Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE
Instagram: @jornaldomedico
Diante da revolução tecnológica que redefine o centro cirúrgico e da recente regulamentação pelo CFM, a anestesiologia brasileira vive um ponto de inflexão decisivo. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Médico®, o presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), Dr. Vicente Faraon, aborda o papel da inteligência artificial como aliada na predição clínica e no PBM, os limites éticos e jurídicos da autonomia médica, o valor de métodos diagnósticos dinâmicos como o TEG/ROTEM e a urgência de congressos inovadores como o Anest In Rio na formação das novas gerações.
Jornal do Médico®: Com a evolução acelerada da inteligência artificial, o anestesiologista deve temer a substituição ou encarar a tecnologia como um novo padrão de assistência? Como o senhor enxerga essa virada de chave no centro cirúrgico?
Dr. Vicente Faraon: Eu não acho que o anestesiologista deva ter medo da inteligência artificial. Ele deve ter sim medo de ser aquele que decidiu ignorar a IA. Não vejo um cenário em que a IA simplesmente substitua o anestesiologista. Nossa especialidade envolve tomada de decisão em tempo real, interpretação de contexto, manejo de situações críticas, procedimentos, comunicação, uma boa dose de caos, e, é claro, a responsabilidade sobre a vida de um ser humano. Isso por si só é muito diferente de reconhecer padrões em uma base de dados. Agora, também seria ingenuidade imaginar que vamos continuar trabalhando exatamente como trabalhamos hoje. A IA vai entrar, e já está entrando, na monitorização, na predição de eventos adversos, na análise de grandes volumes de dados, na automação de tarefas e no apoio à decisão clínica. E aí está a verdadeira virada de chave: talvez a pergunta não seja se a inteligência artificial vai substituir o anestesiologista. Provavelmente não vai. Mas um anestesiologista que souber trabalhar com inteligência artificial vai sim trabalhar melhor do que aquele que escolher ignorá-la. Por isso, eu prefiro enxergar a IA não como concorrente, mas como uma espécie de novo integrante da sala cirúrgica. Um integrante muito rápido, que não cansa e processa uma quantidade grande de informação, mas que ainda precisa de alguém que entenda o paciente, questione o algoritmo e assuma a decisão. No fim, podemos ter muita inteligência artificial dentro do centro cirúrgico. Mas a responsabilidade, a ética e o cuidado precisam continuar sendo humanos.
“Podemos ter muita inteligência artificial dentro do centro cirúrgico. Mas a responsabilidade, a ética e o cuidado precisam continuar sendo humanos.”
Jornal do Médico®: Um dos tópicos de destaque do Anest In Rio aborda a sinergia entre Inteligência Artificial e o PBM. De que forma a integração de modelos preditivos pode otimizar a gestão do sangue do paciente no perioperatório, minimizando transfusões e elevando os desfechos cirúrgicos?
Dr. Vicente Faraon: O PBM é um exemplo muito bom de onde a IA pode deixar de ser uma promessa futurista e começar a resolver problemas reais do perioperatório. Quando falamos em Patient Blood Management, estamos falando essencialmente de antecipação: identificar anemia, reduzir sangramento, otimizar a tolerância do paciente à perda sanguínea e transfundir somente quando realmente há necessidade. Hoje já temos estudos avaliando algoritmos capazes de identificar ou estimar anemia a partir de sinais e exames que sempre fizemos. É possível, por exemplo, utilizar IA para analisar características do eletrocardiograma e estimar a probabilidade de anemia. Outros modelos utilizam imagens da conjuntiva ocular para estimar níveis de hemoglobina de maneira não invasiva. No intraoperatório, algoritmos podem analisar continuamente curvas e variáveis fisiológicas, identificar padrões imperceptíveis ao olhar humano e estimar risco de o paciente evoluir para protocolo de transfusão maciça. Da mesma forma, modelos preditivos já conseguem identificar pacientes sob risco de hipotensão antes de ela ocorrer. Isso muda um pouco a lógica da nossa atuação. Historicamente, a anestesiologia ficou muito boa em reconhecer rapidamente um problema e tratá-lo. A IA nos oferece a possibilidade de dar um passo além: reconhecer que o problema provavelmente vai acontecer e agir antes. No PBM, isso significa identificar melhor quem chega anêmico à cirurgia, antecipar quais pacientes têm maior risco de sangramento, otimizar a hemodinâmica, direcionar exames e recursos e tornar a decisão transfusional cada vez mais individualizada. Mas existe um cuidado importante: algoritmo não transfunde paciente, não controla hemorragia e não assume responsabilidade por uma decisão clínica. Ele organiza informações e pode nos mostrar alguns metros da estrada antes de chegarmos. Quem continua dirigindo é o médico.
Jornal do Médico®: Com a incorporação de sistemas de suporte à decisão clínica e automação de infusões, surgem debates éticos e jurídicos complexos. Se um algoritmo sugere uma conduta adversa ou falha, como fica a responsabilização médica? Quais balizas a SBA defende para proteger a autonomia e a segurança jurídica do anestesiologista?
Dr. Vicente Faraon: Essa talvez seja uma das discussões mais interessantes sobre IA: quando ela erra, quem é responsabilizado? O Brasil deu recentemente um passo importante nesse debate. A nova Resolução CFM nº 2.454/2026, que regulamenta o uso da inteligência artificial na medicina e entrou em vigor agora em agosto, estabelece uma premissa fundamental: a IA é uma ferramenta de apoio. A decisão médica continua sendo humana. Continua sendo do médico. Isso significa que o anestesiologista não pode simplesmente terceirizar seu julgamento para um algoritmo. Se um sistema sugere uma determinada conduta, cabe ao médico analisar criticamente aquela recomendação, confrontá-la com o contexto clínico e decidir se deve ou não segui-la. Inclusive, a resolução assegura ao médico o direito de rejeitar uma recomendação da IA e de se recusar a utilizar tecnologias sem validação científica ou certificação regulatória adequada. Mas existe o outro lado, igualmente importante. Não podemos criar um modelo no qual hospitais e empresas incorporam sistemas cada vez mais autônomos à assistência e, quando a tecnologia falha, toda a responsabilidade simplesmente cai no colo do médico. A própria resolução do CFM avança nesse sentido ao prever que o profissional não deve ser responsabilizado indevidamente por uma falha atribuível exclusivamente ao sistema, desde que tenha utilizado aquela tecnologia de maneira diligente, crítica e ética. Essa é uma baliza que a SBA considera essencial: quanto maior a autonomia que damos à tecnologia, mais claras precisam ser as responsabilidades do médico, da instituição e de quem desenvolve e fornece aquela tecnologia. Precisamos de sistemas validados, transparentes, auditáveis, com governança e supervisão humana. A tecnologia pode ficar cada vez mais autônoma. A medicina, não. No final, precisamos preservar duas coisas inegociáveis: a segurança do paciente e a autonomia do médico.
“A tecnologia pode ficar cada vez mais autônoma. A medicina, não. No final, precisamos preservar duas coisas inegociáveis: a segurança do paciente e a autonomia do médico.”
Jornal do Médico®: O evento traz formatos dinâmicos e imersivos, como a simulação e gamificação de ‘Cena 2 – TEG no Trauma’. Qual a importância da tromboelastometria / tromboelastografia à beira-leito no manejo de politraumatizados e como dinâmicas práticas aceleram a curva de aprendizado da especialidade?
Dr. Vicente Faraon: No trauma, existem dois fatores muito importantes quando se fala em coagulopatia e sangramento: um deles é o tempo. Precisamos de respostas rápidas. E o outro é a complexidade da coagulopatia que se desenvolve no contexto do trauma. Os exames de coagulação convencionais (TP, TTPa, dosagem de fibrinogênio, outros) falham em resolver esses dois problemas. E é nesse cenário que a tromboelastografia e a tromboelastometria ganham importância.
TEG e ROTEM permitem avaliar à beira-leito e de maneira dinâmica vários componentes da hemostasia, como alterações na iniciação, formação e na estabilidade do coágulo, plaquetopenia, deficiência de fibrinogênio e hiperfibrinólise. Isso nos permite sair daquela lógica de transfundir às cegas e quase sempre em quantidade maior que devemos e avançar para uma terapia muito mais direcionada. O paciente precisa de fibrinogênio? Plaquetas? Plasma? Existe hiperfibrinólise? Precisamos realmente transfundir? Quanto mais rapidamente conseguimos responder a essas perguntas, mais racional e individualizado pode ser o tratamento.
Jornal do Médico®: Mas ter o equipamento disponível no centro cirúrgico basta ou a interpretação do traçado exige um raciocínio que vai além da tela?
Dr. Vicente Faraon: TEG e ROTEM não são perfeitos. O resultado precisa sempre ser interpretado dentro do contexto clínico. O paciente está com sangramento ativo? Qual foi o mecanismo do trauma? Como estão temperatura, pH, cálcio, hemoglobina e perfusão? Quanto ele já recebeu de volume e hemocomponentes? E como está respondendo ao tratamento? Nenhum traçado responde sozinho a todas essas perguntas.
Além disso, são ferramentas que exigem treinamento. Não adianta colocar um equipamento sofisticado no centro cirúrgico ou na sala de trauma se, na hora da hemorragia maciça, a equipe não souber tomar uma decisão.
Jornal do Médico®: É aí que metodologias ativas, como a gamificação da mesa “Anestesia a Quatro Mãos”, se provam superiores às aulas convencionais de slides?
Dr. Vicente Faraon: Exatamente. A anestesiologia é uma especialidade prática, dinâmica e baseada em tomada de decisão. Em uma hemorragia real, ninguém vai parar para abrir um livro e descobrir o que fazer com aquele traçado.
Quando colocamos o anestesiologista diante de um caso simulado, entregamos um resultado de TEG ou ROTEM, fazemos o paciente evoluir e exigimos uma decisão, transformamos conhecimento em raciocínio. Ele pode interpretar, decidir, eventualmente errar e discutir o erro. É esse o espírito da “Anestesia a Quatro Mãos”. Queremos menos aquelas aulas as quais alguém passa uma hora mostrando slides e todo mundo vai embora achando que aprendeu. Queremos colocar o anestesiologista dentro do problema.
Jornal do Médico®: Presidindo a SBA e participando ativamente dos debates mais disruptivos da especialidade, qual mensagem o senhor deixa aos anestesiologistas e residentes sobre a relevância científica do Anest In Rio e o compromisso da SBA em preparar a anestesiologia brasileira para os próximos anos?
Dr. Vicente Faraon: Eu estava na reunião do Conselho Superior, no CBA de 2024, em Belo Horizonte, quando os colegas da SAERJ pediram um momento para apresentar um novo evento. O slide mostrava um congresso chamado Anest In Rio, com uma frase que me chamou imediatamente a atenção: “Rio além da praia, anestesia além do óbvio”. Tudo com uma estética inspirada nos calçadões de Ipanema. Naquele momento, eu pensei: isso aqui vai ser diferente.
E não deu outra. O Anest In Rio de 2025 foi um sucesso e entrou rachando no cenário nacional justamente por propor um formato diferente. Em 2026, já chega trazendo formatos ainda mais inovadores de discussão, misturando ciência, tecnologia, casos clínicos, simulação, gamificação e interação.
Jornal do Médico®: Essa conexão direta conversa especialmente com as novas gerações de médicos?
Dr. Vicente Faraon: Sim, talvez o mais interessante seja a capacidade de conversar com públicos diferentes, mas especialmente de chamar a atenção do anestesiologista mais jovem. É uma geração que não se contenta mais em ficar horas sentada assistindo passivamente a uma sequência de slides. Ela exige conteúdo científico de qualidade, mas quer participar, discutir, experimentar e entender como aquilo muda sua prática na segunda-feira de manhã.
Isso não significa abandonar a aula tradicional ou transformar congresso em entretenimento. Significa entender que a forma como aprendemos também mudou. Podemos manter o rigor científico e, ao mesmo tempo, tornar a educação mais dinâmica, provocativa e prática. Por isso, vejo o Anest In Rio se consolidando como um evento central e fundamental no calendário da anestesiologia brasileira. E acho muito positivo que eventos como esse tenham coragem de experimentar. Alguém precisa testar formatos novos, provocar discussões novas. É assim que uma especialidade evolui.
Jornal do Médico®: E como essa postura de vanguarda dialoga com os passos futuros que a própria SBA projeta para a anestesiologia?
Dr. Vicente Faraon: Esse espírito conversa diretamente com o momento que vivemos na SBA. Estamos discutindo inteligência artificial, novas tecnologias, novas formas de monitorização, mudanças na formação do anestesiologista, novas metodologias educacionais e até como serão as competências necessárias para exercer nossa especialidade nos próximos anos. O compromisso da SBA é exatamente esse: não preparar o anestesiologista para a anestesia de ontem, mas para a anestesiologia que ele vai encontrar amanhã.
Para os residentes e para os colegas mais jovens, eu deixaria especialmente uma mensagem: participem. Não sejam apenas espectadores da transformação da nossa especialidade. Questionem, tragam ideias, ocupem os congressos, as sociedades estaduais e a própria SBA. Porque a anestesiologia dos próximos 20 anos não será construída apenas por quem hoje ocupa posições de liderança. Ela será construída, principalmente, por quem terá que sustentá-la lá na frente. O Anest In Rio representa muito bem isso: ciência séria não precisa ser ciência parada. Podemos discutir assuntos extremamente complexos, aprender muito e, por que não, fazer isso de uma maneira nova, instigante e até divertida.
“O compromisso da SBA é exatamente esse: não preparar o anestesiologista para a anestesia de ontem, mas para a anestesiologia que ele vai encontrar amanhã.”
Sobre o entrevistado:
Dr. Vicente Faraon Fonseca, CRM 35816/RS – Anestesiologia RQE Nº: 28427 é o atual Presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia – SBA (gestão 2026), tendo exercido o cargo de Diretor Vice-Presidente em 2025 e Diretor Financeiro no período de 2020 a 2024.
É Membro do Conselho da World Federation of Societies of Anaesthesiologists (WFSA) e representante regional para a América Central, América do Sul, México e Ilhas do Caribe.