Artigo publicado na Nature em 09/09/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que desencadear uma resposta imune no ponto de entrada dos micróbios no organismo, não apenas evitaria que a pessoa adoecesse, mas também impediria que ela transmitisse a infecção a outras pessoas.
As vacinas, criadas no auge da pandemia de COVID-19, evitaram milhões de mortes, especialmente entre os idosos. No entanto, não foram suficientes para impedir a propagação do vírus. Em muitos casos, o SARS-CoV-2 invadia as células do nariz e da garganta, tornando a pessoa capaz de transmitir o vírus a outras pessoas, mesmo sem apresentar sintomas evidentes.
“Você exala milhões de partículas virais, mas seu sistema imunológico, não percebe que você está infectado”, diz Shane Crotty, imunologista do Instituto de Imunologia de La Jolla, na Califórnia. As vacinas, administradas por via intramuscular, estimulam a produção de um exército de anticorpos no sangue, que protegem os órgãos vitais e previnem doenças graves. Contudo, muitas vezes elas não impedem a infecção nos pontos de entrada dos vírus respiratórios no organismo.
Por outro lado, a administração de uma vacina diretamente no nariz, poderia reforçar a proteção nas barreiras de mucosa úmida, que revestem o trato respiratório, permitindo que o organismo combata rapidamente os patógenos. “Acreditamos que a vacinação via mucosa seria mais eficaz na prevenção da infecção e da transmissão”, afirma Ryan Thwaites, imunologista do Imperial College London.
Até o momento, apenas uma vacina de mucosa intranasal, foi aprovada nos Estados Unidos e na Europa: uma vacina contra a gripe de vírus vivos atenuados, comercializada como FluMist ou Fluenz. Ela vem sendo administrada via spray nasal em crianças, desde o início dos anos 2000, em parte para reduzir a transmissão da gripe para adultos vulneráveis. Nos últimos anos, algumas vacinas respiratórias contra a COVID-19 foram aprovadas na China e na Índia, embora sua eficácia seja incerta.
Várias outras vacinas em spray nasal estão em desenvolvimento, visando doenças como pneumonia e coqueluche. O potencial é enorme, “a grande maioria dos patógenos perigosos, que causam doenças e mortes em humanos, é encontrada inicialmente nas superfícies das mucosas”, diz Ed Lavelle, imunologista do Trinity College Dublin. No entanto, como demonstra um longo histórico de fracassos, desenvolver uma vacina de mucosa, é uma tarefa desafiadora. “É algo frustrante há décadas”, afirma Daniela Ferreira, vacinologista da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Memórias do nariz
O fato de existir uma vacina convencional para uma doença, não significa que uma versão nasal surgirá rapidamente. Em 2023, as primeiras vacinas contra o vírus sincicial respiratório (VSR), administradas por injeção intramuscular, foram aprovadas nos Estados Unidos. No ano seguinte, a empresa farmacêutica Sanofi, sediada em Paris, iniciou um estudo de fase III, com uma vacina intranasal contra o VSR, em cerca de 6.300 crianças pequenas. No entanto, em outubro de 2025, o estudo foi interrompido precocemente, devido a resultados insatisfatórios na prevenção da infecção, que pode causar doenças pulmonares graves em crianças pequenas.
O objetivo de uma vacina respiratória de mucosa, é gerar um reservatório de células imunes, específicas para um patógeno, nas vias aéreas da pessoa. As vacinas convencionais, promovem a criação de células B, que produzem anticorpos; células T auxiliares, que coordenam a resposta imune; e células T citotóxicas (ou “killer”), que destroem células infectadas. Contudo, os níveis dessas células, geralmente só podem ser medidos no sangue, e não nas vias aéreas.
“Com a imunização intramuscular, as células T e B circulam por todo o corpo, mas poucas chegam aos tecidos das mucosas”, afirma Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade Yale, Connecticut. Ao coletar amostras dos pulmões de pessoas que haviam recebido uma vacina contra a COVID-19, Ferreira e seus colegas, encontraram um reservatório de células T direcionadas à proteína spike do SARS-CoV-2, apenas naqueles que também haviam sido infectados anteriormente pelo vírus. Da mesma forma, em abril, Crotty e sua equipe, detectaram células B de memória nas vias aéreas superiores de pessoas, que receberam o spray nasal da vacina contra a gripe de vírus vivos atenuados, mas não naquelas vacinadas por injeção intramuscular.
Agente provocador
Desencadear uma resposta imune nas vias aéreas, é uma tarefa difícil. Os seres humanos respiram cerca de 20.000 vezes por dia, inalando poeira, pólen, esporos de fungos, partículas de plástico, vírus e bactérias. O sistema imunológico, ignora muitas dessas substâncias estranhas; portanto, para provocar uma reação, uma vacina de mucosa respiratória, precisa dar um empurrão mais forte.
Muitas vezes, é mais fácil provocar uma resposta imune em camundongos, nos quais um pequeno jato de spray, consegue alcançar facilmente o tecido linfoide associado à mucosa nasal, que é compacto nesses animais. Já nos humanos, não existe uma área específica e delimitada como alvo. Em vez disso, possuímos aglomerados complexos na parte posterior do nariz e da garganta, bem como amígdalas, estruturas que os camundongos não possuem. “Em animais de pequeno porte, muitas vezes basta administrar antígenos proteicos nas vias aéreas, para que eles desenvolvam respostas imunes, capazes de gerar uma boa vacina”, diz Thwaites. “Se fizermos isso em humanos, o sistema imunológico acaba ignorando a proteína em grande parte”, afirma ele. “Ela é simplesmente eliminada.”
Isso tem dificultado, a transposição do sucesso obtido com candidatos promissores em camundongos, para resultados eficazes em humanos. “Muitos deles apresentam ótimos resultados em estudos pré-clínicos, especialmente em camundongos. No entanto, esse desempenho nem sempre se mantém, quando passamos para animais maiores e para humanos”, diz Michael Diamond, imunologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, Missouri.
Uma solução possível é incluir um adjuvante na vacina, um agente estranho que o sistema imunológico considere suspeito o suficiente, para desencadear uma resposta vigorosa. Combinado com um fragmento do vírus ou da bactéria, o adjuvante deve levar as células sentinelas, situadas abaixo da barreira mucosa, a reconhecer o patógeno. Contudo, embora os adjuvantes sejam comuns em vacinas convencionais, nenhum deles foi aprovado até o momento, para uso em vacinas de mucosa respiratória. “Sabemos que não podemos simplesmente pegar o que injetávamos no passado e aplicar pelo nariz”, diz Lavelle.
Uma das razões para isso é a segurança. Se um adjuvante provocasse uma inflamação grave no trato respiratório, a respiração poderia ficar comprometida. A inflamação na cavidade nasal, também poderia afetar os nervos olfatórios ou faciais. Entre outubro de 2000 e abril de 2001, uma vacina intranasal à base de vírus da gripe inativado, aprovada para uso na Suíça, foi alvo de relatos de paralisia facial temporária, associada ao uso de uma toxina bacteriana como adjuvante. Essa vacina não está mais disponível.
Joon Haeng Rhee, vacinologista da Universidade Nacional de Chonnam, Coreia do Sul, está tentando desenvolver vacinas intranasais seguras com adjuvantes. Seu alvo é o Streptococcus pneumoniae, uma das principais causas de pneumonia bacteriana, especialmente em crianças. As vacinas injetáveis existentes contra o pneumococo, têm capacidade limitada de impedir que a bactéria colonize o nariz e as vias aéreas superiores, diz Joon, algo que uma vacina intranasal poderia melhorar.
Rhee e seus colegas, desenvolveram uma vacina nasal, composta por uma nanocápsula esférica, feita de uma proteína de ferritina biodegradável. Cada nanocápsula é revestida com duas dúzias de fragmentos de proteínas de superfície do S. pneumoniae, bem como com uma proteína derivada dos flagelos (estruturas propulsoras semelhantes a chicotes) de bactérias do gênero Vibrio, que atua como adjuvante. Em testes com camundongos, segundo Rhee, houve um aumento acentuado nos níveis de anticorpos da classe imunoglobulina A no nariz, após a administração da vacina de nanocápsulas.

Vacinas vivas
Essas vacinas candidatas, utilizam proteínas de superfície do patógeno, para treinar o sistema imunológico; no entanto, outros pesquisadores estão se inspirando na vacina intranasal contra a gripe já existente, para criar novas versões baseadas em vírus e bactérias vivos atenuados.
Uma vantagem das vacinas baseadas em microrganismos vivos, é que eles se assemelham o suficiente a uma ameaça real, para desencadear uma resposta de defesa do sistema imunológico, sem a necessidade de um adjuvante. “Você está imitando a natureza. Apenas faz isso com um patógeno seguro”, afirma Ferreira.
Como o sistema imunológico responde naturalmente a vírus, pesquisadores desenvolveram vacinas, que os utilizam para introduzir nas células, instruções genéticas para a produção de partes de um agente causador de doenças. Esse é o princípio de várias vacinas comuns contra a COVID-19 e, nos últimos anos, empresas da China e da Índia, desenvolveram versões nasais, que adotam a mesma abordagem básica.
Relatou-se que a vacina chinesa Ad5-nCoV é segura, e desencadeia uma forte resposta imune quando utilizada como dose de reforço, mas sua eficácia em interromper a transmissão, era menos clara. Um grande estudo sobre a vacina nasal indiana BBV154 constatou, que ela gerou uma resposta imune melhor do que uma vacina injetável, mas sua capacidade de prevenir doenças graves ou interromper a transmissão, também é incerta. “Não houve estudo de eficácia”, diz Diamond, que ajudou a desenvolver a BBV154.
Em dezembro de 2025, Ferreira e seus colegas, publicaram os resultados de um ensaio de fase IIb, no qual voluntários adultos receberam a bactéria Bordetella pertussis viva e atenuada e, posteriormente, foram expostos à bactéria em sua forma virulenta, dois a quatro meses depois. Essas bactérias são responsáveis pela coqueluche, uma doença altamente contagiosa, que pode ser grave para recém-nascidos. O estudo mostrou, que uma dose única dessa vacina intranasal contra a coqueluche, reduziu a infecção nasal; um estudo maior é necessário para confirmar seu impacto na transmissão.
Um dos principais desafios enfrentados pelas vacinas de mucosa, é demonstrar uma resposta imune protetora. Após a administração de uma vacina injetável convencional, um exame de sangue deve revelar um aumento mensurável nos níveis de anticorpos circulantes. No entanto, com vacinas nasais como a vacina contra a gripe de vírus vivos atenuados, não ocorre um aumento de anticorpos no sangue, que comprove sua eficácia. “Não existe um correlato de proteção reconhecido”, diz Thwaites, o que torna muito mais difícil saber se uma vacina como essa está no caminho certo, antes da realização de ensaios em estágios avançados. “Os fabricantes tiveram que realizar um estudo grande e dispendioso, para demonstrar que a vacina funcionava”, afirma Thwaites.
A aposta valeu a pena para a vacina contra a gripe de vírus vivos atenuados, mas isso nem sempre acontece. Crotty acredita que os pesquisadores precisarão explicar melhor, como funciona a imunidade nas vias aéreas superiores, para conquistar a indústria. “É muito difícil, convencer empresas ou agências de fomento, a fazer grandes apostas em ensaios de vacinas, sem saber que tipo de resposta imune está ocorrendo”, diz ele.
Apesar dessas dificuldades, o potencial das vacinas nasais, de proteger o indivíduo e interromper a transmissão, é grande o suficiente para atrair interesse comercial. “Posicione seu exército na muralha externa; assim, você consegue impedir a entrada dos patógenos, e nem sequer chega a se sentir mal”, diz Levelle. Some-se a isso, a possibilidade de prevenir uma pandemia, e as vacinas nasais parecem ser uma perspectiva promissora no horizonte da prevenção de doenças.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02656-5

Imagem: magnific (freepik)







