Há gritos que não se calam. No último dia 13 de junho, em Limeira, no interior de São Paulo, uma jovem de apenas 21 anos foi lançada de cerca de 40 metros de altura para praticar rope jump — sem a corda que deveria sustentá-la. Quem estava na Trilha da Ponte do Esqueleto filmou a queda e, no vídeo, ouve-se o instante exato em que a euforia vira horror: o corpo despencando no vazio, os gritos de quem percebeu, tarde demais, que a segurança havia sido esquecida. As manobras de reanimação não tiveram resposta. A morte foi confirmada ali mesmo, por politraumatismo. Três pessoas foram presas em flagrante por homicídio com dolo eventual.
É uma cena que dói. E é justamente quando a dor parece dizer tudo que começa o trabalho silencioso, técnico e indispensável da perícia médica.
O corpo que fala depois do último grito

Para a família, a tragédia se encerra no impacto. Para a medicina legal, ela apenas começa. Cada lesão, cada fratura, cada padrão de trauma é uma frase que o corpo escreve sobre seus últimos segundos. A necropsia não existe para reabrir feridas: existe para que a verdade não seja sepultada junto com a vítima. É o perito quem traduz o politraumatismo em nexo causal, quem estabelece, com rigor científico, a relação entre a ausência da corda e a morte — a ponte invisível entre a negligência e o óbito.
Sem essa tradução, a justiça caminha às cegas. O dolo eventual — aquele em que o agente assume o risco de matar — não se prova apenas com indignação. Prova-se com laudo. Prova-se com a demonstração técnica de que aquela queda, daquela altura, sem aquele equipamento, era incompatível com a vida. A perícia é a fronteira entre a comoção e a responsabilização.
A prevenção que mora no laudo
Mas reduzir a perícia médica ao exame do que já morreu seria empobrecê-la. O verdadeiro alcance dela é anterior, é silencioso, é a cultura de segurança que ela deveria ajudar a impor. Quantos laudos de acidentes esportivos e de trabalho repetem, ano após ano, a mesma sentença: falha humana evitável? Quantas mortes são, na linguagem fria dos autos, “preveníveis”?
A perícia não devolve a vida — mas ela tem o poder de impedir a próxima morte. Cada laudo que aponta uma negligência é também um alerta dirigido a empresas, a fiscalizações, a legisladores. É documento que vira precedente, que vira norma, que vira proteção para o próximo que sonha em saltar.
O peso ético de quem examina

Examinar uma vítima de 21 anos exige mais do que técnica: exige consciência de que, por trás de cada protocolo, havia um futuro interrompido. O perito carrega essa dualidade — a frieza necessária do método e o calor inevitável da empatia. Ele não pode chorar sobre a mesa, mas escreve para que outros não chorem amanhã.
O salto de Limeira nos lembra que a segurança é, no fundo, um ato médico antes de ser um ato técnico. E que, quando todos falham, ainda resta alguém cuja missão é não deixar que o último grito daquela jovem se perca no esquecimento. Esse alguém tem nome: perícia médica. E sua corda, essa nunca pode faltar.

Autor: Dr. Anísio Pinheiro
Presidente seccional Ceará – Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica – gestão 2024/2027
CRM/CE 13.150 RQE: 7090 – Medicina Legal e Perícia Médica
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