segurança — especialmente em pacientes com risco de reação alérgica ou comprometimento renal — e a qualidade diagnóstica do exame.
Outro ponto muito enriquecedor foi a troca com gestores de radiologia de diferentes regiões do Brasil, inclusive vários do sistema Unimed. Essa conversa mostrou que os desafios são universais: aumento da demanda por exames, pressão por eficiência operacional, necessidade de controle de custos, segurança no uso de contraste e incorporação responsável de novas tecnologias.
A principal diferença que percebi foi essa: globalmente, a radiologia está sendo pensada cada vez menos como um setor isolado de produção de exames e cada vez mais como uma área estratégica de informação clínica, segurança, sustentabilidade e cuidado centrado no paciente dentro de todo o sistema de saúde.
Globalmente, a radiologia está sendo pensada cada vez menos como um setor de produção de exames e cada vez mais como uma área estratégica de informação clínica, segurança e cuidado centrado no paciente dentro de todo o sistema de saúde.
Dr. Ismar Vilanova: Sim. O Panamá reforçou uma ideia que também apareceu com força na JPR: a grande transformação da radiologia não será apenas diagnóstica, mas operacional, estratégica, terapêutica e centrada no paciente.
Enquanto na JPR a inteligência artificial foi discutida em relação ao futuro da profissão, ao diagnóstico e ao papel do radiologista, no Panamá essa discussão ganhou uma dimensão concreta ao ser conectada com eficiência operacional — especialmente no uso de meios de contraste, bombas injetoras inteligentes e tecnologias que integram os diferentes sistemas do serviço de imagem.
As bombas injetoras inteligentes são um bom exemplo dessa transformação. Em vez de apenas injetar o contraste, elas passam a funcionar como fontes de dados clínicos e operacionais: registram consumo real, identificam perdas, detectam variações entre protocolos e garantem rastreabilidade de cada dose administrada. Para o gestor do serviço de imagem, isso representa uma mudança fundamental: sair da gestão baseada em estimativas para uma gestão baseada em dados objetivos.
Além disso, em ambos os eventos houve espaço significativo para discutir a teranóstica — termo que une “terapêutica” e “diagnóstica”. Trata-se de uma abordagem em que a imagem médica deixa de ser apenas uma ferramenta para identificar doenças e passa a participar diretamente da seleção dos pacientes para tratamentos específicos, do planejamento terapêutico e do acompanhamento da resposta ao tratamento. Para médicos de outras especialidades, é importante entender que isso acontece principalmente por meio de radiofármacos — substâncias marcadas radioativamente que se ligam a alvos moleculares específicos em tumores ou tecidos doentes. Elas permitem ao mesmo tempo visualizar o tumor com precisão (diagnóstico) e tratá-lo com radiação localizada (terapia).
A teranóstica representa uma das áreas mais promissoras da medicina personalizada. Para a radiologia, isso significa ampliar substancialmente o papel do especialista: não apenas identificar a doença em uma imagem, mas ajudar a definir quais pacientes podem se beneficiar de determinados tratamentos e como monitorar seus resultados de forma mais precisa e individualizada.
O ponto comum entre todos esses temas é o paciente. A inteligência artificial pode reduzir atrasos e melhorar a precisão diagnóstica. As bombas injetoras conectadas podem aumentar a segurança, a padronização e a rastreabilidade dos procedimentos. A teranóstica pode selecionar melhor os pacientes para terapias-alvo e monitorar a resposta de forma mais personalizada.
Esse conjunto de discussões mudou minha percepção porque mostra que o futuro da especialidade será construído em quatro frentes simultâneas: inteligência artificial, eficiência operacional, integration diagnóstico-terapêutica e cuidado centrado no paciente.
A teranóstica representa uma das áreas mais promissoras da medicina personalizada: permite ao mesmo tempo visualizar a doença com precisão e tratá-la de forma direcionada — usando a mesma substância para diagnóstico e terapia.
Dr. Ismar Vilanova com gestores de radiologia no Radiology in Focus — Panamá, 2026
Dr. Ismar Vilanova: O fio condutor foi a transição da radiologia tradicional para uma radiologia orientada por dados, integração, valor clínico e cuidado centrado no paciente.
Na JPR, isso apareceu nos módulos de inteligência artificial: impacto na carreira, no diagnóstico, na remuneração e na formação do radiologista. No Panamá, esse mesmo movimento apareceu de forma operacional, com foco em meios de contraste, bombas injetoras inteligentes, conectividade entre sistemas, rastreabilidade dos procedimentos, controle de custos e sustentabilidade dos serviços.
Outro ponto comum foi a discussão sobre teranóstica. Esse tema mostra que a radiologia está caminhando para uma participação cada vez mais direta no tratamento, especialmente em oncologia. A imagem molecular — que enxerga o comportamento biológico dos tumores, não apenas sua forma e tamanho —, os biomarcadores, os radiofármacos e as terapias-alvo estão aproximando diagnóstico e tratamento em uma mesma linha de cuidado integrado. Para o oncologista, o cardiologista ou o cirurgião, isso significa que o radiologista passa a ser um parceiro ainda mais próximo na tomada de decisão terapêutica.
A conexão entre os dois eventos é clara: a radiologia está deixando de ser apenas imagem e laudo. Ela está se tornando um sistema integrado de informação diagnóstica e terapêutica. Cada etapa passa a importar: a indicação correta do exame, o protocolo utilizado, a forma de aquisição das imagens, o tipo e a dose do contraste, a interpretação pelo especialista, a comunicação do resultado ao médico assistente, a seleção dos pacientes para terapias, a experiência do paciente e o impacto final na conduta clínica.
Vejo um consenso em seis direções: mais padronização de processos, mais automação inteligente, mais segurança do paciente em cada etapa do exame, mais sustentabilidade operacional e financeira dos serviços, maior integração com terapias personalizadas e maior foco no valor real entregue ao paciente.
O radiologista continuará sendo essencial pelo julgamento clínico e pela responsabilidade médica, mas precisará dominar também dados, tecnologia, gestão da qualidade e novas formas de colaboração com oncologia, medicina nuclear e medicina personalizada.
A radiologia está deixando de ser apenas imagem e laudo. Ela está se tornando um sistema integrado de informação diagnóstica e terapêutica — em que cada etapa, da indicação do exame à comunicação do resultado, importa para a decisão clínica.
Dr. Ismar Vilanova: O maior divisor de águas foi perceber que a transformação da radiologia não depende apenas de adquirir equipamentos sofisticados ou algoritmos avançados de inteligência artificial. Ela começa pelo redesenho dos processos internos e pela compreensão de que a radiologia passou a ocupar uma posição central em toda a cadeia de cuidado do paciente.
Saí desses eventos com uma convicção muito clara: precisamos implementar uma radiologia mais mensurável, integrada e centrada no paciente. Isso inclui relatórios médicos (laudos) estruturados e padronizados, comunicação ágil de achados críticos ao médico assistente, monitoramento rigoroso da dose de radiação, controle preciso do uso do meio de contraste, rastreabilidade de todos os insumos utilizados, indicadores de qualidade objetivos, integração entre equipamentos e sistemas de informação hospitalar, e preparo institucional para novas áreas, como a teranóstica.
No Panamá, a discussão sobre bombas injetoras inteligentes e conectadas foi um exemplo concreto de como dados operacionais podem melhorar custo, segurança e eficiência. Quando conseguimos medir com precisão o volume de contraste utilizado em cada exame, identificar desperdícios, padronizar protocolos entre todos os técnicos e acompanhar dados em tempo real, deixamos de atuar de forma reativa. Passamos a gerir qualidade, custo e segurança do paciente com base em informação objetiva e contínua.
Na JPR, os módulos de inteligência artificial mostraram que a tecnologia pode transformar o diagnóstico, a organização do fluxo de trabalho e a gestão de toda a informação clínica gerada. E, em ambos os eventos, a teranóstica reforçou que a radiologia está avançando para uma atuação cada vez mais próxima da terapêutica — especialmente na oncologia de precisão, onde a escolha do tratamento depende diretamente dos dados fornecidos pela imagem molecular.
A quebra de paradigma é esta: a radiologia moderna não deve ser avaliada apenas pela qualidade da imagem ou pela precisão do relatório médico, mas por toda a cadeia de valor do diagnóstico e do tratamento. Precisamos entregar exames corretos, seguros, rápidos, financeiramente sustentáveis, integrados à decisão clínica do médico assistente e alinhados às necessidades reais do paciente. Para médicos de todas as especialidades, isso representa um convite à colaboração mais próxima com a radiologia — porque quanto mais integrado for esse processo, melhor será o desfecho para o paciente. Essa é uma mudança que pode e deve começar imediatamente.
A radiologia moderna não deve ser avaliada apenas pela qualidade da imagem ou pela precisão do laudo, mas por toda a cadeia de valor do diagnóstico e do tratamento — uma responsabilidade compartilhada com todos os médicos que cuidam do paciente.







