O avião ainda decola para o norte

Lito Sousa tem 59 anos e passou a vida explicando ao Brasil como um avião se sustenta no ar. Em agosto, sua mulher, Mila Seidl, precisou explicar outra coisa ao país: ele foi diagnosticado com doença de Creutzfeldt-Jakob. Já perdeu boa parte dos movimentos. A lucidez permanece — e o médico lhe pediu que usasse esta janela.

Não há tratamento. A doença é causada por príons, proteínas que corrompem outras proteínas do cérebro, e cerca de 90% dos acometidos morrem no primeiro ano. Entre 2005 e 2021, o Ministério da Saúde registrou 1.576 notificações de casos suspeitos no Brasil. O cuidado disponível é paliativo.

A esperança está em outro lugar. Em abril deste ano, o Broad Institute e a UMass Chan Medical School abriram o recrutamento do PRiSM, ensaio com um siRNA que reduz a produção da proteína priônica, conduzido por Eric Minikel e Sonia Vallabh. A Ionis reabriu, em março, o ION717, com centros nos Estados Unidos e no Japão. No Reino Unido, a MRC Prion Unit do University College London desenvolveu o anticorpo PRN100, cujo primeiro programa em humanos foi publicado na Lancet Neurology em 2022. O Ministério da Saúde pediu a inclusão de Lito em um desses protocolos. Ele aguarda vaga.

Em 1989, Cazuza embarcava para Boston atrás do AZT, então a única droga existente. Naquele tempo, sair do país era privilégio de quem tinha passaporte e dinheiro; os demais morriam em casa, muitos sem sequer receber o nome da própria doença. Trinta e sete anos depois, o avião ainda decola para o norte.

E não decola apenas por falta de dinheiro. Decola por falta de gente. Ensaio clínico não nasce de edital: nasce de uma geração de médicos formada para desconfiar do óbvio, ler o artigo original e escrever o próximo. Formar isso é caro, demorado e não rende manchete.

O Enamed 2025 mostrou onde estamos. De 350 cursos avaliados, 24 receberam nota 1 e 83 receberam nota 2; 13.871 formandos, cerca de 35% dos 39.256 avaliados, vieram dessas escolas. Apenas 49 cursos alcançaram nota 5.

Nenhum jovem entrega seis anos de graduação e mais os anos de residência a uma profissão que não lhe devolva emprego, remuneração digna e caminho. Quando essa conta não fecha, o melhor aluno escolhe outra coisa — e sobra quem pôde pagar pela vaga, não quem tinha vocação para a pergunta. A fatura não vence hoje. Vence em vinte anos, na consulta que ninguém soube conduzir, no diagnóstico que ninguém suspeitou, no ensaio clínico que o Brasil não teve como sediar.

Lito não será salvo por este artigo. Provavelmente não será salvo por nenhum protocolo a tempo. Mas há um menino, agora, decidindo entre medicina e outra carreira, e a resposta dele decidirá se, daqui a trinta anos, uma família brasileira ainda precisará esperar por uma vaga do outro lado do mundo.

Formar bem um médico é o gesto mais concreto de compaixão que um país pode ter. Enquanto adiarmos esse gesto, continuaremos fazendo as malas.

Autor: Dr. Anísio Pinheiro

Presidente seccional Ceará – Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica – gestão 2024/2027
CRM/CE 13.150 RQE: 7090 – Medicina Legal e Perícia Médica

Instagram: @dranisiopinheiro

Imagem: Magnific (Freepik)

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