Quando comprar não preenche o vazio

Quem nunca comprou alguma coisa para tentar aliviar uma tristeza, um vazio ou simplesmente um dia difícil? Talvez quase todos nós, em algum momento, já tenhamos recorrido ao consumo para buscar uma pequena dose de felicidade.

Vivemos em uma sociedade que aprendeu a transformar emoções em oportunidades de venda. A publicidade conhece nossos desejos, nossas fragilidades e até nossos momentos de solidão. “Está triste? Compre alguma coisa.” A mensagem nem sempre é dita com palavras, mas está presente. E, diante da facilidade de adquirir quase tudo com poucos toques no celular, consumir tornou-se uma resposta rápida para sentimentos que, muitas vezes, pediriam algo muito diferente: escuta, acolhimento e cuidado.

O problema começa quando o prazer de comprar passa a funcionar como anestesia emocional. A expectativa pelo pacote, a satisfação de “adicionar ao carrinho” e a chegada da encomenda podem oferecer uma sensação momentânea de recompensa. Mas, quando a emoção passa, permanece a pergunta: o que eu realmente estava tentando preencher?

Não se trata de condenar o consumo. Comprar faz parte da vida. O que merece nossa atenção é quando começamos a comprar para não sentir, para não pensar ou para fugir de nós mesmos. A culpa pelo excesso, as dívidas, o acúmulo de objetos e a frustração de perceber que a felicidade não veio podem revelar uma dor que nenhum produto consegue resolver.

Talvez, em algumas situações, por trás de uma compra impulsiva exista solidão. Em outras, baixa autoestima, cansaço, ansiedade ou simplesmente uma vida que deixou pouco espaço para o prazer verdadeiro. Às vezes, estamos tão cansados que procuramos uma recompensa imediata porque já não sabemos onde encontrar descanso dentro de nós.

Precisamos reaprender a perguntar, antes de comprar: “Eu realmente preciso disso ou estou tentando aliviar alguma coisa que estou sentindo?” Essa pergunta simples pode abrir uma porta para o autoconhecimento.

Talvez a verdadeira sobriedade não esteja em possuir menos apenas por possuir menos, mas em desejar com mais consciência. Em descobrir que um encontro, um abraço, uma conversa sincera, uma caminhada, uma música ou o silêncio de uma tarde podem oferecer algo que nenhum carrinho virtual entrega: presença.
O consumismo emocional nos convida a olhar para dentro. Porque, quando tentamos preencher o coração com coisas, talvez seja justamente o coração que esteja pedindo atenção.

E talvez a maior liberdade não seja poder comprar tudo aquilo que desejamos, mas não precisar comprar para nos sentirmos inteiros.

Rossana Köpf – Psicanalista

Imagem: Magnific (Freepik)

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