Há momentos em que a nossa cabeça fala tanto que já não conseguimos ouvir o que acontece dentro de nós.
Pensamos no que aconteceu, no que poderia ter acontecido, no que alguém quis dizer, no que deveríamos ter feito. Antecipamos conversas, imaginamos possibilidades, procuramos respostas para sentimentos que, muitas vezes, não precisam de explicação. E, nessa tentativa de compreender tudo, podemos nos afastar justamente daquilo que mais nos pertence: a capacidade de sentir.
Pensar e sentir fazem parte da nossa humanidade. O pensamento nos ajuda a escolher caminhos, compreender experiências, tomar decisões e organizar a vida. O sentir nos aproxima de nós mesmos e dos outros. É através dele que reconhecemos o carinho de um abraço, a delicadeza de uma palavra, a beleza de uma paisagem e aquela emoção que chega antes mesmo de sabermos dizer seu nome.
O problema começa quando pensamos tanto que passamos a desconfiar até daquilo que sentimos.
Podemos gostar de alguém e começar a procurar razões para não gostar. Podemos receber um abraço e, em vez de simplesmente acolher aquele momento, perguntar o que ele significa. Podemos sentir saudade e imediatamente tentar justificar. Podemos estar felizes e, antes mesmo de aproveitar a felicidade, pensar em quando ela irá terminar.
A mente tenta proteger-nos. Muitas vezes, porém, na tentativa de evitar a dor, acaba também nos afastando do prazer, do afeto e da espontaneidade.
Quantas pessoas aprenderam a não sentir porque um dia sentir doeu demais?
Depois de uma decepção, fecham o coração. Depois de uma perda, tornam-se desconfiadas. Depois de serem feridas, passam a analisar cada gesto, cada palavra, cada aproximação. Não porque não tenham sentimentos, mas porque têm medo de voltar a sentir aquilo que um dia as machucou.
Só que existe uma delicada verdade: não podemos fechar apenas a porta da dor. Quando fechamos o sentir, fechamos também a porta da alegria, da ternura, do encantamento e do amor.
Sentir não é ser fraco. É estar vivo.
Uma pessoa sensível não é necessariamente uma pessoa frágil. Muitas vezes, é justamente alguém que teve coragem de permanecer aberta à vida, mesmo sabendo que a vida também pode ferir. Quem sente profundamente pode sofrer profundamente, mas também pode se emocionar com pequenas coisas que passam despercebidas para quem vive apenas dentro da própria cabeça.
Por isso, cuidar da saúde mental também é aprender a escutar o corpo. Às vezes, ele percebe antes da razão que alguma coisa não está bem. Um aperto no peito, um cansaço inexplicável, uma respiração diferente, uma vontade de chorar sem saber por quê. O corpo fala uma linguagem que nem sempre precisa de palavras.
Talvez precisemos parar um pouco e perguntar menos “o que devo pensar?” e mais “o que estou sentindo?”.
Nem todo sentimento precisa ser imediatamente explicado. Alguns precisam apenas ser acolhidos.
A vida não acontece somente nas respostas que encontramos. Ela também acontece naquele instante em que permitimos que um abraço nos alcance, que uma lágrima caia, que uma saudade seja sentida, que alguém nos toque o coração.
Pensar é necessário. Mas sentir também é.
Porque quando a mente tenta controlar tudo, podemos sobreviver à vida sem realmente vivê-la.
E talvez uma das formas mais bonitas de cuidar de nós mesmos seja esta: não permitir que o medo de sofrer nos faça esquecer a coragem de sentir.
No fim, somos feitos também daquilo que nos emociona. E talvez seja justamente essa capacidade de sentir que, apesar de todas as dores, ainda nos mantém profundamente humanos.

Rossana Köpf – Psicanalista
Imagem: Magnific







