Calor Extremo: cientistas questionam se os riscos para a saúde estão sendo subestimados

Artigo publicado na Medscape Pulmonary Medicine em 24/06/2026, onde pesquisadores alemães da Austrália afirma que as ondas de calor representam uma ameaça crescente à saúde pública no mundo.

O calor extremo é cada vez mais reconhecido como uma ameaça ao coração, pulmões, rins e cérebro, com novos dados, que associam ondas de calor, a taxas mais elevadas de internações hospitalares, partos prematuros e afastamentos do trabalho por motivo de saúde.

Novo Normal

No final de maio, a Europa vivenciou sua primeira onda de calor do ano. Atualmente, mais dias quentes estão previstos. Especialistas em clima preveem outro verão mais quente que a média em 2026, enquanto as Nações Unidas projetam um aumento ainda maior da temperatura, devido às mudanças climáticas nos próximos 5 anos.

Com o aumento das temperaturas, as ondas de calor se tornam mais frequentes e duradouras. Pesquisadores alertam que esses eventos representam uma ameaça crescente à saúde pública, e exercem pressão cada vez maior, sobre os sistemas de saúde. As consequências da exposição ao calor para a saúde se refletem tanto no aumento da mortalidade relacionada ao calor, quanto no aumento da morbidade.

No entanto, o efeito real é difícil de quantificar, pois o calor raramente é identificado como a causa direta de uma doença ou morte. Portanto, os pesquisadores se baseiam em modelos estatísticos. Por exemplo, o Instituto Robert Koch estimou que, aproximadamente 2.500 mortes na Alemanha em 2025, foram atribuíveis ao calor.

Dados sobre morbidades relacionadas ao calor também estão surgindo. Após um único dia com temperaturas acima de 30 °C, o número de relatos de licença médica aumentou 3,5%. Após 5 dias consecutivos de calor extremo, o aumento chegou a 5%, subindo para 10,8% após 7 dias consecutivos.

Carga Crescente

Em entrevista ao Science Media Center, a Dra. Alexandra Schneider, vice-diretora do Instituto de Epidemiologia e chefe do Grupo de Pesquisa “Riscos Ambientais” da Helmholtz Munique, afirmou: “Já existem estimativas epidemiológicas relativamente confiáveis ​​de morbidade e mortalidade relacionadas ao calor na Alemanha”.

“De modo geral, o calor é agora um dos riscos ambientais mais significativos para a saúde na Alemanha e no mundo, juntamente com os poluentes atmosféricos”, disse Schneider.

Sem medidas eficazes de adaptação, espera-se que a mortalidade relacionada à temperatura aumente substancialmente, de acordo com o Dr. Martin Röösli, chefe da Unidade de Exposições Ambientais e Saúde do Instituto Suíço de Saúde Pública e Tropical em Basileia, Suíça. Ele citou as conclusões de um amplo estudo publicado em janeiro de 2025.

A pesquisa sobre morbidade relacionada ao calor, ainda é menos abrangente do que a sobre mortalidade relacionada ao calor.

A Dra. Veronika Huber, do Departamento de Biologia da Conservação e Mudanças Globais da Estación Biológica de Doñana, em Sevilha, Espanha, afirmou que “a morbidade relacionada ao calor, tem sido muito menos estudada na Alemanha, do que a mortalidade relacionada ao calor. Até onde sei, não existem estimativas estatísticas publicadas até o momento sobre o número total de internações hospitalares relacionadas ao calor na Alemanha”.

No entanto, diversos indicadores podem ser usados ​​para avaliar o impacto do calor extremo na saúde, incluindo internações hospitalares, visitas ao pronto-socorro, chamadas para serviços médicos de emergência, consultas ambulatoriais, dados de licença médica e registros que acompanham infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.

Múltiplos Órgãos

Schneider observou que o calor extremo impõe uma grande carga ao sistema cardiovascular, pois a pressão arterial cai, à medida que os vasos sanguíneos se dilatam, forçando o coração a trabalhar mais. Em indivíduos com doenças preexistentes, isso aumenta o risco de angina, infarto do miocárdio, insuficiência cardíaca e arritmia.

Simultaneamente, a transpiração excessiva e a perda de líquidos podem levar à desidratação e a distúrbios eletrolíticos, aumentando o risco de colapso circulatório e trombose. Certos medicamentos, incluindo diuréticos e betabloqueadores, podem aumentar ainda mais esses riscos.

Indivíduos com doença renal, doença pulmonar, diabetes ou distúrbios neurológicos também são particularmente vulneráveis.

O calor frequentemente coincide com concentrações elevadas de ozônio e material particulado, que podem irritar o trato respiratório, e desencadear a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica e da asma.

Grupos Vulneráveis

Os idosos continuam sendo a população mais afetada pelo estresse térmico e pelas ondas de calor, de acordo com o Dr. Kilian Rapp, diretor médico de geriatria aguda e chefe do Departamento de Gerontologia Clínica do Hospital Robert Bosch em Stuttgart, Alemanha.

“O calor representa uma ameaça concreta de danos aos idosos”, disse Rapp.

Os fatores de risco para mortalidade relacionada ao calor incluem idade avançada, baixo nível socioeconômico, transtornos por uso de substâncias, mobilidade reduzida, doenças pulmonares, doenças cardiovasculares, condições psiquiátricas geriátricas e o uso de medicamentos sedativos.

Viver sozinho ou em andares altos, também aumenta o risco. Os fatores de proteção incluem acesso a ar-condicionado, transporte e a capacidade de manter a autonomia nos cuidados pessoais.

Efeitos no Cérebro

O calor também afeta o cérebro e o sistema nervoso de diversas maneiras. As altas temperaturas podem alterar a função neuronal, promover estresse oxidativo e inflamação, e prejudicar a barreira hematoencefálica. Segundo a Dra. Ameli Breuer, médica neurologista e pesquisadora da Charité – Universitätsmedizin Berlin, na Alemanha, e porta-voz do Grupo de Trabalho de Neurologia da Aliança Alemã para Mudanças Climáticas e Saúde.

As altas temperaturas aumentam o risco de acidente vascular cerebral (AVC). Os sintomas podem piorar em indivíduos com doença de Parkinson ou esclerose múltipla, e há evidências, de que o calor pode desencadear convulsões ou exacerbar os sintomas, em indivíduos com epilepsia ou enxaqueca.

Entre indivíduos com demência, o calor extremo está associado ao aumento de internações hospitalares e mortalidade.

De acordo com Breuer, do ponto de vista neurológico, o calor não é mais um problema do futuro. Esses efeitos já são visíveis na prática clínica diária, e espera-se que aumentem com o avanço das mudanças climáticas.

O calor também pode afetar a saúde mental. De acordo com o Dr. Sebastian Karl, do Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia do Instituto Central de Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Mannheim, Universidade de Heidelberg, na Alemanha, os indivíduos podem apresentar redução da concentração, sono de má qualidade, aumento da irritabilidade e, em alguns casos, comportamento agressivo.

Do ponto de vista psicológico, o calor atua como um fator estressante, reduzindo a capacidade de lidar com demandas adicionais. Mecanismos biológicos também podem contribuir, incluindo alterações inflamatórias no cérebro e alterações no equilíbrio de neurotransmissores.

Riscos para Crianças

As crianças são particularmente sensíveis a fatores de estresse ambiental, como calor, poluição do ar e eventos climáticos extremos. Seus corpos ainda estão em desenvolvimento, elas passam mais tempo ao ar livre e, em geral, são mais fisicamente ativas do que os adultos, de acordo com a Dra. Marie Standl, chefe do Grupo de Pesquisa “Epidemiologia de Doenças Alérgicas” e “Epidemiologia Pulmonar” do Instituto Helmholtz de Munique.

“As crianças não são adultos em miniatura, quando se trata dos efeitos do calor. Sua termorregulação ainda está em desenvolvimento; elas têm uma área de superfície corporal maior em relação ao volume, e são menos capazes de transpirar. Crianças pequenas e bebês, são particularmente dependentes de seus cuidadores para protegê-los do calor”, disse Standl.

Crianças e adolescentes são particularmente vulneráveis, ​​porque seus sistemas termorregulatórios ainda não estão totalmente desenvolvidos. Eles geram mais calor metabólico em relação ao peso corporal, têm uma área de superfície corporal maior em relação à massa corporal e, portanto, absorvem mais calor do ambiente.

Ao mesmo tempo, eles têm um volume sanguíneo menor e um débito cardíaco reduzido, em comparação com os adultos.

O Dr. Dirk Holzinger, médico chefe de reumatologia pediátrica do Hospital Universitário de Essen, na Alemanha, observou que as evidências apontam para taxas de hospitalização mais altas entre crianças e adolescentes, em dias extremamente quentes.

Riscos na Gravidez

A Dra. Petra Arck, professora do Departamento de Medicina Feto-Materna Experimental do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE), em Hamburgo na Alemanha, afirmou que o calor extremo durante a gravidez, impõe um estresse considerável ao corpo e está associado a riscos graves.

As altas temperaturas podem levar à desidratação, estresse cardiovascular e redução do fluxo sanguíneo uterino, afetando potencialmente os resultados da gravidez.

A Dra. Anke Diemert, do Departamento de Obstetrícia e Medicina Fetal da mesma instituição, observou que inúmeros estudos, associaram o estresse térmico ao parto prematuro.

Pesquisas realizadas no centro constataram que, temperaturas entre 30 °C e 35 °C, mantidas por vários dias consecutivos, podem aumentar o risco relativo de parto prematuro.

Medidas de Proteção

Até o final de 2024, apenas 20 municípios alemães (de vários milhares) possuíam um plano de ação para a saúde em relação ao calor. A maioria dos estados alemães, agora exige que os municípios desenvolvam tais planos, geralmente até 2030, de acordo com o Dr. Clemens Becker, chefe de geriatria do UKE.

Becker também observou que hospitais e instituições de longa permanência, são legalmente obrigados a manter e atualizar regularmente sistemas de alerta de calor e planos de ação para o calor.

Idosos que vivem sozinhos precisam ser protegidos por suas famílias, vizinhos e voluntários.

A Dra. Kerstin Kammerer, do Instituto de Pesquisa Gerontológica de Berlim, destacou modelos de proteção contra o calor já existentes, incluindo planos desenvolvidos pela Aliança de Ação para a Proteção contra o Calor de Berlim para profissionais de saúde e grupos vulneráveis, como idosos, pessoas doentes e pessoas em situação de rua, contra o aumento das temperaturas e ondas de calor perigosas.

Link do artigo original: https://www.medscape.com/viewarticle/extreme-heat-are-health-risks-being-underestimated-2026a1000ldr?src=

Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico
Dr. Dylvardo Suliano, Médico Pneumologista e Colunista do Jornal do Médico

Imagens: Freepik

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