O Avanço Silencioso da Doença Renal Crônica: Dra. Renata Lima Alerta para a Importância do Rastreio Precoce

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico


O crescimento silencioso da Doença Renal Crônica (DRC) representa um dos maiores desafios de saúde pública contemporâneos. Nesta entrevista exclusiva ao Portal Jornal do Médico®, realizada com o apoio institucional da SONERJ, a médica nefrologista Dra. Renata Lima detalha os fatores que impulsionam o avanço da patologia no Rio de Janeiro, alerta para as falhas no rastreio básico e apresenta as mais recentes inovações terapêuticas que combinam proteção renal e cardiovascular. Confira:

Jornal do Médico®: O que tem provocado o aumento da DRC, especialmente no Rio de Janeiro?

Dra. Renata Lima: O crescimento da Doença Renal Crônica reflete, em grande parte, o envelhecimento populacional somado ao aumento da prevalência de hipertensão arterial e diabetes mellitus, que juntas respondem pela maioria dos casos de DRC no Brasil. Também observamos um aumento de casos ligados à obesidade e à síndrome metabólica, fatores que aceleram a lesão renal quando não controlados precocemente. A síndrome metabólica está presente em 47,13% da população brasileira, e indivíduos com síndrome metabólica têm 95% mais chance de desenvolver DRC.

Embora dados específicos do Rio de Janeiro sejam limitados na literatura, o estado compartilha os mesmos determinantes nacionais: alta prevalência de diabetes e hipertensão, envelhecimento populacional, e desigualdades socioeconômicas marcantes. A prevalência de DRC no Brasil varia entre 1,35% e 27,20% dependendo da metodologia e população estudada, com estudos nacionais recentes reportando prevalências de 1,49% (Pesquisa Nacional de Saúde, 2019) a 8,9% (coorte ELSA-Brasil). No cenário fluminense, esse quadro se soma a desafios de acesso à atenção primária, atraso diagnóstico e, em algumas regiões, dificuldade de adesão ao tratamento contínuo.

“A síndrome metabólica está presente em 47,13% da população brasileira, e indivíduos com essa condição têm 95% mais chance de desenvolver a Doença Renal Crônica.”

Jornal do Médico®: O que falta para que o rastreio básico vire rotina entre generalistas e outras especialidades?

Dra. Renata Lima: Mundialmente, apenas 6% da população geral e 10% da população de alto risco estão cientes de seu status de DRC. Essa baixa conscientização se estende aos profissionais de saúde, que frequentemente não priorizam o rastreio sistemático mesmo em pacientes de alto risco. Falta, sobretudo, incorporar a triagem renal — creatinina sérica com cálculo de TFG estimada e exame de urina (EAS e relação albumina/creatinina) — como parte do check-up de rotina de pacientes de risco, especialmente hipertensos, diabéticos e maiores de 60 anos, independentemente da especialidade que os atende.

Isso exige capacitação continuada, protocolos institucionais claros e, muitas vezes, uma mudança cultural: a DRC ainda é vista como “assunto do nefrologista”, quando na verdade o diagnóstico precoce deveria começar na atenção primária.

“A DRC ainda é vista como ‘assunto do nefrologista’, quando na verdade o diagnóstico precoce deveria começar de forma sistemática na atenção primária.”

Jornal do Médico®: Quais critérios objetivos devem guiar o encaminhamento oportuno ao nefrologista?

Dra. Renata Lima: O encaminhamento oportuno é fundamental para prevenir progressão, preparar terapia renal substitutiva e melhorar desfechos. De forma prática, recomenda-se encaminhamento quando há: TFG estimada abaixo de 30 mL/min/1,73m² (mesmo sem sintomas); relação albumina/creatinina persistentemente acima de 300 mg/g; queda rápida e progressiva da função renal (perda de TFG maior que 5 mL/min/1,73m² ao ano); hipertensão de difícil controle associada a alteração de função renal; ou distúrbios metabólicos como anemia, hipercalemia ou alterações do metabolismo ósseo-mineral decorrentes da doença renal. Encaminhar dentro desses parâmetros, e não apenas quando o paciente já está sintomático, é o que diferencia um manejo oportuno de um encaminhamento tardio.
Dra. Renata Lima, vice-presidente do CREMERJ

Dra. Renata Lima, médica nefrologista e vice-presidente do CREMERJ (Foto: Divulgação)

Jornal do Médico®: O controle da hipertensão e do diabetes continua sendo o pilar central para frear a DRC. Diante das terapias mais recentes, quais têm sido as estratégias mais eficientes na prática clínica para alcançar as metas de pressão arterial e controle glicêmico sem sobrecarregar o rim do paciente?

Dra. Renata Lima: Hoje contamos com ferramentas terapêuticas que unem proteção cardiovascular e renal. As novidades no tratamento para prevenir a progressão da doença renal crônica (DRC) incluem a incorporação de novas classes de medicamentos e estratégias combinadas, além da otimização das abordagens tradicionais. O uso de inibidores do cotransportador de sódio-glicose tipo 2 (SGLT2) tornou-se central, com evidências robustas de redução do risco de progressão para insuficiência renal terminal e eventos cardiovasculares, independentemente da presença de diabetes. Os principais ensaios clínicos, como EMPA-KIDNEY e DAPA-CKD, demonstraram que SGLT2 reduz a progressão da DRC em cerca de um terço.

Outra inovação é o antagonista não esteroidal do receptor mineralocorticoide (nsMRA) finerenona, aprovado pela FDA nos EUA, que reduz o risco de eventos renais e cardiovasculares em pacientes com DRC, diabetes tipo 2 e albuminúria. Finerenona diminui a albuminúria (perda de albumina na urina) e o risco de hospitalização por insuficiência cardíaca, com menor risco de hipercalemia (aumento do potássio no sangue) em comparação aos antagonistas esteroidais. Os agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, também mostraram benefícios renais e cardiovasculares em pacientes com DRC e diabetes tipo 2, reduzindo a progressão da doença e eventos cardiovasculares, conforme evidenciado no FLOW trial e reconhecido em diretrizes recentes.

O bloqueio do sistema renina-angiotensina (RAS) com Inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou Bloqueadores dos receptores da angiotensina II (BRA) permanece fundamental, especialmente em pacientes com albuminúria, conforme recomendado pela KDIGO. Estratégias não farmacológicas, como restrição proteica, restrição de sódio para melhor controle da pressão arterial, cessação do tabagismo, perda de peso em pacientes com sobrepeso ou obesidade, atividade física regular, dieta com menor teor de proteína animal e maior consumo de vegetais podem ser benéficas e evitar o uso de agentes nefrotóxicos como anti-inflamatórios não esteroides e contraste iodado. De acordo com as comorbidades e os fatores de risco, o nefrologista saberá escolher as melhores estratégias farmacológicas e não farmacológicas para serem aplicadas de forma combinada e personalizada, objetivando prevenir a progressão da DRC.

“O uso de inibidores de SGLT2 tornou-se central, com evidências robustas que demonstram uma redução de cerca de um terço na progressão da DRC.”

Jornal do Médico®: Além de tentar frear a progressão para a hemodiálise, o foco do tratamento também é a qualidade de vida. Como o médico e o nefrologista podem trabalhar juntos no manejo conservador?

Dra. Renata Lima: O trabalho conjunto começa com comunicação clara sobre o estágio da doença e os objetivos do cuidado. O médico assistente segue acompanhando as comorbidades de base, enquanto o nefrologista ajusta a terapia específica renal, orienta sobre dieta (controle de sódio, proteína e potássio), previne complicações como anemia e distúrbios ósseos, e prepara o paciente, quando necessário, para terapia renal substitutiva de forma planejada, não emergencial.

Essa parceria evita internações por descompensação aguda e permite discutir com o paciente, com antecedência, as opções de tratamento — incluindo o manejo conservador para aqueles que optam por não dialisar — sempre priorizando qualidade de vida e autonomia na decisão.

“A parceria clínica precoce permite discutir, com antecedência, alternativas terapêuticas personalizadas, priorizando sempre a qualidade de vida e a autonomia do paciente.”

Jornal do Médico®: Esta entrevista conta com o apoio institucional da SONERJ. Como a senhora avalia o papel das sociedades médicas, sobretudo da entidade mencionada, no fortalecimento da educação continuada e na promoção de debates sobre o crescimento da Doença Renal Crônica entre os profissionais do Rio de Janeiro?

Dra. Renata Lima: Sociedades médicas como a SONERJ cumprem um papel insubstituível na atualização técnica dos profissionais e na criação de pontes entre a nefrologia e as demais especialidades que lidam com pacientes de risco renal. Promover debates, cursos e diretrizes locais ajuda a traduzir evidências científicas em prática clínica aplicável à realidade do Rio de Janeiro, além de dar visibilidade institucional a um problema de saúde pública que ainda é subdiagnosticado. O fortalecimento dessas iniciativas é, a meu ver, um dos caminhos mais efetivos para reverter a curva de crescimento da doença renal crônica no estado.

Sobre a entrevistada:

Dra. Renata Lima é médica nefrologista com sólida trajetória acadêmica e profissional. Realizou sua residência médica em Nefrologia pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (HUCFF/UFRJ), instituição onde atualmente exerce a função de Coordenadora da Residência em Nefrologia.

Oficial militar, ocupa a patente de Tenente Coronel Médica da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Na esfera corporativa e ética da medicina fluminense, atua como Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ) e Diretora do Departamento de Fiscalização da autarquia. É também membro ativa da Sociedade de Nefrologia do Estado do Rio de Janeiro (SONERJ).

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