Setembro amarelo: que a vida seja lembrada todos os dias


Setembro chega trazendo uma cor que nos convida a olhar com mais atenção para aquilo que, muitas vezes, não conseguimos enxergar. O amarelo passou a representar uma importante campanha de prevenção ao suicídio, mas talvez o maior desafio seja compreender que falar sobre a vida não pode ser uma preocupação de apenas um mês.

Setembro é um chamado. Mas essa conversa precisa acontecer em outubro, novembro, dezembro e em todos os dias do ano. Porque a dor não escolhe calendário. Muitas pessoas, em algum momento da vida, são atravessadas por pensamentos de desistência. Algumas têm coragem de falar. Outras escondem o sofrimento atrás de um sorriso, continuam trabalhando, cuidando da família, respondendo mensagens e dizendo que está tudo bem. E nem sempre está.

Por trás de um “estou cansado” pode existir uma história inteira de sofrimento. Por trás de um silêncio, pode haver um pedido de ajuda que a pessoa ainda não encontrou forças para fazer. Quando alguém diz “não aguento mais”, precisamos aprender a escutar. Nem sempre essa frase significa um desejo de morrer. Muitas vezes significa apenas que aquela pessoa não está mais conseguindo suportar sozinha aquilo que está vivendo.

A diferença pode parecer pequena, mas é enorme. Quem sofre profundamente pode perder, temporariamente, a capacidade de enxergar alternativas. A dor ocupa tanto espaço que o futuro desaparece. E é justamente nesse momento que a presença de alguém pode fazer diferença. Não precisamos ter respostas perfeitas. Precisamos estar disponíveis para ouvir. Perguntar “você está bem?” é importante. Mas talvez seja ainda mais importante perguntar: “Como você está de verdade?” Para os profissionais de saúde, esse olhar é ainda mais precioso. Às vezes, o paciente chega falando de insônia, cansaço, dores no corpo ou falta de apetite. Mas existe uma dor que não aparece nos exames. É preciso sensibilidade para perceber quando o sofrimento emocional está pedindo espaço.

Prevenir o suicídio também é cuidar antes que a desesperança se transforme em silêncio definitivo.
É oferecer tratamento, acolhimento, acompanhamento e, sobretudo, dignidade. É compreender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. É um gesto de coragem de quem ainda procura uma possibilidade de continuar.
O Setembro Amarelo tem uma missão fundamental: romper o silêncio. Mas que não coloquemos essa responsabilidade apenas sobre setembro. Que possamos falar sobre saúde mental durante todo o ano. Que nossas famílias aprendam a conversar mais. Que nossas escolas saibam acolher. Que os serviços de saúde estejam preparados para escutar. Que os profissionais também encontrem espaços para cuidar de quem cuida.
E que cada um de nós compreenda que uma palavra pode chegar a alguém no momento em que ela mais precisa.

Talvez não consigamos perceber quantas vidas são tocadas por um gesto de atenção, por uma ligação, por uma escuta sem julgamento ou simplesmente pela presença de alguém que decide permanecer. Por isso, quando setembro terminar, não devemos guardar o amarelo. Que ele permaneça em nossas atitudes. Porque prevenção ao suicídio não deveria ser uma campanha de um mês. Deveria ser um compromisso de todos os meses, de todos os dias e de todas as pessoas. Enquanto houver alguém sofrendo em silêncio, ainda haverá uma razão para perguntar, escutar, acolher e lembrar: a vida pode ficar difícil, mas ninguém deveria precisar atravessar a dor sozinho.

Rossana Köpf – Psicanalista

Imagem: Magnific (Freepik)

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