A Anestesia Além da Técnica: Dra. Suzi Farias Revela o Papel do Anestesiologista no Acolhimento Humanizado e na Segurança da Maternidade

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE | Instagram: @jornaldomedico

Primeira da família a ingressar no ensino superior, a Dra. Suzi Maria Fernandes de Farias transformou a infância simples e a inspiração no atendimento humanizado do sistema público em um propósito de vida. Com 27 anos de atuação na anestesia obstétrica na Ilha do Governador, ela construiu um vínculo duradouro com a comunidade, acompanhando o nascimento de gerações e consolidando um legado familiar na medicina. Mestre e doutoranda em tecnologia hospitalar, a médica defende que nenhuma inovação substitui o calor humano. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal do Médico®, ela compartilha relatos emocionantes de alta complexidade em salas de parto, o suporte na perda gestacional e como a espiritualidade e a empatia guiam sua missão de conduzir vidas com segurança.

Jornal do Médico®: Dra. Suzi, sua trajetória é marcada pela superação, sendo a primeira de sua família a ingressar no ensino superior. Como essa história de vida e o desejo de infância de “cuidar de gente” influenciam a forma humanizada como a senhora acolhe as gestantes no centro cirúrgico?

Dra. Suzi: Minha história de vida me ensinou, desde muito cedo, o valor do cuidado com o outro. Filha de um sargento da Aeronáutica e de uma costureira, cresci em um ambiente simples, onde o sonho de me tornar médica parecia distante. Sem tradição acadêmica na família, fui a primeira a romper barreiras e ingressar no ensino superior. Ainda na infância, ao vivenciar problemas de saúde, encontrei no atendimento humanizado de um médico do sistema público a inspiração que transformaria minha trajetória, ali nascia não apenas um sonho, mas um propósito. Essa vivência reforçou em mim o compromisso com cada paciente que passa pelas minhas mãos. No centro cirúrgico, especialmente na maternidade, procuro acolher cada gestante com respeito, escuta e sensibilidade, compreendendo que ali não há apenas um procedimento, mas um momento único na vida de uma mulher e de sua família.

“No centro cirúrgico, especialmente na maternidade, procuro acolher cada gestante com respeito, escuta e sensibilidade, compreendendo que ali não há apenas um procedimento, mas um momento único…”

Jornal do Médico®: Durante 27 anos, a senhora atuou em uma maternidade de referência na Ilha do Governador, onde acompanhou o nascimento de gerações. Como é reencontrar, anos depois, esses pacientes que nasceram sob seus cuidados e qual a importância desse vínculo duradouro para a segurança e confiança na relação médico-paciente?

Dra. Suzi: Reencontrar pacientes que nasceram sob meus cuidados é uma experiência profundamente emocionante e gratificante. Ao longo desses anos, construí algo raro na medicina contemporânea: um vínculo duradouro com a comunidade. Uma geração inteira de crianças nasceu sob meus cuidados e, anos depois, esses mesmos pacientes passaram a cruzar meu caminho em padarias, mercados e clubes, agora como jovens, amigos dos meus filhos ou membros da mesma comunidade e alguns até seguiram a carreira médica e se tornaram meus colegas de profissão. Tive, inclusive, a oportunidade de participar do parto de pacientes que nasceram comigo, o que torna essa trajetória ainda mais significativa. Isso mostra que a medicina vai muito além do ato técnico, ela constrói histórias e vínculos. Esse reconhecimento fortalece a confiança na relação médico-paciente e reforça a importância de um cuidado seguro, ético e profundamente humano desde o primeiro momento de vida.

“Isso mostra que a medicina vai muito além do ato técnico, ela constrói histórias e vínculos.”

Dra. Suzi no Graffée

Jornal do Médico®: A senhora relata um caso emocionante de uma gestante com câncer avançado, onde sua escolha técnica permitiu que ela estivesse consciente para tocar o filho pela primeira vez. Na sua visão, como o anestesiologista pode ir além da técnica para proporcionar dignidade e significado em cenários de alta complexidade obstétrica?

Dra. Suzi: Tratava-se de uma gestante com câncer de mama avançado, com metástases cerebrais e meníngeas, e expectativa de vida limitada, internada para um parto prematuro de 32 semanas. Diante da possibilidade de aquele ser seu único contato com o filho, e embora a primeira opção técnica fosse a anestesia geral, optei por uma abordagem que permitisse mantê-la consciente e estável durante o procedimento. Assim, ela pôde ver, tocar e compartilhar esse momento com o pai da criança, inclusive registrando o encontro em fotografias, algo de valor imensurável naquele contexto. Horas após o parto, apresentou rebaixamento do nível de consciência e evoluiu para o óbito após três meses. Esse caso me marcou profundamente por reafirmar que a medicina vai além da cura: ela também pode oferecer dignidade, presença e significado em momentos únicos, sendo esse um dos episódios mais marcantes da minha trajetória profissional.

“Esse caso me marcou profundamente por reafirmar que a medicina vai além da cura: ela também pode oferecer dignidade, presença e significado em momentos únicos…”

Dra. Suzi e recém-nascido

Jornal do Médico®: Além dos momentos de alegria, a senhora destaca a importância do suporte às mulheres em situações de perda gestacional. Qual o papel da empatia e da “palavra de esperança” do anestesiologista no acolhimento dessas mães em momentos de tamanha vulnerabilidade?

Dra. Suzi: Em diversas situações, estive ao lado de pacientes que enfrentavam abortamentos inevitáveis ou perdas gestacionais, muitas vezes carregadas de dor, frustração e sofrimento emocional. Nessas ocasiões, mais do que a técnica, o acolhimento, a escuta e a palavra de esperança se tornaram essenciais. Com o passar do tempo, tive a oportunidade de reencontrar algumas dessas pacientes in um cenário completamente diferente: o nascimento de seus filhos. Muitas delas retornavam, lembrando-se das palavras de conforto recebidas anteriormente, e compartilhavam comigo a alegria de um desfecho feliz. Essas experiências reforçaram, de forma profunda, que a medicina também é feita de continuidade, de vínculo e de esperança. Poder estar presente tanto nos momentos mais difíceis quanto nos mais felizes da vida dessas mulheres foi algo que reafirmou minha missão como médica.

“Essas experiências reforçaram, de forma profunda, que a medicina também é feita de continuidade, de vínculo e de esperança.”

Jornal do Médico®: Sua filosofia de trabalho é “fazer tudo com Deus na mente e no coração”. De que maneira essa espiritualidade se traduz na prática anestésica, especialmente na responsabilidade de ser o “piloto” que conduz a vida da mãe e do bebê com segurança durante todo o procedimento?

Dra. Suzi: Minha espiritualidade é um alicerce silencioso, mas muito presente na minha prática. Estar com Deus na mente e no coração me traz serenidade e senso de responsabilidade diante de cada procedimento. Além da técnica e do conhecimento científico, acredito que a espiritualidade, independentemente de religião, também contribui para o cuidado, como destaca a Teoria do Conforto de Kolcaba, que inclui a dimensão psicoespiritual entre seus pilares. Pacientes com alguma forma de fé tendem a enfrentar melhor os momentos de vulnerabilidade, e reconhecer isso favorece um cuidado mais integral e humano. Por outro lado, o anestesiologista pode ser comparado a um piloto, conduzindo com segurança mãe e bebê ao longo de todo o procedimento, o que exige técnica, atenção e sensibilidade.

“O anestesiologista pode ser comparado a um piloto, conduzindo com segurança mãe e bebê ao longo de todo o procedimento…”

Jornal do Médico®: Com filhos médicos e uma nora obstetra, a senhora iniciou um verdadeiro legado na profissão. Como as conversas em casa sobre o cuidado com o próximo e a ética médica ajudam a moldar a nova geração de especialistas que a senhora ajudou a formar?

Dra. Suzi: As conversas em casa sempre foram pautadas pelo respeito à vida, à ética e pelo compromisso com o paciente. Ver meus filhos e minha nora seguindo a medicina é motivo de grande orgulho, e acredito que esse ambiente familiar contribuiu para formar profissionais mais humanos, conscientes e comprometidos com o cuidado integral. Ao longo da minha trajetória, sempre demonstrei amor pela medicina, mesmo diante das exigências e do cansaço inerentes à profissão, pois nunca foi apenas um trabalho, mas uma escolha feita com propósito. Talvez por isso, meus filhos tenham seguido naturalmente esse caminho, não por imposição, mas pelo exemplo vivido no dia a dia. De forma muito especial, tive o privilégio de ser a precursora de uma geração de médicos na minha família, transformando um sonho individual em um legado coletivo.

“Tive o privilégio de ser a precursora de uma geração de médicos na minha família, transformando um sonho individual em um legado coletivo.”

Dra. Suzi e família

Jornal do Médico®: Com mestrado e doutorado voltados à tecnologia no espaço hospitalar, a senhora defende que nenhuma inovação substitui o cuidado genuíno. Qual o desafio de equilibrar a constante evolução tecnológica da anestesia moderna com a necessidade de manter o “calor humano” no atendimento à gestante?

Dra. Suzi: A tecnologia trouxe avanços extraordinários para a anestesiologia, aumentando a segurança e a precisão dos procedimentos. No entanto, o grande desafio é não permitir que ela substitua o contato humano. O equilíbrio está em utilizá-la como aliada, sem perder o olhar atento, a escuta sensível e o acolhimento, porque, no fim, o que realmente marca o paciente é a forma como ele foi cuidado.

“O equilíbrio está em utilizá-la como aliada, sem perder o olhar atento, a escuta sensível e o acolhimento…”

Jornal do Médico®: Nos dias atuais, observa-se uma transformação significativa no cenário obstétrico, com novas demandas das pacientes e maior participação da família. Diante desse novo paradigma, que também envolve diretrizes de humanização do parto e prevenção da violência obstétrica, qual é o papel do anestesiologista nesse cenário?

Dra. Suzi: Atualmente, vivemos um novo momento na obstetrícia, com mudanças na dinâmica das salas de parto, incluindo a presença de outros profissionais e maior participação da família, o que exige constante adaptação da equipe. Nesse contexto, é fundamental respeitar as diretrizes de humanização e compreender que, embora seja rotina para nós, para a mãe é um momento único. O anestesiologista precisa ter sensibilidade para reconhecer as necessidades individuais, acolher, transmitir segurança e, quando possível, ajustar o ambiente para maior conforto, sem perder de vista a segurança. O grande desafio é conciliar excelência técnica e conhecimento científico com um cuidado verdadeiramente humanizado, garantindo uma experiência segura e significativa para a mãe e sua família.

“O grande desafio é conciliar excelência técnica e conhecimento científico com um cuidado verdadeiramente humanizado…”

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