Artigo publicado na Nature em 21/09/2026, onde pesquisadores britânicos afirmam que o uso desses dispositivos, aumenta a probabilidade de jovens desenvolverem transtornos de saúde mental. E alertam, que os governos precisam agir urgentemente.
Os cigarros eletrônicos, ou vapes, foram introduzidos nos anos 2000, como uma ferramenta para ajudar as pessoas a abandonarem o tabagismo, um hábito perigoso, que mata metade dos usuários de longa data. Amparados por mensagens amplamente difundidas de saúde pública, de que o uso de vapes é 95% mais seguro do que fumar cigarros convencionais, fabricantes e alguns médicos, têm exaltado as virtudes desses sistemas eletrônicos de administração de nicotina, para fumantes já estabelecidos e dependentes da substância.
No entanto, a segurança dos cigarros eletrônicos não está bem estabelecida, até mesmo as evidências que embasaram a afirmação dos “95%”, são difíceis de precisar. Problemas de saúde, associados aos cigarros eletrônicos, começaram a surgir há uma década. À medida que o uso de vapes se disseminou, especialmente entre os mais jovens, as evidências tornaram-se irrefutáveis. Alguns dos efeitos adversos são extremamente preocupantes.
Em particular, ficou claro que esses produtos, representam uma porta de entrada atraente para a dependência de nicotina entre não fumantes de cigarros convencionais, incluindo crianças.
Uma revisão sistemática publicada em agosto, identificou uma série de consequências para a saúde de crianças e jovens que utilizam os vapes. A extensão dos prováveis efeitos nocivos é maior do que o previsto, e torna-se cada vez mais evidente nas crianças, que são atendidas na prática hospitalar.
Aqui, descrevemos os riscos e conclamamos os governos a agir, criando a legislação necessária, e garantindo que essas leis sejam efetivamente aplicadas.
Ferramentas médicas
Por sua concepção, os cigarros eletrônicos são altamente eficientes na entrega de nicotina, em níveis comparáveis ou superiores aos dos cigarros de tabaco convencionais. Essa eficiência, provavelmente explica sua eficácia, como auxílio para alguns fumantes que desejam parar de fumar. Uma meta-análise demonstrou, que eles são mais eficazes do que outras terapias de reposição de nicotina, para a cessação do tabagismo. Mas não são isentos de riscos.
A nicotina é uma substância altamente viciante que, como demonstram décadas de estudos com fumantes, prejudica o desenvolvimento cerebral fetal e adolescente. Mesmo o uso intermitente e em baixas doses, pode levar rapidamente a sintomas de dependência de nicotina. Esses efeitos são particularmente acentuados na adolescência, com alguns usuários jovens relatando sintomas de dependência, incluindo fissura e abstinência, decorrentes de exposição ocasional.
Demonstrou-se que os cigarros eletrônicos contêm substâncias nocivas, incluindo metais pesados, como o chumbo; carbonilas tóxicas; nanopartículas; e substâncias não regulamentadas, como canabinoides sintéticos. As preocupações com a saúde a longo prazo, ainda não se manifestaram, mas sabe-se que essas substâncias são, por si sós, pró-inflamatórias, imunossupressoras, cancerígenas e altamente viciantes.
O aumento contínuo do uso de vapes desde a sua criação, coincidiu com a redescoberta dos sais de nicotina. Na década de 1970, os fabricantes refinaram suas técnicas de processamento, para remover prótons e ácidos orgânicos, dos sais de nicotina de ocorrência natural. A nicotina resultante, não ligada (na forma de base livre), não possui carga elétrica e tem afinidade por gorduras. Essas propriedades químicas, resultam em absorção e transporte para o cérebro mais rápidos, além de uma experiência sensorial mais intensa ou um “impacto” de nicotina mais forte. Cigarros contendo nicotina de base livre, rapidamente dominaram o mercado.
Em 2017, os fabricantes de vapes descobriram, que a nicotina à base de sais, apresentava um sabor mais suave e adocicado. Eles adicionaram esses sais aos vapes, para melhorar a experiência sensorial. O efeito é particularmente acentuado em indivíduos que nunca fumaram, e não estão acostumados a inalar nicotina de base livre.
Estudos demonstraram, que alguns produtos com sais de nicotina, podem gerar picos mais altos e rápidos nos níveis de nicotina no sangue. Os fabricantes de vapes também aproveitaram rapidamente a oportunidade, para tornar esses produtos atraentes para usuários mais jovens, utilizando sabores doces e frutados e embalagens coloridas.
Riscos do uso de vapes para a saúde de crianças e jovens
Estudos iniciais sobre os possíveis riscos do uso de vapes para todas as faixas etárias, concentraram-se nos efeitos agudos, como reduções imediatas na função pulmonar ou o surgimento de sintomas respiratórios. No entanto, é provável que isso seja apenas a ponta do iceberg, em relação aos danos globais. Em nossa revisão sistemática, identificamos uma gama preocupante de riscos possíveis, associados ao uso de vapes em idade precoce.
Como pneumologistas pediátricos, não ficamos particularmente surpresos ao constatar que o uso de vapes na infância, estava consistentemente associado a tosse, desconforto torácico, chiado no peito e tosse produtiva (com secreção). Os efeitos diretos da inalação de gases quentes e produtos químicos, também podem explicar o aumento observado de doenças bucais e dentárias, como inflamação gengival, úlceras e boca seca, bem como de sintomas oculares, como coceira, vermelhidão, ressecamento, visão turva e dor, nos estudos analisados. Também foi relatado um aumento de quadros alérgicos, como dermatite atópica e rinite alérgica.
Esperávamos que a nicotina, um potente estimulante do sistema nervoso central, tivesse efeitos além do sistema respiratório. No entanto, surpreendeu-nos a extensão em que o uso de cigarros eletrônicos (vapes) entre jovens, está associado a uma pior saúde mental. Depressão, transtorno do pânico, anedonia e ideação suicida, foram relatados com mais frequência, em indivíduos que utilizam esses dispositivos. É preocupante constatar que jovens usuários de cigarros eletrônicos, apresentaram uma probabilidade quase duas vezes maior, em comparação com não usuários, de ter pensamentos ou planos suicidas, ou de tentar o suicídio.
Também foi alarmante, observar a provável existência de efeitos nocivos, para bebês ainda não nascidos. Nossa revisão destacou taxas mais elevadas de parto prematuro, baixo peso ao nascer para a idade gestacional, reflexos anormais e imaturidade motora, em bebês de mães que utilizavam cigarros eletrônicos.
A descoberta mais alarmante para nós, foi entretanto, a forte evidência de que o uso de cigarros eletrônicos por crianças e jovens que nunca fumaram, prediz e aumenta a probabilidade de que venham a fumar cigarros convencionais posteriormente. Usuários de cigarros eletrônicos apresentaram, tipicamente, uma probabilidade de 2 a 12 vezes maior de começar a fumar mais tarde, em comparação com não usuários.
Esse retorno a uma prática letal é particularmente frustrante, considerando as escolhas mais saudáveis, que as crianças nascidas após a virada do milênio, começavam a fazer. O declínio acentuado no consumo de álcool, no uso de drogas, na gravidez na adolescência, na criminalidade e no tabagismo entre jovens de 16 a 24 anos no Reino Unido, levou a mídia a apelidá-los de “geração sensata” em 2018.
Embora o uso de cigarros eletrônicos ofereça um complemento útil aos programas de cessação do tabagismo para adultos, sua promoção simplista e sem embasamento científico, como uma alternativa segura aos cigarros convencionais, gerou consequências não intencionais para crianças e jovens não fumantes.
O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre crianças e jovens é um fenômeno global, que abrange continentes e culturas marcadamente diferentes. A evolução temporal desse hábito, varia de acordo com o país.
Em 2021, no Reino Unido, apenas cerca de um em cada oito jovens de 11 a 17 anos, relatou já ter fumado cigarros convencionais, o menor índice já registrado. Infelizmente, a tendência mudou, e os níveis tanto de uso de cigarros eletrônicos (vapes) quanto de cigarros convencionais, estão aumentando. Em 2025, mais de uma em cada cinco crianças nessa faixa etária, relatou já ter fumado um cigarro, o índice mais alto em mais de uma década. Uma proporção semelhante, relata agora já ter usado um cigarro eletrônico.
É necessária uma ação urgente, para evitar o retorno à dependência generalizada de nicotina, em níveis semelhantes aos observados entre meados e o final do século XX.

Melhor regulamentação e fiscalização
Esperamos que, a demonstração dos múltiplos riscos associados ao uso de cigarros eletrônicos (vapes), chame a atenção de pais, pediatras e formuladores de políticas públicas, incentivando-os a ajustar suas orientações e recomendações.
A adição de sabores doces e o uso de embalagens vivas e coloridas, são particularmente atraentes para os jovens. Isso parece desnecessário, para um produto que deveria servir apenas como auxílio para parar de fumar tabaco.
As mensagens sobre os benefícios e riscos à saúde, devem ser apresentadas de forma clara em todo o material de marketing. O uso de cigarros eletrônicos não é saudável; sabe-se que prejudica a saúde, e as embalagens dos produtos devem deixar isso evidente.
Mais importante ainda, nossa revisão sistemática, deve servir de base para programas educacionais voltados a crianças. Evidências sólidas permitem melhores escolhas. Isso capacitará os jovens a tomarem decisões mais bem informadas sobre o uso desses dispositivos.
Alguns políticos e governos estão começando a prestar atenção ao problema e a implementar legislações mais rigorosas, o que é muito bem-vindo. China, Dinamarca, Finlândia e Países Baixos, aprovaram leis que proíbem cigarros eletrônicos com sabores. Em abril, o governo do Reino Unido aprovou a Lei do Tabaco e Cigarros Eletrônicos. Essa lei proíbe a venda de produtos de tabaco para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009, e estabelece controles mais rígidos sobre a publicidade e a promoção de tabaco e cigarros eletrônicos. A medida sucede a proibição, pelo Reino Unido, de cigarros eletrônicos de uso único, prevista para 2025.
Resta saber, com que eficácia essa legislação será aplicada, e se o público se tornará menos tolerante ao uso de cigarros eletrônicos. É um começo, mas apenas um passo inicial rumo ao que esperamos, que seja uma sociedade livre de nicotina.
Retomar a tendência de queda no consumo de nicotina levará tempo, e são necessárias pesquisas urgentes para desenvolver estratégias baseadas em evidências, que ajudem os jovens a abandonarem o uso de cigarros eletrônicos.
A mensagem deve ser clara e direta: o uso de cigarros eletrônicos não é uma escolha saudável para quem nunca fumou e, embora possa servir como estratégia para alguns fumantes deixarem o vício, para outros, funciona como uma porta de entrada para a dependência de nicotina.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02962-y








