Quando a Candidíase vira Alergia: O drama silencioso que afeta 5% das mulheres e exige novos caminhos na Imunologia

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Para 5% das mulheres, a candidíase deixa de ser um incômodo ginecológico passageiro e se transforma em um ciclo crônico de dor, desgaste emocional e tratamentos com antifúngicos que falham repetidamente. O que pouca gente sabe é que o problema pode não ser uma infecção ativa, mas sim uma resposta imune inadequada — uma verdadeira “alergia” ao próprio fungo. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Médico®, a idealizadora do AlertAlergo, alergista e imunologista Dra. Lorena Madeira (CRM/CE 6409 RQE 1769) esclarece como a imunoterapia pode atingir até 80% de melhora e devolver a qualidade de vida a essas pacientes.

Jornal do Médico: Como se desenvolve essa espécie de “alergia” à própria candidíase?

Dra. Lorena: Porque o corpo de algumas mulheres passa a reagir de forma exagerada a um fungo que, normalmente, já vive no organismo sem causar problemas. O fungo deixa de ser um agente infeccioso e passa a funcionar como alérgeno para aquela mucosa genital feminina, assim como o ácaro tem esse potencial para as rinites alérgicas. Na verdade, ocorre uma desregulação e essa mucosa fica “hiper-reativa”. A paciente sente que tudo irrita, principalmente as mulheres com perfil atópico.

“O fungo deixa de ser um agente infeccioso e passa a funcionar como alérgeno para aquela mucosa genital feminina, assim como o ácaro tem esse potencial para as rinites alérgicas.”

Jornal do Médico: Embora a candidíase seja tradicionalmente tratada no âmbito ginecológico, por que a avaliação do especialista em alergia e imunologia torna-se o “divisor de águas” para os 5% das mulheres que sofrem com crises recorrentes (ou candidíase de repetição)?

Dra. Lorena: A grande maioria das mulheres procura o(a) ginecologista com infecção fúngica uma vez por ano para fazer tratamento com pomadas ou óvulos, obtendo rápida resolução. Sendo que 5% dessas pacientes começam a perceber dificuldades para interromper os sintomas e, daí para frente, passam a buscar atendimentos frequentes, notando que, pouco tempo após concluir as medicações, os incômodos rapidamente voltam. É fundamental saber que o especialista em alergia e imunologia também atua e contribui com uma outra abordagem, investigando o quadro através de testes alérgicos e realizando o tratamento com vacinas padronizadas com a Candida albicans.

Jornal do Médico: Como o médico e a própria paciente podem identificar que o problema deixou de ser uma infecção fúngica simples e passou a ser uma resposta imune inadequada (hipersensibilidade do tipo tardia)? Quais sinais clínicos sugerem esse diagnóstico?

Dra. Lorena: Pacientes que têm quatro ou mais crises bem documentadas em um ano já se enquadram como portadoras de monilíase recorrente, e vale olhar para fatores predisponentes (diabetes, uso frequente de antibióticos, imunossupressão, contraceptivos, hábitos locais, microbiota). É preciso avaliar se essa paciente realizou corretamente os tratamentos orientados pelo ginecologista. Essas pacientes podem ser encaminhadas para o(a) alergista quando falharem os tratamentos com antifúngicos e após serem descartados ou tratados os outros fatores citados acima.

Diante dessa paciente, o raciocínio sugere uma desregulação da resposta inflamatória da mucosa vaginal compatível com inflamação crônica ou resposta inadequada/tardia ao antígeno da Candida, e não mais uma infecção aguda recorrente.

Pacientes com crises recorrentes podem não possuir uma carga alta de fungo; mesmo assim, permanecem muito sintomáticas. Apresentam principalmente coceira intensa na vulva e na vagina, sensação de queimação e corrimento esbrançado, podendo sentir também dor ao urinar e na relação sexual.

“O esperado é que os sintomas diminuam quando a paciente segue as orientações do médico alergista, mostrando taxas de melhora clínica de 70% a 80%.”

Jornal do Médico: Para as pacientes que já esgotaram o uso de antifúngicos convencionais sem sucesso, como a imunoterapia (vacinas) atua para “reeducar” o sistema imunológico? Quais as taxas de sucesso desse tipo de intervention?

Dra. Lorena: Diante desse cenário, a imunoterapia pode ser uma opção para modular e reduzir a frequência das crises. Necessariamente sob acompanhamento de um alergista-imunologista, a dessensibilização é feita através de aplicações por via subcutânea, com doses inicialmente muito diluídas, que vão sendo aumentadas progressivamente (fase de indução). Depois, entra-se em uma fase de manutenção com intervalos mensais. Na prática, o paciente recebe aplicações regulares de extrato padronizado de Candida em doses crescentes. O tempo médio de duração é de 2 a 3 anos. O esperado é que os sintomas diminuam quando a paciente segue as orientações do médico alergista, mostrando taxas de melhora clínica de 70% a 80%.

Jornal do Médico: No contexto da saúde integral feminina, qual a mensagem a senhora deixa para as mulheres e mães que enfrentam o impacto na qualidade de vida e o desgaste emocional causado por esse ciclo de crises?

Dra. Lorena: Que a saúde seja sempre a sua prioridade, pois é a base sólida para que você consiga realizar seus sonhos e viver bem. Infelizmente, essas crises podem levar a perdas de relacionamentos afetivos, afastamento das atividades de trabalho, sérios prejuízos físicos, emocionais e na qualidade de vida.

É importante ampliar o entendimento de que o ideal é que a paciente seja encaminhada pelo(a) ginecologista, mas a própria mulher pode questionar se o seu quadro clínico se apresenta como uma inflamação crônica e solicitar o acompanhamento com um especialista em alergia e imunologia. É possível investigar o caso com testes intradérmicos para candidina e até realizar teste de contato para identificar ou descartar algum outro fator que possa estar piorando os sintomas. Esteja motivada para começar e seguir um tratamento que irá aumentar as chances de que essa doença entre em remissão com a imunoterapia via subcutânea. Diante de informações tão relevantes, deixo esse ALERTA para o cuidado com a saúde da mulher.

“Infelizmente, essas crises podem levar a perdas de relacionamentos afetivos, afastamento das atividades de trabalho, sérios prejuízos físicos, emocionais e na qualidade de vida.”

Marcado:

Revista Digital Rio

Cadastre-se gratuito para receber as edições do Jornal do Médico® Rio em PDF e acompanhe nossas atualizações.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Revista gratuita Ceará