Junho ocupa um lugar especial no coração dos nordestinos. É o mês das bandeirinhas coloridas, das quadrilhas, das comidas típicas e dos encontros familiares que atravessam gerações. O São João é muito mais do que uma festa. É uma das expressões mais genuínas da identidade cultural do Nordeste brasileiro.
Mas, ao lado da alegria das celebrações, existe uma realidade que se repete todos os anos e que merece atenção. Durante o período junino, hospitais e serviços de emergência registram aumento nos atendimentos relacionados a queimaduras, acidentes com fogos de artifício, lesões oculares e problemas respiratórios associados à fumaça das fogueiras.
As queimaduras estão entre os acidentes mais frequentes. Muitas pessoas imaginam que se tratam apenas de lesões superficiais da pele. Na prática, podem resultar em infecções graves, necessidade de cirurgias, longos períodos de internação e sequelas físicas e emocionais permanentes. Dependendo da extensão da área atingida, representam inclusive risco à vida.
As fogueiras, símbolo tradicional das festas juninas, participam de grande parte dessas ocorrências. Crianças brincando próximas ao fogo, roupas inflamáveis, ambientes movimentados e momentos de distração criam uma combinação que favorece acidentes. Em poucos segundos, uma situação de lazer pode se transformar em uma emergência médica.
Os fogos de artifício também merecem destaque. Embora façam parte do imaginário das festividades, seu uso inadequado continua sendo uma importante causa de lesões. Queimaduras nas mãos, amputações de dedos, traumas faciais, lesões oculares e danos auditivos são algumas das consequências observadas todos os anos nos serviços de saúde. Muitas vezes, os acidentes ocorrem quando alguém tenta reacender um artefato que aparentemente não funcionou ou quando o manuseio é realizado sem os cuidados necessários.
Existe ainda um aspecto frequentemente negligenciado: a fumaça produzida pelas fogueiras. A combustão da madeira libera partículas microscópicas capazes de alcançar as regiões mais profundas dos pulmões. Pessoas com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica, fibrose pulmonar e outras doenças respiratórias podem apresentar piora importante dos sintomas durante esse período. Tosse, chiado no peito, falta de ar e desconforto respiratório tornam-se mais frequentes. Mesmo indivíduos sem doenças prévias podem sentir irritação das vias aéreas e redução temporária da qualidade respiratória.
Crianças e idosos merecem atenção especial. Os pulmões das crianças ainda estão em desenvolvimento, enquanto os idosos frequentemente apresentam menor reserva funcional respiratória. Para ambos os grupos, a exposição prolongada à fumaça pode trazer impactos mais significativos.
A boa notícia é que a maioria desses acidentes pode ser evitada. Fogueiras devem ser montadas em áreas abertas, longe da circulação intensa de pessoas e afastadas de materiais inflamáveis. Crianças precisam ser supervisionadas continuamente por adultos. Fogos de artifício devem ser adquiridos apenas em locais autorizados e utilizados de acordo com as orientações de segurança. Além disso, queimaduras extensas, profundas ou localizadas em regiões sensíveis, como face, mãos, pés e genitais, exigem avaliação médica imediata.
Também é importante desfazer alguns mitos. Aplicar pasta de dente, manteiga, café em pó ou outras substâncias caseiras sobre queimaduras não ajuda na recuperação e pode aumentar o risco de complicações. A recomendação inicial é resfriar a área com água corrente em temperatura ambiente por alguns minutos e procurar assistência médica quando necessário.
O São João representa encontro, memória e celebração. Preservar essa tradição é importante para a cultura nordestina. No entanto, preservar a saúde das pessoas que participam dela é igualmente fundamental. Tradição e segurança não são conceitos opostos. Quanto mais consciência tivermos sobre os riscos, maior será a chance de que as lembranças desta época sejam feitas de música, dança, sorrisos e reencontros, e não de acidentes que poderiam ter sido evitados.

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