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Em preparação para o Anest In Rio 2026, a Profa. Dra. Fátima Carneiro analisa os dilemas mais frequentes no pós-operatório obstétrico e defende que o diálogo transparente na consulta prévia é o melhor antídoto contra a insegurança. Em entrevista exclusiva ao Jornal do Médico®, a professora destaca o valor do modelo interativo de debates do evento para transformar a experiência e a tomada de decisão do anestesiologista.
Jornal do Médico® – Dra. Fátima, a cefaleia pós-raqui é uma daquelas situações que todo anestesista prefere evitar, principalmente no pós-parto. Na sua visão, por que essa queixa ainda gera tanta insegurança no dia a dia do centro obstétrico?
Profa. Dra. Fátima Carneiro – Embora a cefaleia pós-raqui seja uma consequência envolvida na raquianestesia, sempre que realizamos a avaliação pré-anestésica e planejamos a técnica a ser discutida com o paciente, as possíveis complicações e suas probabilidades são abordadas.
A raquianestesia traz a possibilidade da cefaleia pós-raqui em menor ou maior proporção, a depender da faixa etária e do grupo de pacientes. Quanto mais jovem for o paciente, maior a chance da complicação; a incidência é menor nos idosos e nas crianças. As mulheres jovens e, principalmente, as gestantes constituem o grupo mais vulnerável e passível de apresentar o quadro, algo que precisa ser amplamente esclarecido.
Mais importante do que gerar insegurança é realizar uma abordagem pré-anestésica criteriosa, esclarecendo o que é a cefaleia pós-raqui, como ela se comporta e de que forma será conduzida caso surja. Se o quadro se manifestar no pós-operatório, devemos realizar o acompanhamento diário, seja presencialmente ou por telemedicina, até a sua completa resolução.
Essa postura define o manejo adequado da complicação e preserva a sólida relação médico-paciente construída desde o pré-operatório, assegurando um cuidado perioperatório de excelência. O desfecho da situação dependerá diretamente da segurança e da presteza com que o anestesiologista conduz o caso.
Vale ressaltar também que a incidência da cefaleia está atrelada ao calibre da agulha — quanto mais fina, menor o risco — e ao número de punções. Pacientes com variações anatômicas ou índice de massa corporal (IMC) elevado apresentam maiores chances de desenvolver a complicação, fatores que devem ser pontuados preventivamente. Quando esses cuidados são adotados, a queixa deixa de ser motivo de insegurança no dia a dia do centro obstétrico.
Jornal do Médico® – A medicina evoluiu muito nos últimos anos. O que as evidências científicas mais recentes trazem de novidade sobre o manejo dessa dor? O tratamento conservador ainda tem espaço ou o Blood Patch segue soberano?
Profa. Dra. Fátima Carneiro – A utilização do blood patch tem crescido, sobretudo na Europa, com a finalidade de encurtar o tempo de resolução da cefaleia pós-raqui. No Brasil, contudo, esse cenário ainda não é a regra. Levantamentos e pesquisas nacionais demonstram que a preferência da maioria dos anestesiologistas brasileiros permanece voltada ao tratamento conservador.
Em três décadas dedicadas à anestesia obstétrica e com ampla prática em raquianestesia, conduzi os episódios de cefaleia pós-raqui que acompanhei por meio da abordagem conservadora. Em situações específicas no âmbito hospitalar público, diante de reinternações com sintomas intensos, utilizei o tampão peridural com solução fisiológica. Embora não garanta 100% de eficácia na remissão dos sintomas, trata-se de uma alternativa viável.
O blood patch expande-se mundialmente por conferir maior resolubilidade de maneira imediata, mas a prática clínica no Brasil ainda mantém uma conduta predominantemente conservadora.
Jornal do Médico® – Nem toda dor de cabeça no pós-parto é decorrente da raquianestesia. Quais são os principais sinais de alerta que a equipe médica não pode deixar passar para não errar no diagnóstico?
Profa. Dra. Fátima Carneiro – Essa é uma consideração fundamental: nem toda dor de cabeça no pós-parto decorre da raquianestesia, e a equipe assistencial precisa estar muito atenta a isso. Existem cefaleias de origens diversas, inclusive de maior gravidade. Quando um paciente submetido a bloqueio neuroaxial queixa-se de dor de cabeça, há uma tendência quase automática de outros profissionais atribuírem o sintoma exclusivamente à raquianestesia.
O diagnóstico diferencial é amplo. Pacientes com enxaqueca crônica podem vivenciar uma crise coincidente com o puerpério. Além disso, a literatura recente, como publicações da International Journal of Obstetric Anesthesia, ressalta o impacto da privação de sono, do estresse, da exaustão física e das oscilações hormonais na etiologia de cefaleias tensionais durante o pós-parto. Já vivenciei casos em que a paciente foi encaminhada pela cirurgiã sob suspeita de cefaleia pós-raqui e, após uma anamnese criteriosa, constatou-se uma dor associada à estafa e aos cuidados com o recém-nascido, cabendo ao anestesiologista intervir em favor do bem-estar dessa mãe.
Paralelamente, causas graves como sangramentos intracranianos precisam ser prontamente descartadas. A cefaleia pós-raqui apresenta características semiológicas marcantes: é tipicamente postural (com piora ortostática patognomônica), bilateral e frequentemente acompanhada de fotofobia ou zumbido — manifestações que podem mimetizar uma crise de enxaqueca.
A anamnese detalhada e o exame físico minucioso são determinantes para fechar o diagnóstico no pós-operatório. Nosso compromisso médico não se restringe à técnica anestésica, mas abrange o bem-estar integral da paciente. Com exceção de quadros neurológicos graves que demandem transferência imediata à neurologia ou neurocirurgia, temos plena condição de conduzir e restabelecer o conforto da puérpera.
Jornal do Médico® – Sua mesa no Anest In Rio vai usar a gamificação para debater esses cenários. Como essa forma dinâmica de debater ajuda o médico a tomar decisões mais rápidas e seguras na vida real?
Profa. Dra. Fátima Carneiro – A gamificação é uma metodologia lúdica e eficaz para a problematização de tomadas de decisão clínicas. O modelo estrutura cenários reais com múltiplas opções de conduta, estabelecendo um tempo delimitado para reflexão individual e escolha terapêutica.
A dinâmica permite avaliar criticamente se as escolhas encontram respaldo nas evidências científicas atuais, observar a distribuição dos votos da plateia e analisar por que certas soluções se mostram mais vantajosas que outras em situações específicas.
Essa metodologia ativa, amplamente empregada nos programas de residência médica para a formação de especialistas, agora ganha espaço nos grandes congressos. Ela dinamiza o aprendizado, prende a atenção dos colegas e promove uma imersão profunda dos participantes na resolução dos casos.
Jornal do Médico® – Para encerrar, o que os colegas anestesistas e residentes podem esperar dessa imersão no Anest In Rio 2026? Qual é o seu recado para quem ainda vai garantir a inscrição?
Profa. Dra. Fátima Carneiro – Os anestesiologistas e médicos residentes podem esperar um grande encontro. O Anest In Rio foi estruturado com planejamento rigoroso, curadoria atenta e modelos disruptivos de debate para superar o formato tradicional de conferências, incorporando inovações didáticas e reunindo referências de destaque do Brasil e do exterior.
Assim como ocorreu na primeira edição, os participantes vivenciarão uma experiência científica de altíssimo nível. Aguardo todos vocês no Rio de Janeiro.
Sobre a Entrevistada
Profa. Dra. Fátima Carneiro Fernandes (CRM: 5248744-0/RJ | RQE Nº 18142). Graduada em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1987), realizou Residência Médica em Anestesiologia no HUCFF/UFRJ (1991) e obteve o Título Superior em Anestesiologia pela SBA (1992). É Mestre (1999) e Doutora (2005) em Medicina (Cirurgia Geral) pela UFRJ. Atualmente, é Professora Associada da Faculdade de Medicina da UFRJ, Diretora Adjunta de Extensão da FM/UFRJ e Co-responsável pelo CET Bento Gonçalves HUCFF/UFRJ.







