Artigo publicado na Nature em 19/08/2026, onde pesquisadores de diferentes países afirmam que em pessoas com 110 anos ou mais, a abundância de células que matam o câncer, pode ser fundamental, revelando um sistema imunológico que continua a se adaptar.
Pessoas que vivem até os 110 anos ou mais, possuem grandes populações de um tipo raro de célula imunológica, capaz de combater o câncer, segundo um estudo publicado na revista Cell Reports. É possível que essas células, chamadas de linfócitos T citotóxicos (ou células T assassinas), ajudem as pessoas a alcançar idades extremamente avançadas ao combater o câncer, embora os autores do estudo reconheçam, que isso ainda precisa ser comprovado e que, até o momento, não se sabe exatamente qual é a função específica dessas células.
Os supercentenários, pessoas com 110 anos ou mais, não apenas desfrutam de vidas excepcionalmente longas, mas também parecem evitar doenças associadas ao envelhecimento, como doenças cardíacas, demência e câncer. Os pesquisadores esperam que o estudo do sistema imunológico dos supercentenários ajude a compreender, por que esses indivíduos raros levam vidas tão saudáveis, e forneça pistas para ajudar todas as pessoas, a manterem a saúde por mais tempo.
“A maior parte das pesquisas sobre o envelhecimento do sistema imunológico, concentrou-se no declínio das funções”, afirma o Dr. Kosuke Hashimoto, biólogo da Universidade de Osaka, no Japão. “Nosso estudo sugere que, mesmo em idade extremamente avançada, o sistema imunológico ainda pode passar por adaptações seletivas.”
Células raras
O estudo atual, baseia-se em uma descoberta feita em 2019, pelo Dr. Hashimoto e seus colegas, que revelou que supercentenários, possuem quantidades relativamente elevadas de um tipo raro de célula: os linfócitos T citotóxicos CD4 (CD4 CTLs). Células citotóxicas são aquelas capazes de destruir outras células. Normalmente, os CD4 CTLs representam menos de 5% da população total de células T no organismo. Embora não sejam tão estudados quanto outros tipos de células T, eles são frequentemente detectados durante infecções virais, e há evidências crescentes de sua capacidade de eliminar células cancerígenas, incluindo as de câncer de pulmão e melanoma. Dr. Hashimoto explica que sua equipe queria descobrir em que idade ocorre a proliferação dos CD4 CTLs.
É difícil estudar supercentenários porque poucas pessoas atingem essa idade, diz o Dr. Hashimoto. No Japão, onde a equipe realizou a pesquisa, existem apenas cerca de 150 pessoas com 110 anos ou mais, segundo ele. O estudo contou com a participação de 28 pessoas, incluindo algumas relativamente mais jovens: oito indivíduos entre 70 e 90 anos, dez centenários (pessoas com 100 a 109 anos) e dez supercentenários. Como os pesquisadores haviam constatado anteriormente, as células T citotóxicas (CTLs) CD4 eram abundantes em supercentenários. No entanto, elas também foram encontradas em grande número em pessoas com 100 anos ou mais, o que sugere que essa adaptação imunológica começa por volta dessa idade. As pessoas mais jovens apresentavam uma quantidade normal dessas células, com as CTLs CD4 representando 4% do total de suas células T. Essa proporção era de cerca de 10% nos centenários e de aproximadamente 18% nos supercentenários.
Além disso, descobriu-se que essas células parecem responder a ameaças imunológicas específicas. Cada célula T produzida pelo organismo, gera um receptor único, permitindo que o corpo reconheça e responda a uma ampla variedade de sinais de ameaça antigênica. Quando uma célula T citotóxica (ou “célula T assassina”) encontra seu antígeno, ela se clona, produzindo uma linhagem de células idênticas, que eliminam o alvo. Nos centenários e supercentenários participantes do estudo, os pesquisadores observaram que, linhagens clonais individuais, constituíam uma grande porcentagem do total de CTLs CD4. Na amostra de um centenário, por exemplo, 53,8% das células, eram idênticas entre si. Isso sugere, que seus sistemas imunológicos, estavam sendo ativados em resposta a um gatilho persistente específico.
Como as células foram encontradas circulando no sangue, a equipe de pesquisa não conseguiu determinar em quais tecidos elas estavam entrando, nem qual era a sua função nesses locais. Para obter pistas, examinaram os receptores presentes nas linhagens de células T citotóxicas CD4 mais comuns, e compararam as sequências de aminoácidos dessas linhagens, com as de um banco de dados de receptores de células CD4. Cerca de 30 sequências identificadas no estudo, coincidiam com as de pacientes com câncer, presentes no banco de dados. As correspondências com casos de câncer de pulmão foram as mais frequentes, embora nenhum dos participantes do estudo, tivesse tido qualquer tipo de câncer ao longo da vida.
Resposta adaptativa

Células tumorais geralmente surgem mais tarde na vida; portanto, essas células CD4 assassinas, poderiam proliferar nesse momento como uma resposta adaptativa ao envelhecimento, afirma a Dra. Ana Caetano Faria, imunologista da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil). Caetano Faria e a geneticista Dra. Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (Brasil), lideram em conjunto um estudo sobre centenários e supercentenários brasileiros. As células CD4 assassinas podem representar “uma barreira ao crescimento tumoral em centenários”, acrescenta a Dra. Caetano Faria.
No entanto, o Dr. Shawn Demehri, que estuda câncer e o sistema imunológico no Massachusetts General Hospital, em Boston, observa que o estudo demonstra que essas linhagens celulares se expandem em resposta a um antígeno específico no organismo, e não necessariamente a células cancerígenas. Como as sequências de receptores de linfócitos T citotóxicos (CTLs) CD4, têm sido estudadas principalmente no contexto do câncer, pode haver um viés de detecção, acrescenta ele. Essas células podem desempenhar outras funções.
Outros especialistas concordam, que ainda não é possível determinar a função dessas células. “A ideia de que elas protegem centenários contra o câncer é biologicamente plausível e instigante, mas permanece especulativa, até que seus antígenos sejam identificados e a destruição direta de tumores seja comprovada”, diz o Dr. Alejandro López-Soto, bioquímico que estuda o envelhecimento do sistema imunológico na Universidade de Oviedo, na Espanha.
O Dr. Hashimoto concorda que são necessárias mais pesquisas. Ele afirma que a equipe está analisando conjuntos de dados de célula única, que detalham os CTLs CD4 encontrados em tecidos específicos de pessoas mais jovens. Isso pode fornecer pistas sobre para onde essas células se dirigem nos corpos de supercentenários e centenários, e o que elas fazem nesses locais.
Link do artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02587-1

Imagens: Magnific (Freepik)







