Editorial publicado na Nature em 01/07/2026,onde os pesquisadores britânicos afirmam que a confiança na Ciência ainda não entrou em colapso, mas os cientistas têm problemas urgentes a resolver.
O Dr. Niels Mede está curioso para saber como o público vê a ciência. No mês passado, dois motoristas diferentes do Uber disseram ao pesquisador de comunicação científica, que acreditavam que a confiança na ciência era baixa em seus países.
Isso não surpreendeu o Dr. Mede, que trabalha na Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen, na Holanda. Ele já havia observado a ideia de uma crise de confiança pública na ciência em manchetes, títulos de livros e programas de conferências, e co-liderou um importante estudo sobre o assunto. Essa ideia ganhou força com a retórica populista, que retrata os cientistas, como parte de uma elite distante da realidade e suspeita. A desconfiança na ciência está sendo usada pelo governo dos EUA, como uma das justificativas para atacar a atividade científica.
A confiança na ciência é importante. O conhecimento científico não pode influenciar decisões e melhorar vidas, a menos que cidadãos e formuladores de políticas o considerem confiável. A confiança de que os cientistas e o processo científico produzem conhecimento confiável e valioso, também é necessária para manter o apoio ao financiamento público da pesquisa. É por isso que a revista Nature desta semana, inclui uma série de artigos sobre confiança na ciência. Juntamente com uma extensa coleção online, o estudo identifica os problemas, e analisa como os cientistas podem manter a confiança do público e dos formuladores de políticas.
A ideia de que a ciência está passando por uma crise de confiança, é uma simplificação excessiva para problemas mais complexos. Como exposto em um artigo, os dados não corroboram a ideia de uma crise global. Pesquisas mostram consistentemente, que a profissão científica goza de maior confiança, muito mais do que a maioria.
Uma visão geral de pesquisas relevantes, publicada em junho pela Wellcome, financiadora de projetos biomédicos em Londres, e pelo think tank de políticas públicas RAND Europe, em Cambridge, Reino Unido, mostra que a confiança na ciência e nos cientistas está entre média e alta, e não em colapso. Uma pesquisa de 2024 com mais de 23.000 pessoas em 32 países, realizada pela empresa de pesquisa de mercado Ipsos, com sede em Londres, mostrou que 56% dos entrevistados confiavam nos cientistas. Apenas os médicos (58%) inspiravam mais confiança. Políticos (15%) e executivos de publicidade (19%) ficaram na base do gráfico.
Mas os níveis e as tendências de confiança na ciência e nos cientistas variam de país para país, e estão diminuindo em alguns grupos. Em alguns lugares, a confiança está polarizada por linhas políticas. Nos Estados Unidos, está caindo entre pessoas que se identificam como republicanas ou com tendência republicana, mas não entre democratas. Essa tendência surgiu há cerca de 20 anos, mas se acelerou durante a pandemia de COVID-19. Faz parte de uma perda mais ampla de confiança pública em instituições, incluindo a mídia, empresas e órgãos políticos.
Um problema subjacente é que os acadêmicos, incluindo os cientistas, às vezes são vistos como elite e desconectados da maioria das pessoas, uma ideia amplificada por alguns grupos populistas. Uma pesquisa com pessoas que vivem na Grã-Bretanha, publicada em abril pela Wellcome e pelo think tank político More in Common, em Londres, destaca essas divisões. Ela mostra que os cientistas são mais de esquerda do que o público em geral; além disso, 29% dos entrevistados afirmam que “os cientistas se consideram superiores às outras pessoas”.

A confiança também está diminuindo em áreas específicas da ciência. Um número crescente de pessoas questiona ou rejeita as vacinas. As vacinas contra o sarampo salvaram cerca de 59 milhões de vidas desde 2000, segundo a Organização Mundial da Saúde, mas a hesitação em relação à vacinação, é um dos principais motivos pelos quais seis países, incluindo o Reino Unido, a Espanha e a Armênia, perderam o status de países livres do sarampo este ano, e o status dos EUA está em risco.
Os pesquisadores precisam diagnosticar com precisão as causas dessas tendências. Isso significa, entre outras coisas, usar medidas mais detalhadas de opiniões e preocupações. Perguntar às pessoas se elas “confiam na ciência” é algo muito vago, muitos entrevistados provavelmente pensam em biologia e física estereotipadas, e dizem que sim, mesmo que também rejeitem vacinas ou políticas baseadas na ciência, que conflitem com seus valores. Há necessidade de mais especificidade e clareza nas pesquisas sobre essa confiança.
É importante testar estratégias que construam confiança, e abordem efetivamente as preocupações específicas das pessoas. Por exemplo, existe um conjunto substancial de pesquisas que demonstra como responder com compaixão à hesitação em relação às vacinas. Outros trabalhos estão testando maneiras de aprimorar o uso da pesquisa na formulação de políticas públicas.
Os pesquisadores também precisam se esforçar mais, para se conectar com a sociedade em geral, e dissipar a percepção de elitismo. Uma maneira de fazer isso, é aumentar a participação pública em todas as etapas da pesquisa, incluindo a definição de suas prioridades, algo amplamente discutido, mas raramente praticado. As pessoas tendem a confiar mais nos cientistas, quando estes confiam no público e são transparentes sobre as muitas incertezas da ciência, como argumentam especialistas em comunicação científica e políticas públicas em um artigo.
Alguns problemas não têm soluções fáceis. Não há incentivo para que os políticos apoiem a ciência, se puderem obter mais votos e influência, rejeitando suas evidências e adotando narrativas alternativas. Isso é agravado pela fragmentação do ecossistema midiático e pela ascensão das mídias sociais, o que significa que os cientistas estão perdendo influência.
Informações imprecisas e não confiáveis são prejudiciais quando levam a decisões individuais que afetam a saúde, como a recusa de vacinas, ou quando minam o apoio a ações climáticas que salvam o planeta, e a medidas de saúde pública que salvam vidas. Ser confiável é tanto um privilégio quanto uma responsabilidade. Os pesquisadores devem se esforçar mais para divulgar descobertas precisas, e lembrar que a confiança é facilmente desperdiçada e perdida.
Artigo original: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01974-y

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