Acolhimento na Anestesia Pediátrica: Como o Fator Humano Reduz o Medo e Garante a Segurança Infantil

Reportagem: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE
Edição de Texto: Irma Lasmar
Jornalista MTB-RJ 26110
Instagram: @jornaldomedico

Tão importante quanto os exames clínicos de uma criança é o acolhimento da equipe antes de uma cirurgia. Este pensamento não habita apenas a mente dos pais, mas também se consolidou como a máxima defendida pelo anestesista pediátrico Daniel Ferreira, conselheiro administrativo da Coopanest Rio. Ele, que é pai de três (incluindo uma recém-nascida), une sensibilidade e técnica para atender as famílias com escuta e empatia. Nesta entrevista exclusiva, ele divide sua trajetória de sucesso e as transformações da especialidade. Confira:

Jornal do Médico® Rio — Dr. Daniel, a anestesia pediátrica lida com um dos momentos de maior fragilidade para uma família: entregar um filho aos cuidados da equipe médica. Como a sensibilidade e o acolhimento do anestesista atuam para acalmar não apenas a criança, mas também o coração dos pais antes de entrar no centro cirúrgico?

Dr. Daniel Ferreira — O primeiro passo é estabelecer um bom vínculo com a família, idealmente em uma consulta prévia — seja ela presencial, por videochamada ou até por uma ligação telefônica —, esclarecendo as dúvidas e municiando todos de informações. O medo geralmente nasce do desconhecido. Hospital é um ambiente habitualmente frio, com cheiros diferentes e pessoas de máscaras, o que assusta os pequenos. Chamo a atenção para esses detalhes e peço que os pais conversem com os filhos antes do procedimento, explicando que aquele será um dia diferente na rotina deles. As crianças buscam o seu porto seguro nos pais, e não em mim, por melhor que seja a minha relação com elas. Ouvir a dinâmica e os temores daquela família específica nos permite adaptar o momento com segurança. Explico à criança que não haverá agulhas no início, pois geralmente ministramos a anestesia inalatória, desmitificando o processo.

“As crianças buscam o seu porto seguro e a confiança naquilo que não conhecem nos pais, e não em mim. O meu melhor vínculo é construído acolhendo a família inteira.”

Jornal do Médico® Rio — Você é chefe de um grande grupo de anestesia em uma importante instituição do Rio e convive com realidades complexas. Quais são os principais pilares de segurança e os avanços na assistência que hoje tornam a anestesia em bebês e crianças um procedimento cada vez mais seguro e previsível?

Dr. Daniel Ferreira — Nas últimas décadas, a anestesia evoluiu muito em segurança e processos, o que viabilizou cirurgias de altíssima complexidade antes impossíveis. A segurança é um conjunto de pilares que se unem. O primeiro é o pré-operatório adequado. Tive um professor na faculdade que dizia que uma história clínica bem colhida permite chegar a quase 90% dos diagnósticos; saber ouvir o outro traz as tomadas de decisão corretas. O segundo pilar é a cultura de treinamento contínuo de toda a equipe, incluindo a enfermagem do centro cirúrgico, que deve conhecer os riscos tanto quanto o cirurgião e o anestesista para saber agir diante de imprevistos. O terceiro é a qualidade hospitalar e a gestão de indicadores, acompanhando de perto as intercorrências, pois a estatística em uma capital como o Rio são implacáveis. Por fim, as novas tecnologias em monitorização e medicações, hoje totalmente disponíveis para a pediatria, transformaram a especialidade. Costumo brincar que, na década de 1980, os antigos faziam um ‘voo visual’ na anestesia, colocando o dedo no pulso para sentir o paciente. Hoje, voamos guiados por instrumentos, com dados metabólicos e hemodinâmicos precisos, dispostos em múltiplos monitores na tela.
Dr. Daniel Ferreira - Atendimento Anestesia Pediátrica

Jornal do Médico® Rio — No caso do paciente infantil, como é feito o acompanhamento no pós-operatório para garantir que o despertar seja suave e, acima de tudo, livre de dor?

Dr. Daniel Ferreira — Existe um mito antigo de que o anestesista aplica a medicação e vai embora. Na verdade, somos os médicos que ficam antes, durante e depois de todo o procedimento. Na pediatria, o nível de criticidade exige que o plano anestésico seja minuciosamente traçado com antecedência. Digo aos meus residentes que é obrigatório ter planos A, B e C guardados no bolso. Não podemos nos dar ao luxo de improvisar alternativas no transcorrer de uma anestesia infantil. Isso inclui planejar o despertar. Atualmente, dispomos de drogas modernas que reduzem drasticamente o delírio de emergência, que é aquela agitação comum ao acordar. Além disso, a evolução das Salas de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA), com médico presente 24 horas, elevou significativamente o conforto pós-operatório. Por fim, fechamos o ciclo mantendo o contato com a família na pós-alta para monitorar se a criança dormiu bem, como está se alimentando e se já retornou às atividades habituais.

“Na anestesia pediátrica, ter planos A, B e C bem estruturados não é opcional, é obrigatório. Não há margem para improviso.”

Jornal do Médico® Rio — O medo da agulha e do ambiente hospitalar é muito comum no imaginário infantil. Quais são os principais estratégias lúdicas e técnicas de distração que o anestesista pediátrico utiliza na sala de indução para transformar o ato da anestesia em um processo leve e sem traumas para a criança?

Dr. Daniel Ferreira — Devemos acolher esse medo com profundo respeito e empatia. Minha estratégia não se baseia na idade cronológica, mas em entender o grau de ansiedade e cognição de cada paciente. Recentemente, anestesiei um menino de seis anos com autismo para uma cirurgia otorrinolaringológica. Esperava um cenário desafiador de resistência ao toque, mas os pais o prepararam tão bem que ele sabia que iria respirar em uma máscara para ‘tirar um cochilo’. Ele entrou no centro cirúrgico tranquilo, sem necessidade de medicação prévia ou telas. Por outro lado, quando há grande ansiedade na ruptura com a família, o uso temporário de smartphones ou tablets na sala de indução é um artifício de distração, válido e amplamente documentado em ensaios clínicos e publicações científicas. Outra excelente tática é permitir que os pais entrem na sala e acompanhem a indução inalatória até o filho dormir. No campo lúdico, comparo os monitores a videogames interativos e transformo a máscara de indução em uma ‘máscara de astronauta’, ‘piloto de avião’ ou simplesmente explico que é uma nebulização para crianças maiores e adolescentes que já não se iludem com brincadeiras.
Dr. Daniel Ferreira e equipe no centro cirúrgico

Jornal do Médico® Rio — A anestesia pediátrica exige uma vocação muito clara. Para os jovens médicos e residentes que acompanham o Jornal do Médico® e pensam em seguir essa subespecialidade, qual é o maior aprendizado humano que o convívio diário com os pequenos pacientes nos ensina?

Dr. Daniel Ferreira — Exige, antes de tudo, rigoroso preparo técnico, pois a criança possui alterações anatômicas e fisiológicas muito próprias e nunca pode ser tratada como um adulto em miniatura. Quanto à vocação, a minha foi uma construção. Eu não achava que levava jeito com a pediatria. No meu internato na faculdade, ao abrir a porta de um consultório, acabei derrubando sem querer uma criança que brincava no corredor (risos). Ali pensei: ‘definitivamente não nasci para isso’. Fui empurrando o rodízio de anestesia pediátrica na residência até os últimos dois meses do R3. Quando entrei no Hospital Municipal Jesus, fiquei completamente encantado. Acabei contratado, e foi ali o meu primeiro emprego como anestesista. Passei quatro anos marcantes na instituição. Lidar com crianças nos traz uma carga emocional muito gratificante pela espontaneidade e pelo enorme depósito de confiança que as famílias colocam em nossas mãos. O maior aprendizado é entender que a excelência técnica e a sensibilidade humana não competem, e sim são rigorosamente inseparáveis. Quando o jovem médico compreender isso, a vocação floresce naturalmente.

“A excelência técnica e a sensibilidade humana não competem de forma alguma. Elas são indissociáveis.”

Jornal do Médico® Rio — Além da sua atuação clínica, você integra o Conselho Administrativo da Coopanest Rio. Diante dos desafios antigos do mercado de saúde na capital fluminense, qual é o papel e a importância da cooperativa na valorização do médico anestesista e na garantia de condições dignas e seguras para o exercício da profissão?

Dr. Daniel Ferreira — Sou cooperado desde o início da minha carreira, e fazer parte do Conselho Administrativo ao lado de pessoas idôneas e tecnicamente brilhantes é um convívio que me engrandece e que encaro como um dever cívico com a nossa classe. O mercado de saúde impõe pressões financeiras e comerciais esmagadoras sobre a jornada médica. Vejo a Coopanest Rio como uma saída extremamente digna e honrosa para que o anestesista receba seus honorários de forma correta e honesta. A premissa da cooperativa é ouvir a dor do cooperado na ponta, mas também compreender o cenário das operadoras de saúde, equilibrando as pontas para nos mantermos vivos e influentes como um gestor atuantes no centro das tomadas de decisão. Essa gestão é primorosa nisso. Inspirado por esse ecossistema, busquei fazer meu MBA em Gestão e Inovação em Saúde para ampliar minha visão crítica. Isso me qualificou tanto na liderança quanto na assistência direta, permitindo-me lutar para que continuemos exercendo uma medicina digna e sustentável.
Dr. Daniel Ferreira, Conselheiro da Coopanest Rio

Jornal do Médico® Rio — Dr. Daniel, para encerrarmos, como o fator humano consegue conectar essas três pontas e o que de fato define a medicina perioperatória de excelência no cenário atual?

Dr. Daniel Ferreira — O grande diferencial da medicina de excelência é compreender que a alta tecnologia, os novos fármacos e a precisão robótica dos monitores não anulam o fator humano. Pelo contrário: eles servem exatamente para nos dar lastro de segurança para exercermos o acolhimento com tranquilidade. O paciente precisa ser o norte absoluto do nosso cuidado. A tríade na qual atuo — assistência, gestão e cooperativismo — reflete a maturidade e a evolução da anestesiologia moderna. Ter a capacidade de olhar para o todo, acolher a dor do colega médico no plantão e, em paralelo, desenhar processos corporativos que resultem em um desfecho cirúrgico seguro e confortável para uma criança e sua família é o que constrói o futuro da nossa especialidade. Colocar o paciente no centro do cuidado humaniza a medicina e eleva os padrões de segurança de qualquer instituição.

Sobre o entrevistado:

Dr. Daniel Ferreira é médico graduado pela Faculdade Souza Marques (2006), com Residência Médica em Anestesiologia pelo Hospital Federal do Andaraí (2010). Possui especialização em Dor (2018) e MBA em Gestão e Inovação em Saúde (2025), ambos pela PUC-Rio.

Sua trajetória profissional inclui atuação no Hospital Municipal Jesus (2010 a 2014) and no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO (2012 a 2018). Desde 2014, integra o corpo clínico do Complexo Hospitalar Américas (Hospitais Samaritano Barra e Vitória), onde iniciou como plantonista, assumiu a coordenação do Grupo de Anestesia em 2021 e atua como preceptor do programa de Residência Médica desde a sua fundação, em 2018.

É autor de capítulos de livros e artigos científicos na área, além de membro do Conselho Administrativo da Coopanest Rio.

Instagram: @daniellopesferreira LinkedIn: Daniel Ferreira
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