Da Robótica à Alta Complexidade: O Papel Decisivo da Anestesia no Desfecho Cirúrgico

Dra. Joana Thompson - Anestesista e Head de Marketing Coopanest Rio
Reportagem: Irma Lasmar
jornalista MTB/RJ 26110
Coordenadção: Argollo de Menezes
CEO, Editor Jornal do Médico®, Jornalista DRT-CE 1950 e Membro Honorário SOBRAMES-CE
Instagram: @jornaldomedico

A robótica tem promovido uma verdadeira revolução na medicina ao proporcionar maior precisão cirúrgica, com menos perda de sangue e menor tremor na incisão, além de favorecer uma recuperação mais rápida dos pacientes. E a Dra. Joana Thompson, anestesista com mais de 20 anos de experiência na área, é testemunha dessa transformação. Atuante especialmente nas áreas da Cirurgia Vascular, Urologia, Oftalmologia, Ginecologia e Colonoscopia, ela vem acompanhando e estudando a evolução dessa tecnologia em procedimentos médicos complexos. Nesta entrevista exclusiva, a médica anestesista fala sobre o assunto, bem como sobre atuação multicêntrica por anestesistas multiprofissionais na prática hospitalar e sobre cooperativismo médico na defesa dos direitos e da segurança desses profissionais. Ávida por novidades, a head de Marketing da Coopanest Rio usa de sua formação em branding e inovação para liderar ações que unem médicos, conhecimento e propósito.

Jornal do Médico®: Quais foram as principais transformações que testemunhou na especialidade ao longo de duas décadas de carreira?

Dra. Joana Thompson: A primeira foi a evolução da monitorização, principalmente da profundidade anestésica e do bloqueio neuromuscular, em vez de intuir que o paciente esteja revertido, reduzindo a intercorrência inexplicada. A capnografia deixou de ser luxo e se tornou obrigação. A segunda coisa foi o ultrassom, que mudou a anestesia regional e o acesso vascular. Sair da anatomia de superfície e passar a enxergar o nervo, a agulha e a veia em tempo real trouxe uma segurança imensa e imprescindível. A terceira foi a farmacologia. Drogas de despertar previsível e agentes reversores mudaram a margem de manobra, destacadamente em pacientes idosos e graves. Ressalto também uma mudança que não é técnica, mas de identidade: o anestesiologista deixou de ser aquele que faz o paciente dormir e assumiu o papel de médico perioperatório, que participa das fases pré e pós-operatória, definindo estratégias e cuidando do despertar. A cirurgia minimamente invasiva e depois a robótica exigem um anestesiologista que entenda de fisiologia aplicada e converse em igualdade com o cirurgião.
Dra. Joana Thompson - Jornal do Médico

Jornal do Médico®: Quais são hoje os principais desafios da anestesiologia no manejo do paciente durante cirurgias robóticas de alta complexidade?

Dra. Joana Thompson: Um deles é a docagem, em que os braços do robô são acoplados aos trocartes dentro do paciente, o qual fica literalmente conectado à máquina e não deve se mexer, pois qualquer movimento pode causar uma laceração. O bloqueio neuromuscular profundo e monitorizado é item de segurança obrigatório. Outro é o acesso ao paciente: uma vez docado, muitas vezes em Trendelemburg acentuado e com a mesa girada, os acessos venosos ficam distantes e as vias aéreas praticamente inacessíveis, por isso tudo tem que estar pronto e testado antes de docar, com acesso venoso calibroso e funcionante, tubo bem fixado, monitoração completa. O posicionamento também me preocupa: são cirurgias longas, em que um Trendelemburg de 30 graus por três horas aumenta a pressão intracraniana e intraocular, piora a mecânica ventilatória e causa edema de face, de conjuntiva e de via aérea. Há ainda o risco de lesão por mal posicionamento, que é uma complicação silenciosa e evitável, além do risco de escorregar da mesa. Nada disso aparece na tela do cirurgião, e sim no consultório dele semanas depois. Coxim bem colocado, proteção ocular, checagem do posicionamento antes de docar e reavaliação, sempre que possível, fazem parte do meu trabalho, tanto quanto a droga que eu infundo. E tem ainda o protocolo de desdocagem de emergência, que exige um sério treinamento prévio da equipe.

“Ventilar com pressões altíssimas para não atrapalhar a cirurgia é trocar a segurança da paciente por conveniência. Recuar a tempo é decisão técnica. A anestesiologia não se faz sozinha.”

Jornal do Médico®: Poderia compartilhar uma situação marcante em que a atuação da anestesia fez toda a diferença no desfecho de um procedimento complexo?

Dra. Joana Thompson: Durante uma histerectomia total robótica, para o cirurgião acessar o útero, a paciente ficou em Trendelenburg acentuado, fazendo com que o intestino descesse na direção do tórax. Só que tudo o que saísse da pelve iria empurrar o diafragma e comprimir os pulmões. Some a isso o pneumoperitônio, que é o gás insuflado dentro do abdômen para criar espaço. Essa paciente tinha um metro e meio de altura, 90 quilos e mamas volumosas, ou seja, uma caixa torácica pequena; no momento em que a mesa foi inclinada e o abdome insuflado, a pressão do ventilador disparou, e eu não conseguia ventilar aquela paciente de forma segura. Tentei de tudo: ajustei parâmetros, mudei o modo ventilatório, fiz manobras de recrutamento, aprofundei o bloqueio neuromuscular, pedimos redução da pressão de insuflação e do grau de inclinação. Melhorava um pouco e voltava. E ali existe um limite que ninguém deve ultrapassar: ventilar com pressões altíssimas para não atrapalhar a cirurgia é trocar a segurança da paciente por conveniência. Fiz uma coisa que considero das mais importantes e que ainda se faz pouco na medicina: liguei e pedi ajuda a colegas com experiência em cirurgia torácica-robótica. Decidimos abortar a via robótica. A paciente foi desdocada, a mesa voltou para grau zero, o gás foi retirado e a cirurgia foi concluída por via aberta, sem Trendelenburg e sem pneumoperitônio. A ventilação normalizou na hora. Recuar a tempo é decisão técnica. A anestesiologia não se faz sozinha.
Dra. Joana Thompson em entrevista ao Jornal do Médico

Jornal do Médico®: Quais são os principais desafios logísticos e operacionais que o anestesista enfrenta ao alinhar rotinas, equipes e tecnologias em diferentes hospitais?

Dra. Joana Thompson: Cada hospital é um mundo, onde mudam as marcas dos aparelhos, o local dos medicamentos, o kit de via aérea difícil, os protocolos e o tempo de resposta do banco de sangue e do laboratório. Você pode ser um excelente anestesista e ainda assim perder minutos preciosos procurando uma gaveta. A forma que eu encontrei de lidar com isso foi padronizar a única coisa que está sob meu controle: eu mesma. Chego com antecedência, testo a máquina, confiro os materiais, localizo fisicamente as drogas de emergência e o desfibrilador, verifico reserva de sangue quando o caso pede. É sempre a mesma sequência em qualquer lugar: o ambiente muda, minha rotina não. Muitas vezes você entra numa sala com uma equipe que não te conhece e precisa construir confiança em cinco minutos. Aí vale o básico: chamar as pessoas pelo nome, fazer o briefing antes de começar. Time que conversa antes, erra menos e responde muito melhor quando algo foge do previsto. A cooperativa faz diferença porque ajuda a padronizar a conduta, a garantir cobertura e a criar uma referência comum entre profissionais que atuam em serviços diferentes. Muda o cenário, mas não a avaliação pré-anestésica. Essencial também ter sempre planos A, B e C de conduta.

“O controle emocional também é uma competência técnica. Se eu me desorganizo, a sala tende a se desorganizar junto; se mantenho clareza e antecipação, toda a equipe responde de forma coordenada.”

Jornal do Médico®: Diante dessa rotina entre múltiplos centros hospitalares, como a senhora adapta a conduta anestésica ao transitar por especialidades tão distintas?

Dra. Joana Thompson: Na oftalmologia, o objetivo é ter um paciente tranquilo, colaborativo e imóvel, numa relação em que a comunicação e o vínculo são tão importantes quanto a farmacologia. Na colonoscopia, o anestesista atua fora do centro cirúrgico, em ambiente com estrutura mais enxuta, fazendo sedação profunda com manutenção de ventilação espontânea e via aérea não instrumentada. Recebo muito paciente obeso, com apneia obstrutiva do sono e doença do refluxo gastroesofágico, um perfil que aumenta o risco de hipoventilação, obstrução de via aérea e broncoaspiração. É um cenário que exige capnografia contínua, suplementação adequada de oxigênio, dispositivos para manejo e resgate da via aérea prontamente disponíveis e vigilância permanente. Na ginecologia laparoscópica e na cirurgia urologia robótica, as preocupações são posicionamentos extremos e prolongados, necessidade de imobilidade e adequado bloqueio neuromuscular, repercussões hemodinâmicas e ventilatórias do pneumoperitônio, além da redução significativa do acesso ao paciente após o início do procedimento. Isso exige planejamento anestésico antecipado, porque muitas intervenções tornam-se mais difíceis depois que o robô está acoplado.
Dra. Joana Thompson aborda condutas na Anestesiologia

Jornal do Médico®: Falando em antecipação e preparo, quais protocolos de segurança a senhora considera inegociáveis para evitar o improviso em casos de alto risco?

Dra. Joana Thompson: A cirurgia vascular talvez seja uma das áreas em que a complexidade da anestesia fique mais evidente. Em geral, estamos diante de pacientes com doença aterosclerótica sistêmica e elevada carga de comorbidades cardiovasculares. A presença de doença arterial periférica frequentemente sinaliza acometimento concomitante de outros territórios vasculares, especialmente coronariano e cerebrovascular. Somam-se diabetes mellitus, doença renal crônica, doença arterial coronariana, tabagismo e DPOC. São predominantemente pacientes idosos, muitas vezes frágeis, com reserva fisiológica reduzida e risco perioperatório elevado. Além disso, determinadas cirurgias vasculares apresentam risco de hemorragia aguda de grande volume e rápida deterioração hemodinâmica. Em poucos segundos, um cenário estável pode evoluir para instabilidade circulatória grave. Por isso, a condução anestésica precisa ser baseada em antecipação e preparo, e não em improviso. Isso envolve acessos venosos de alto fluxo, monitorização hemodinâmica invasiva quando indicada, disponibilidade imediata de hemocomponentes e protocolo de transfusão maciça quando necessário, controle rigoroso da temperatura e da hemodinâmica, além de atenção às repercussões do clampeamento e desclampeamento vascular e ao manejo da anticoagulação sistêmica. Soma-se a isso uma estratégia voltada à manutenção da perfusão de órgãos-alvo, proteção miocárdica e renal e adequada oferta de oxigênio aos tecidos. Nesses momentos, o controle emocional também é uma competência técnica. Em uma intercorrência grave, o anestesiologista ocupa uma posição central na estabilização hemodinâmica e na coordenação das medidas de suporte. A equipe inteira percebe essa postura. Se eu me desorganizo, a sala tende a se desorganizar junto; se mantenho clareza, método e capacidade de antecipação, consigo contribuir para que toda a equipe responda de forma coordenada.
Dra. Joana Thompson e o papel da Coopanest Rio

Jornal do Médico®: O mercado da saúde enfrenta grandes desafios para a atuação médica. Qual o papel da Coopanest Rio neste cenário?

Dra. Joana Thompson: O cooperativismo é o melhor modelo para o médico não negociar sozinho com as fontes pagadoras, que são grandes e organizadas. Essa assimetria é a raiz do aviltamento dos honorários. A cooperativa recoloca o médico numa posição de força porque a negociação passa a ser coletiva, com respaldo técnico e jurídico. Não é corporativismo, e sim equilíbrio de mesa. Mas reduzir o cooperativismo ao honorário é empobrecer a discussão. A Coopanest também organiza escalas, sustenta educação continuada, padroniza a conduta e a qualidade assistencial e dá retaguarda ao colega em momentos difíceis. Numa cooperativa, o médico não é investidor, e sim dono – participa, vota, cobra e decide. Anestesista valorizado é anestesista mais seguro. O paciente costuma lembrar do cirurgião, mas quem cuida dele do começo ao fim, quem o mantém vivo e estável durante todo o procedimento, é o anestesiologista. Mostrar isso para a sociedade também é uma forma de defender a especialidade. Meu objetivo é trazer à luz o que é historicamente invisível.

Sobre a entrevistada:

Joana Thompson, CRM: 5275694-6/RJ – RQE Nº: 44380 é médica graduada pela Universidade Gama Filho (2003), com Residência Médica em Anestesiologia no Hospital Geral de Bonsucesso MEC/CET (2004 a 2007) e Pós-graduação em Terapia Intensiva no Hospital de Clínicas de Niterói – AMIB (2007 a 2009).

Mãe de duas meninas, Alícia e Sofia, e dos pets Lola e Anakin, é atualmente Head de Marketing da Coopanest Rio.

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